Não consigo me lembrar de uma cidade com mais bares que Madrid. Pode ser que a impressão passe logo, já que esta é a primeira de algumas dúzias de lugares que pretendemos conhecer este ano. No entanto, realmente impressiona. A tradição das tapas bem servidas anda em baixa: os moradores contam, e a gente nota, que não é comum, sobretudo nas áreas turísticas, receber um prato de comida grátis a cada caña, como chamam um chope pequeno, geralmente menor que o nosso ‘garoto’. Mas o número de bares parece não ter mudado muito com a crise instalada. Segundo argumento da guia de um tour a pé: “com a crise, melhor seguir bebendo”.

Na Porta do Sol, o 15M três anos depois

E por falar em comer, beber e tradições: 15 de maio é boa data para estar em Madrid. Não que tenha se realizado a expectativa de ver cheia a Porta do Sol, praça no Centro, na comemoração dos 3 anos do 15M, ocupação impressionante que lotou o lugar, se espalhando depois por outras cidades do país e pelo mundo. Por lá não passavam de umas 150 pessoas e um microfone aberto, com discursos de difícil compreensão para nós: mais pela velocidade da fala do que pelo conteúdo. Apesar do esforço dos ativistas, de longe sobressaia mais os enormes cartazes com camisas do Real e do Atlético de Madrid. Os dois clubes de futebol da cidade disputariam dias depois a final da Champions League.

Festa popular, com presente para garotinha

Restou voltar à rede de metrô, que é ótima: se os 6,3 milhões de habitantes do Rio de Janeiro dispõe de duas linhas, os 6,4 milhões de Madrid contam com 12 linhas (mais os trens rápidos e os que servem às ‘cercanias’). Assim, chegamos a uma manifestação incomparavelmente maior, mais antiga e menos política: a Festa de San Isidro, santo que tinha tino para achar água e virou padroeiro desta cidade seca. Trata-se de comer, beber e tradições.

Toda a Pradeira de San Isidro – mais ou menos como no quadro pintado por Goya em 1788 – estava tomada, sobretudo, por madrilenhos aproveitando a tarde de sol esparramados pela grama, enquanto tomavam cerveja e vinho, e comiam rosquillas e sanduíches trazidos de casa ou comprados em uma das dezenas de barracas instaladas para a festa. No festejo original, deveriam estar ali beber água que brota em uma igreja dedicada ao santo, numa fonte por ali. Mas a mobilização parecia outra: jogos de cartas, futebol no gramado, os celulares nas mãos (eis o século XXI) e muita gente, de todas as idades, vestindo roupas de chulapo, os trajes típicos da cidade. No palco, dublagens duvidosas e danças, os chotis. Estar no parque faz sentir o gosto dessa felicidade de verão – aliás, sensação fartamente disponível com tantos parques nos dias quentes.

De museu em museu

Estrela de museu "presa" na capa da revista

Sobretudo no verão, soa triste estar em lugares fechados. Madrid tem muitos parques e belas construções – o Parque do Retiro e o verde dos jardins e fontes que rodeiam o Paseo del Prado são apenas o início. Apesar disso, seria uma pena perder a chance de ver algo – mesmo que rapidamente – nos três mais importantes museus da cidade.

O principal deles é o imponente Museu do Prado, um dos maiores do mundo, e o que abriga a maior coleção de arte espanhola. Alguém que gosta deste tipo de museu pode passar semanas inteiras perdido entre pinturas de Goya, Velásquez, e outros artistas importantes, especialmente italianos e flamengos, dos séculos XII ao XIX. Optando por mais rua e mais economia, estivemos no museu no horário grátis diário (confira quais) e, infelizmente, não houve tempo para voltar depois.

Qualquer um deve se impressionar com a angústia da sala das Pinturas Negras, de Goya, mas o melhor desta visita foi encontrar uma mediadora diante de La virgen con el niño y ángeles (1452), de Jean Fouquet. Era já o final do que chamam de “A obra convidada”, um horário destinado a breves explicações sobre a presença de uma obra que não faz parte da coleção. A senhora elegante, com longo xale negro nos ombros e voz de entonação agradável, nos guiou por cada detalhe da tela. Falou de marcas de movimento escondidas, por exemplo, na manga amassada e corpete do vestido, e sobre a posição do bebê em seu comportamento a um só tempo de menino e Deus: o que mais permitiria que ele esteja praticamente flutuando sentado, se a mãe não está sentada para apoiá-lo? Detalhes que alguém que não entende de artes plásticas deixa passar. Mas que depois de ver, muda o jeito de encarar tudo que aparece depois.

A vista da cidade é mais uma atração do Reina Sofia

O Reina Sofia é um prédio bonito, misto de antigo e moderno, que soou como um verdadeiro labirinto! As excursões escolares proliferavam. Os adolescentes com livros, buscando respostas para questões de aula, se amontoavam diante do Guernica, obra mais famosa em exposição. Uma série de fotos na mesma sala era ignorada pelo grupo, mas é das coisas mais interessantes: mostra o processo de criação da pintura, imagem cubista refletindo efeitos e sentimentos pós-bombardeio na cidade que lhe dá nome, passo a passo. Picasso mudou de ideia várias vezes em um mês, constatamos. Neste museu é possível aprender muito sobre as vanguardas do século XX e arte contemporânea, especialmente se houver tempo disponível para aproveitar as salas de estudo com livros, áudios e vídeos que ajudam a situar as obras.

O último dos três mais importantes museus da cidade é o Thyssen-Bornemisza, cuja coleção foi comprada pelo governo de uma colecionadora. As obras abarcam do Renascimento ao século XX, em número menor do que dos museus anteriores. A ordem quase sempre cronológica torna a visita bastante autoexplicativa.

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