Há alguns anos a televisão brasileira apresentou uma novela de horário nobre cujos personagens circulavam pela medina de Fez, no Marrocos. Os bordões se alastraram e acredito que a maioria dos brasileiros – inclusive eu, que achei O Clone uma novela particularmente chata – , “aprendeu” que a medina é um lugar barulhento onde o que mais se compra é ouro. “Insh`Allah”, repetiam na novela, e não ouvi algo assim nas ruas. Só me lembrei da novela quando cheguei a Fez, e esta lembrança se confrontava com a realidade realçando os erros e estereótipos.

A rua é o caos

Fez foi fundada no século IX e é uma das três cidades marroquinas com mais de 1 milhão de habitantes, acompanhada por Casablanca e pela capital, Rabat. Antes de entrar na medina, ou seja, a parte antiga e murada desta cidade amarela, nos impressionavam as vias expressas, os carros novos e a modernidade na cidade. Na medina, chamam a atenção o ar de passado, o tamanho e a dificuldade de entender onde se está: rapidamente, a de Marraquexe pareceu pequena e simples. Fez gerava uma sensação de insegurança que ainda não tínhamos experimentado.

Segundo narram alguns guias de viagem, a administração local percebeu que os turistas se perdiam e há alguns anos resolveu instalar indicações nas rotas, mas elas indicam para lugares com ramificações não sinalizadas, portanto, ao ver uma placa perca a fé – ou redobre as orações para sair do labirinto!

A medina é tão grande e densamente ocupada que somos incapazes de circundar a maior mesquita local, El-Kairaouine, na verdade um complexo que inclui o que é considerada pela Unesco a universidade mais antiga do mundo (ou do mundo árabe). No salão central de El-Kairaouine há espaço para 20 mil muçulmanos orarem ao mesmo tempo. Seja pelas regiões com tetos ou pela falta de ângulo em vielas tão estreitas, de nenhum ponto no chão da medina conseguimos observar o minarete, ou seja, a torre da mesquita, que está “espremida” pelas milhares de lojas ao redor. Para entender suas dimensões – a entrada é proibida para não muçulmanos – precisamos subir uma laje, caminho teoricamente sinalizado, mas possível apenas com ajuda de uma boa alma que nos viu perdidos. Sim, esta era boa alma, não cobrou nada por mostrar o lugar. Trata-se de ação raríssima no Marrocos: bondade sem intenção de negócios. O mais comum é que um chato agarre no seu pé dizendo que você está indo para o lado errado – mesmo sem que você tenha dito aonde quer ir – e logo te cobre alguma quantidade absurda de dirhams pela informação que você nunca solicitou.

Ainda tem toca-fita em casa?

No souk (ou nos souks), é possível comprar de tudo: muito ouro (sim); tapetes; cosméticos locais à base de óleo de argan, típico do país; fitas k7, inclusive com títulos escritos à mão (!!!); doces já povoados com grande quantidade de abelha; lenços para tampar os cabelos e o que mais a imaginação mandar, incluindo todas aquelas tranqueiras vindas diretamente da China. Mas não trata-se de caos completo, mas de um mercado setorizado. E sim, parece que este souk é muito mais “para os locais” do que o de Marraquexe, por mais turistas que possamos encontrar a cada esquina. Entre as áreas mais interessantes está o souk onde vendem cobre, incluindo a pequena praça Seffarine onde se concentram os artesãos. Adiante, vimos uma série de amoladores de faca, todas as máquinas se mexem com a força do corpo, e daí por diante, muitas outras atividades além do comércio.

Turistas buscam também as terraças de onde é possível ver os curtumes, locais onde o couro é tratado. Homens e crianças se enfiam nas tinas com ácidos e tintas. O cheiro é forte. Segundo um dos vendedores, as tinas brancas são uma mistura de ácido feito com coco de pombo, que se compra a 20 euros no mercado. É um trabalho duro e, pelo que se vê de cima, degradante. A cena desvela a condição que nos impõe o capitalismo, de desconhecer os processos que levam aos produtos. Acompanhar por alguns minutos as condições de trabalho a que estão submetidos pode ofuscar o brilho das lindas peças à venda no prédio-observatório.

Chefchaouen: a calma

Tudo é azul

A passagem por Chefchaouen, no norte do Marrocos, foi rápida, mas suficiente para dizer que é um lugar perfeito para se estar com calma – especialmente depois do barulho e confusão dos nossos destinos anteriores. A praça é comparável àquelas de pequenas cidades brasileiras. Um almoço será um simples tajine, mas pode durar horas enquanto observamos o tempo passar – e conversamos com as novas companheiras de viagem. Aliás, viajando assim se conhece muita gente que logo passa a outros destinos.
Vivem ali 38 mil habitantes e a cidade está cercada por montanhas verdes. O muro da antiga medina está apenas em uma das pontas da cidade, as outras são cercadas por um rio onde mulheres lavam roupas e tapetes. É tão conhecida por ser azul quanto pela produção de haxixe, vendido abertamente na rua apesar de proibido. Esteve fechada para não muçulmanos por séculos – e até o século XX -, mas abrigou quantidade considerável de judeus, justificativa comum para sua cor predominante.

“Chef” também é bom destino porque está em ótima posição geográfica para quem vem, ou vai, para a Espanha. A viagem a Tanger, maior porto de onde saem barcos com passageiros para Europa, dura cerca de 2h. Pela janela, mais algumas das belas paisagens das estradas do Marrocos.

 

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *