A Sagrada Família, catedral projetada pelo catalão Antonio Gaudí, está em construção há mais de 100 anos. E ainda faltam ao menos 12 para a conclusão. Do lado de fora, boa parte das 18 torres segue coberta por andaimes e telas. Por dentro, o vento que atravessa o salão ajuda na síntese das sensações que tanta luz e harmonia são capazes de gerar. Uma obra tão maravilhosa que ofusca as ruas arborizadas de Barcelona. Sobre a cidade, precisamos ser sinceros…

Museu de Arte Nacional da Cataluña

Barcelona não nos encantou, contrariando tantos amigos e tantas revistas de turismo. Há muito potencial para te tornar um turista feliz. Mas baseados em uma percepção muito pessoal (ainda) não dá para recomendar.

Se passar por lá no verão, não faltam festivais de música. Mas nenhum na mesma data em que passamo. Também não provamos da laureada cozinha catalã, e não por falta de tentativa: as mesas no restaurante do famoso chef Ferran Adrià estavam cheias por semanas. Impossível reservar. Roupas de grife estão em todos os lados, mas como se sabe, não cabem nem nas nossas mochilas, nem nos nossos orçamentos – e se esta for a busca, o turista-comprador pode, afinal, buscar muitíssimas outras cidades. Será que nosso problema com Barcelona foi azar?

Claro que flanar por ali não é só chatice. Se fosse não teríamos ficado uma semana em busca do quê Barcelona tem. Uma coisa interessante é perceber-se numa capital que (ainda) não é capital. Ou melhor: é capital da Cataluña, região espanhola. Mas quer mesmo é ser capital de um país. Já tem até “Museu Nacional de Arte da Cataluña” (saca, “nacional”?). É outra língua, são milhares de bandeiras nas janelas, é uma grande campanha pelo plebiscito que pretende afirmar independência em novembro. Também gostamos muito das lojas de decoração e galerias de arte mais “informais”, sem falar na harmonia notável entre os prédios de diversas épocas, perfilados pelas ruas verdes e planejadas.

Por outro lado, Barceloneta, a badalada praia, está cheia no domingo como Ipanema no verão. Mas é diferente, óbvio. Tem topless massivo*, pouco barulho, nenhuma onda. Seria “brasileirice” gostar da praia, mas afirmar que as cariocas são mais charmosas? Já a famosa Rambla, avenida arborizada que desce até o mar, não pareceu mais do que uma rua comum cheia de turistas. Cheia como o mercado de comida, que é interessante, cheia como a cidade toda. Tanto que passa a soar artificial. Nesse sentido, e passando pelo Porto Olímpico que as autoridades cariocas pretendem copiar, é de se perguntar: será que teremos um belo porto, mas sem alma? Foi assim que pareceu a marina de Barcelona. Tão bonita para uma foto, mas sem sedução na vida real.

Salvos por Gaudí

As luzes da Sagrada Família

Pessoalmente, nada fez Barcelona mais especial que as obras de Gaudí. O arquiteto projetou duas casas que não conhecemos por dentro – Batlló e Milà. E só não fomos porque as entradas, como tudo em Barcelona, custavam caro demais (respectivamente, 21,50 € e 16,50 €). Projetou também o Parque Güell, um condomínio que não deu certo e acabou transformado em parque. Este não nos surpreendeu muito, talvez porque Gaudí não previu a superpopulação turística quando desenhou a estátua da iguana e os bancos em curvas para serem decorados com cacos de azulejo colorido, uma das marcas de suas obras.

Mas a Sagrada Família! Nunca pensei que diria que uma igreja é capaz de salvar a viagem. Capaz – a esta altura da História – de fazer crer: se em Deus ou homens, vai de cada um. Com a abertura deste artigo, o leitor já deve ter imaginado na boa impressão que a igreja monumental causou – sentimento que perdurou por vários dias e não vale a pena tentar explicar (e nem tentar fotografar).

Já cabe um coral de mil vozes no mezanino, mas tenho certeza de que não faz nenhuma falta. E nem fará quando todas as esculturas estiverem prontas e os vitrais instalados. São necessárias muitas horas para observar cada detalhe e a impressão é de que sempre vai faltar reparar em algo. Quando a igreja estiver pronta, quero ter a oportunidade de voltar para me maravilhar com ela. E, claro, para ter uma nova chance de amar Barcelona.

*como diria um amigo cujo nome preferimos não revelar…

4 thoughts on “Barcelona merece outra chance

  1. Adorei o texto e assim como vcs eu tbm nn me encantei com Barcelona.
    Nem as praias brilharam os meus olhos, ainda mais qdo soube q elas são megamente poluídas.

    Espero tbm um dia voltar a Barcelona e qm sabe conhecer uma outra Barcelona e me encantar por ela.

    Vcs conheceram a vida boêmia da cidade? Dizem q o melhor de Barcelona eh a noite da cidade. Eu nn conheci.

    1. Oi Nina, na decisão “dia ou noite”, quase sempre optamos pelo dia… Também ouvimos que a noite em Barcelona é ótima, quem sabe aparece por aqui alguém deixando umas dicas noturnas para nossa próxima visita, não é? Um abraço!

  2. Lívia, merece outra chance, mas no início do inverno e um lance mais etnográfico tipo os milhares de sítios de Gracia, cafeterias do Centro, passeios a pé na Gran Via e na vida noturna do bairro gótico. Como diria o Raulzito “tente outra vez”, srrsrs.

    1. Pois é Serginho! Acho que o lance nessas grandes-cidades-turisticas-da-zoropa, pelo menos pra quem gosta de ver a cidade como ela é, deve ser mesmo fugir do verão. Quem sabe numa próxima viagem!

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