Passamos por Roma há mais de um mês. Naquela ocasião não escrevi, sequer, uma linha para este relato. Mas o título estava pronto desde as nossas primeiras horas na cidade e nada do que vi depois – por mais curioso ou impressionante – mudaria a força desta primeira ideia. Passam os dias, mas até aqui aquele sentimento não foi soterrado: Roma é muito interessante durante o dia, mas é linda, mesmo, à noite.

Vista do Fórum Romano

Quando o sol desaparece, a Cidade Eterna está mais vazia, mais silenciosa e menos complicada de entender. Roma é, literalmente, um amontoado de camadas de história. São séculos e séculos de construções, umas sobre as outras. Sob o sol, a visão é um tanto caótica: por exemplo, olhando o Fórum Romano chegamos a tentar colocar no papel uma linha do tempo, na ilusão de que as memórias da escola voltariam em avalanche e de que o coração da Roma Antiga passaria a fazer mais sentido. Trata-se de um dos lugares em que os séculos estão expostos: cada parte foi construída ou modificada a mando de um imperador (e a grande avenida colocada entre ruínas por Mussolini não ajuda a organizar a paisagem). Mas à noite a iluminação faz pela cidade o que uma boa fotografia faz com o tempo: recorta e destaca o que há de melhor, imprimindo certa visão (neste caso, na memória) para sempre.

Toda história leva a Roma

Na nossa primeira noite lá, fomos guiados até um dos pontos mais visitados depois de 1960, quando Fellini decidiu que La Dolce Vita passava por um banho na Fontana de Trevi. E o monumento ficou famosíssimo. Parecia tão impossível encontrar Marcello Mastroianni (morto em 1996) quanto a fonte sem água. Infelizmente, nos deparamos com a segunda opção. Diz a lenda que é preciso virar-se de costas para jogar moedas na fonte – mão direita sobre ombro esquerdo. Com uma moeda, você volta a Roma. Com duas, encontrará o amor na cidade. E com três se casará por lá. Não há registros sobre o número de turistas que encontram um par, mas estima-se que 3 mil euros são jogados na fonte diariamente. Sem água, o ruído das moedas se ouvia de longe. Esperança que não seca.

É possível que alguém que dedique toda uma vida (longeva) a conhecer cada parte de Roma ainda morra frustrado. A história do Ocidente usou demais as estradas que levam à capital da Itália e os romanos vão nos acompanhar por muito tempo nesta viagem já que conquistaram tanto em suas andanças pelo mundo. Conscientes disso, resolvemos aproveitar mais a companhia (valeu Renato!) e a experiência de andar por aquelas ruas do que passar todo o tempo disponível em alguma fila para entrar nas impressionantes galerias, museus e ruínas.

A coxia do Coliseu

Mas algo há que se ver por dentro. Neste sentido, certamente qualquer igreja tem uma estátua para chamar atenção, uma pintura para deixar boquiaberto. É entrar e ver. Fomos a igreja de San Pietro e Vincoli, lá meio acanhada – mas com uma escultura de Moisés realizada por Michelangelo dentro. Dizem que o escultor surtou ao ver a obra pronta, questionando porque não falava – se era tão perfeita! Mas poderíamos também comentar do Coliseu: nunca havíamos nos dado conta de toda a estrutura envolvida na garantia do “pão e circo”. Segundo uma guia local, essa história de gestos para anunciar vida e morte (com o polegar para baixo ou para cima, no famoso joinha) é invenção do cinema americano para tempos de películas mudas.
Grande descoberta. Assim como o fato de que lá dentro até batalhas navais foram possíveis – e churrasquinho durante os jogos era rotina. Além disso, pasmem, o Coliseu não é um nome que se refere ao tamanho do prédio, mas ao Colosso de Nero, que ficava ao lado – pense numa estátua de 35 metros de altura! Para dar uma ideia, o Davi de Michelangelo mede 5,17m. Enfim, Roma é pura história: real, fantasia, várias versões para justificar um mesmo monumento.

E o bilhete combinado com o Coliseu nos deu direito a uma chuva torrencial dentro do Fórum Romano: visão das mais impressionantes de Roma, aquelas nuvens negras chegando e as folhas de árvores no vendaval. Logo depois, todos os turistas – inclusive nós – sem saber para onde correr. Afinal, é um sítio arqueológico, várias partes de prédios, uma coluna aqui, um piso acolá. Teto? Que nada! Roma sempre foi uma espécie de balcão de material de construção a céu aberto. Mudou o imperador ou o estilo arquitetônico? É desmanchar uma coisa pra fazer outra. Então, além do efeito natural dos milênios, não há um marmorezinho sequer por essas bandas. Interessados em pedras brancas, sigam ao país do Papa.

No país do Papa

Vossa Santidade, favor trocar as lâmpadas!

Para efeito de recordes pessoais – e aproveitando o status real do Vaticano – contamos mais um país. O da Igreja Católica, Apostólica, Romana. O mármore que faltava no Coliseu vimos decorando ricamente a Basílica de São Pedro. Ao entrar em um lugar como este, tenho vontade de saber números para dimensionar a impressão. Foram 7 arquitetos, 120 anos para conclusão da obra que ocupa 23 mil metros quadrados, cabem 60 mil fiéis e a cúpula, dominante no horizonte de Roma, tem 340 estátuas e 119m de altura. Mas eu queria mesmo era saber quanto ela pesa e quantos trabalhadores foram necessários para erguer as vultosas paredes.

O Museu do Vaticano fez doer os pés e cansar a cabeça. Os papas colecionam demais, desde arte egípcia até pintura moderna. E ainda não sabemos porquê o encontro de Deus e Adão no teto da Capela Sistina impressiona mais o mundo do que a parede em que Michelangelo ilustra o juízo final. Acho que tudo isso tem a ver com a reprodução de obras: do chão não dá pra ver bem os dedos humanos e divinos quase se tocando. Mas nas canequinhas a venda nos corredores do Palácio Apostólico, sim.

Cruzando a pé a fronteira entre Vaticano e Itália ao entardecer, impossível não olhar para trás. Outra vez, a beleza da iluminação da cúpula da Basílica de São Pedro nos faz parar em uma das pontes do Rio Tibre. E distrai por um momento a vontade procurar uma fonte de água gelada em plena rua – de onde se bebe desde o Império Romano – e comer pasta carbonara (aquela com ovo, queijo e bacon!) ou saborear outro sorvete de pistache. Roma é uma cidade grande e as mazelas da desigualdade – aqui e em todo mundo, visto que há tantos migrantes – estão escritas em muitas imagens, inclusive em regiões turísticas (que o digam as periferias). Mas à noite, todo dia, muito se apaga e, aparentemente a vida adocica.

 

*Faltou foto de Roma à noite. De muita coisa que gostamos, não tem foto.

2 thoughts on “Roma é à noite

  1. oi, lili e enrico! que delícia de relato. dá vontade de andar com vocês. saudades por aqui! os meninos perguntam sempre onde vcs estão e mandam beijos. boas caminhadas!

    1. Oi Joana (Francisco e Raul!), viajo com vocês no coração :) Fico feliz que tenha gostado do post Joana… estou como sempre enrolada para manter tudo em dia, mas pode conferir que sempre vão haver histórias novas. Obrigada pelo comentário!

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