Tradicionalmente o Hamman é um lugar público onde homens e mulheres tomam banho coletivamente – em horários diferentes. É oportunidade de conversa e convívio. Para nós ‘ocidentais’, banho é algo tão privado que parece estranho vê-lo como prazer compartilhado. Ainda mais no cotidiano de um país onde, não raras vezes, ainda é comum ver mulheres cobertas da cabeça aos pés em público. Possivelmente vem daí nossa curiosidade. No Marrocos há muitos Hammans privados, pensados para turistas. Têm preços variados, incluindo a possibilidade de produtos importados, diversos tipos de massagens, etc. Mas há também os espaços públicos, muito mais baratos, e muito mais propícios para uma espécie de aventura.

Ainda em Marraquexe tentei ir a um Hamman: duas outras turistas tinham encontrado o endereço e uma funcionária do hostel comentou que já havia estado por ali e não havia problema em ir. Fui sozinha e me senti, como devia esperar desde o início, muito deslocada – e amedrontada, até. Não há, sequer, uma placa que indique o lugar. Trata-se de uma pequena porta, com inscrições em árabe e apenas a indicação “femmes”, mulheres, em francês, ao lado dos horários da tarde.

A primeira sala era longa, paredes desgastadas, pilhas de baldes velhos no fundo e bancos de cimento nas laterais. Dava para sentir o vapor dali, mas era impossível ver a próxima sala. Uma senhora fazia uma de suas orações diárias, outra se vestia e uma terceira, cara de poucos amigos, veio falar comigo. Suponho que perguntava o que eu queria, em árabe. Não entendi nada, claro. A cliente que saía do banho tentou intermediar em francês, língua que também não falo, mas já é possível entender. Queriam me cobrar quase 15 euros – mas eu poderia jurar sem saber uma única palavra em árabe que a única outra inscrição que havia por ali cobrava algo como 10 dirham, 1 euro, pelo banho. Achei exploração demais – inclusive considerando o preço de um Hamman privado que o hostel poderia organizar. Juntei esta informação com minha incapacidade de barganhar em árabe, a cara de zangada da senhora e aquela sensação de que eu não tinha nada o que fazer por ali que me intimidava (e autocensurava). Entrei e saí várias vezes, irritando ainda mais a senhora. Fui embora meio humilhada por mim mesma. Sentimento que só passou quando as outras turistas descreveram o lugar como “creepy” (“apavorante”). E garantiram que não teriam ido sozinhas – mas que passado o susto, foi uma experiência boa.

Diante disso, em Fez quis buscar uma segunda alternativa. Mais uma vez, um Hamman público. Neste, nem “femmes” se lia na porta. O próprio hostel o indicava, avisando que custava 7 euros e estava na mesma rua (por isso eu sabia o que funcionava naquela porta). Duas senhoras estavam por lá, eram funcionárias. A sala era muito menor, mas as paredes igualmente desgastadas, os baldes desbotados, a tentativa de cobrar mais, e nenhuma palavra em francês. Nova discussão sem entendimentos. Fui embora. Mas desfeitos mal entendidos pelo funcionário do hostel que me via voltar sem tomar o bendito banho, lá fui eu outra vez. “Tire a roupa”, gesticulavam, afinal, comigo não adiantava falar.

Passei pela porta de alumínio e plástico e acessei um longo corredor, que vai esquentando a cada passo. No final, diferente do que esperava, não cheguei a uma sauna, mas a uma sala muito molhada, com vários tanques de água quente corrente. Ali vi uma primeira mulher, sozinha, tomando banho. Segui até a sala seguinte, onde havia outras quatro que conversavam, penteavam cabelos, esfregavam as costas uma das outras e se jogavam baldes de água quente.

Para me ajudar apareceu uma senhora risonha e com poucos dentes. Vinha trazendo baldes e um tapete plástico para que eu me sentasse. Reparei que algumas marroquinas traziam os seus, outras não. Ganhei um pedaço de sabão preto para esfregar o corpo. Não cheirava a nada. Ela lavou meu cabelo com o xampu de alguém já que eu também não sabia que precisava disso, vestiu uma luva e começou a me esfoliar. Era muito profissional: não sobrou pele morta para contar história. Estava na cara que ela ria de mim, mas na verdade não me senti tão observada quanto esperava. Talvez porque, calada e sem roupa, não sou tão diferente de uma marroquina. A limpeza foi tão profunda, e o sorriso tão simpático, que relaxei e desfiz a impressão de que aquele não era um lugar para estar. Baldes e mais baldes de água quente depois, fui embora com o corpo, e até a alma, limpos.

 

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