Em uma parede do hostel onde estivemos nos nossos primeiros dias em Granada, Andaluzia, este foi o depoimento de hóspedes que chamou a atenção. Serviria para qualquer um que goste de cerveja e “tapa”! Refiro-me, claro, a gostosa e (quase sempre gordurosa) porção grátis que acompanha cada copo de bebida nos bares locais. Mas há muito mais para ver e aproveitar na simpática cidade do sul da Espanha. Aliás, estar por lá e entrar na Alhambra, mesmo sob chuva forte, é quase obrigação!

Como manda o figurino e exigem os cerca de 6 mil turistas que diariamente sobem La Sabika, o morro que abriga a Alhambra, nossas entradas foram compradas com bastante antecedência – aliás, a única coisa comprada antes de sairmos do Brasil. Impossível prever as nuvens que se transformaram em um temporal enorme, com direito à granizo, logo que subimos pelo parque que circunda a antiga fortaleza. A Alhambra começou a ser construída no século IX e reúne diversos palácios – nem todos árabes -, além de uma antiga cidadela chamada Alcazaba, e de Generalife, labirinto de jardins feito de fontes, ciprestes e flores. É, certamente, dos monumentos mais lindos deixados pelos árabes depois de oito séculos de dominação da Península Ibérica.

Os leões depois da chuva

O Palácio Nazaríes, construído no século XIV para servir de residência do emir, é simplesmente formidável. Há mosaicos impressionantes, tetos trabalhados em madeira e incríveis acabamentos que parecem estalactites de gesso moldado – e que foram muito coloridos um dia. São muito interessantes as explicações sobre o processo de restauro corrente, ajuda a dar ideia do esplendor conseguido pelos artistas que nunca são nomeados em construções árabes. Além disso, Nazaríes guarda o famoso Pátio dos Leões. É o monumento mais visitado na Espanha. Para se ter uma ideia, em 2012 foram mais de 2 milhões de turistas – e o número não pode subir muito já que as entradas são limitadas.

Há muitas teorias sobre a origem da fonte. Em uma delas, os leões teriam sido doados pelos judeus que viviam na região e, por tão lindos, foram mantidos pelo Emir em um lugar privado de seu palácio. É o que explicaria as decorações figurativas numa construção árabe, onde não são aceitas. Mas diante da estátua importava mais a impressionante proporcionalidade de toda a arquitetura do lugar – e  o incrível mecanismo que faria a água circular. A água que cospem os 12 leões corre por quatro canaletas de mármore em direção às salas que circundam o pátio. Há quem diga que os quatro canais representariam os quatro rios que repartiriam o paraíso. E devia mesmo ser um paraíso o som da água corrente quando não havia tanta gente passando de um lado para o outro!

Mas a Alhambra não encanta apenas por dentro. Ela é uma visão onipresente em Granada, com seus imponentes muros avermelhados, e cada vez mais vermelhos conforme o sol se põe. Pode ser vista completamente, emoldurada pela Sierra Nevada, de diversos mirantes, entre eles o de San Nicolás, no Albaycín. Este é um antigo bairro árabe, construído com ruas confusas como aquelas das medinas que conhecemos em Marraquexe ou Fez, no Marrocos. A vista é linda também desde Sacromonte: prepare as pernas para subir ao antigo reduto cigano, famoso pelas casas de música e dança flamenca – muitíssimo turísticas hoje – e pelas “cuevas” (covas), modo de contruir a partir de perfurações no morro para abrigar casas e tablas, túneis perfeitos para ecoar os passos dos bailarinos de flamenco.

Olé!

A bailarina

Nossos anfitriões em Granada – Nico e Ana – comentaram que em outras cidades da Andaluzia, como Córdoba de onde acabavam de voltar, é mais comum uma apresentação espontânea de flamenco: alguém pega o violão e todos começam a cantar, dançar, bater palmas. Em Granada a coisa é mais destinada ao turista, mas conseguimos achar um lugar mais simples – e barato – que as grandes casas. No El Chien Andalou chegamos sem reserva e sentamos no último banco. Entraram os dois músicos: um violão, voz e palmas.
Mais tarde, a bailarina. Batom vermelho, rosa no cabelo. Sentou-se em silêncio. Acompanhou a música com as palmas e se levantou: não é fácil explicar como a mulher transformava-se naquela espécie perfeita de percussão, criando som com os pés sob um tablado pequeno, que não víamos no fundo daquele túnel estreito. O movimento das mãos criava essa estranha ilusão de que flutuava. Estranha porque não combinava com tanta firmeza em cada gesto. Ganhou aplausos a cada canção, até o fim.

Tapa grátis: aqui!

Sim, Granada engorda e ainda tem tapas grátis, coisa que praticamente acabou em Madrid e noutros cantos da Espanha. Aquele bilhete mencionado na abertura deste artigo, quase uma advertência, estaria correto não tivéssemos caminhado tanto! E engorda de uma comida que você não escolhe: as porções são surpresa. Sobre isso não tem conversa. Com sorte, te servirão um montadito – pilha de comidas sobre o pão – com jamón Serrano, ou outro presunto que nunca foi cozido, defumado, ainda melhor. Com menos sorte, batata frita. Ou, as duas coisas, de acordo com a quantidade de cerveja, ou vinho, ou refrigerante, que você aguentar tomar. E de acordo também com o bar em que resolver beber. Mas sobre a gratuidade das tapas andaluzas, a advertência é matemática, faça as contas: em Madrid a cerveja custava menos, então o preço da bebida e da comida combinados era semelhante ao que encontramos em Granada. Já em Barcelona, tudo era muito mais caro, melhor nem fazer contas.

Há muitas lendas e versões sobre a origem do hábito espanhol de servir, a cada bebida, uma comida. Uma das histórias mais famosas é de que na Idade Média o rei Afonso X, conhecido como O Sábio, baixou uma norma com esta solução para o problema dos bêbados que se multiplicavam e quebravam tudo, arrumando confusão em brigas intermináveis. Já o nome, outra lenda o atribui a outro rei: passaram a chamar a porção de “tapa”, porque com a multiplicação de moscas sobre uma taça de vinho, o rei Fernando II de Aragón resolveu solicitar uma fatia de pão para “tapar” o copo. Pouco importa a história em qual se acredite, na Espanha, muita coisa é tapa: montadito, ou seja, pão com muitas delícias por cima, é tapa. Uma porção que não tapa nada, por exemplo, batatas fritas, é tapa. E pincho? Pincho também é tapa, segundo os espanhóis do norte – em Barcelona é assim e isso varia em cada parte do território. O nome importa pouco, é impossível não “ir de tapas”, tudo é uma delícia!

*obs1: E depois de tantas fotos, fomos embora sem uma com nossos gentis anfitriões, Ana e Nico. Sorte que não vamos esquecer deles de qualquer modo!

*obs2: Sim, há comida no título, mas nenhuma foto no post. Bem, estávamos ocupados comendo…

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *