Jemaa el-Fna é o nome da praça mais importante de Marraquexe, a “cidade vermelha” no sudoeste do Marrocos. O ônibus do aeroporto deixa muitos turistas por ali, a maioria com mapa na mão: a praça é também a entrada da medina (ou almedina), parte antiga das cidades desta região do norte da África. Medina é sinônimo de cidade murada, com vielas estreitas que só podem ser comparadas a um labirinto. Não conte com os tais mapas que você traz à mão, nem com GPS, nem com o senso de direção que um dia você julgou ter. É assim mesmo, em algum ponto você vai se perder. 

Movimento em uma tarde na medina

As primeiras sensações em Marraquexe – e no Marrocos – são de estranhamento: a confusão de vendedores na rua não tem para nós o toque “exótico” que deve ter para o turbilhão de turistas franceses. Afinal, também temos um Saara, mercado popular no Rio de Janeiro. Mas as placas em árabe e o som no qual não distinguimos palavra; as visitantes desfilando pernas à mostra em meio aos diversos véus das marroquinas; o cheiro do chá de menta, bebido aos litros diariamente; a monocromia das paredes, que eles dizem vermelhas, mas na verdade são rosadas; as bicicletas, motocicletas e burros no meio de ruas apertadas e onde o tráfego é permitido apenas aos pedestres; as orações diárias que ecoam dos autofalantes das mesquitas para toda a cidade são, sim, novidades que por algum tempo vão entrar em nosso cotidiano.

Andar pela parte velha de Marraquexe, quase mil anos de história, é perder-se. E depois de alguns dias, descobrir que sempre, por mais que se entre no labirinto, ele vai dar no mesmo ponto de uma mesma rua. As mercadorias se repetem muito nas milhares de lojinhas do zouk, o mercado da medina. Especialmente as áreas centrais da região parecem desenhadas para turistas. São especiarias, artigos em couro, lindas luminárias de metal, muitas jóias em prata e pedras e alguma cerâmica, especialmente pratos pintados e as panelas para fazer tajine, centro da culinária local. Trata-se de carne e legumes cozidos lentamente com especiarias na panela própria, cheiram bem e dão água na boca. Mas o prato básico fica um tanto cansativo depois de dez dias. E para comprar – não importa se a cerâmica ou a comida -, há uma regra principal: negociar. É como se os produtos não tivessem preço. Dizem que um prato pintado custa 850 dirham (cerca de R$ 234) e ao final você consegue levar por 250 dirham (R$ 69) – ou menos.

Seguindo em direção à Koutoubia, mesquita cujo minarete (torre) de 69m é o prédio mais alto da cidade, logo se atravessa um parque e é possível sair dos altos muros que circundam a medina. Aí encontramos uma cidade mais moderna e menos confusa, apesar do trânsito pesado. Também diminui gradativamente a quantidade de turistas e crescem as áreas verdes. Parques e jardins há vários, ideais para fugir do sol que esquenta mais e mais com a proximidade do verão.

Para lá de Marraquexe: paisagens douradas até o deserto

Vale do Tinghir, verde no caminho do deserto

Em geral, interessados em conhecer a porção marroquina do Saara seguem para o leste até uma aldeia berbere chamada Merzouga, porta às dunas de Erg Chebbi. Os berberes são povos antigos do norte da África, que estão ligados entre si pela língua de mesmo nome – apesar de no sul do Marrocos, por exemplo, falarem ao menos três dialetos. Definem a si mesmos como “homens livres” e a arabização e islamização só aconteceram no século XII. Hoje, 99% da população marroquina é muçulmana, mas a autodefinição como “berbere” veio de muitos lados, dos guias com camelos a um senhor no restaurante em Fes, e não soava como um modo de agradar aos turistas.

Ait Benhaddou - Hollywood no meio do Marrocos

Depois de muitas contas envolvendo finanças e tempo, partimos para Erg Chebbi em uma van com outros turistas. Assim, pelo menos, teríamos a oportunidade de parar por uma hora em Aït Ben Haddou, cidade fortificada na antiga rota das caravanas entre Marraquexe e o deserto, mas conhecida mesmo porque virou locação de dezenas de filmes de Hollywood desde Lawrence da Arábia (1962) chegando aos mais recentes Gladiador (2000) e Game of Thrones(2011). Peter O’Toole, o Lawrence, deve ter passado muito calor por lá, esforço insuficiente para ganhar o Oscar. Mas, pelo menos, conheceu antes da onda turística a cidade imponente, composta de linhas retas que quase se misturam à paisagem natural árida. Lá tudo é dourado. Aliás, são assim, douradas, as montanhas curiosas de Gorges du Dades e as escarpas altas da Todra Gorge, ambas na província de Tinghir. Mas não se engane: por ali, com alguma água a paisagem muda e você vê de longe palmeiras e agricultura inundando o vale de verde. Segundo o guia, na região o turismo é a segunda fonte de renda. A primeira é dinheiro enviado por migrantes e a terceira, justamente, é a agricultura.

E ainda mais douradas são as dunas do deserto no entardecer. Por um lado, o passeio de camelo, um clássico do turismo no Marrocos, não é mais do que se espera: 20 minutos dando voltas e se afastando tão pouco neste mar de areia que ainda é possível captar sinal de celular. Mas por outro lado, não há como negar a beleza das dunas, que chegam a ter mais de 100 metros de altura e mudam de cor conforme a noite vem. Quando todos dormem ao relento ou nas tendas montadas no Saara, as estrelas e o silêncio se transformam em atrações menos esperadas e, talvez por isso, mais especiais.

2 thoughts on “De Marraquexe ao Saara: para que mapas?

  1. Opa!! Acompanhei a viagem do Fred e da Letícia.
    Será uma honra ficar aqui na janelinha do mundo proporcionado por vocês!

    Forte abraço
    e Aguardo atualizações.

    1. Que bom receber sua mensagem William! Foi inspirador pra nós ler sobre a viagem do Fred e da Leticia, espero que este blog seja também um canal de informações inspiradoras.

      A propósito, vou deixar aqui o link do blog deles caso mais alguém se interesse: mochilandopelomundo.wordpress.com

      Abraços!

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