Qualquer guia de viagem vai advertir aos interessados em conhecer Napoli que a cidade no sul da Itália é suja, cheia de lixo, mal cuidada, controlada pela máfia. Não é mentira. Mas não é difícil defender Napoli das acusações propondo outro olhar sobre ela – e não pretendo usar pizza como único argumento.

Chegamos à estação e constatamos o que já esperávamos – mas era pior: as ruas ao redor da estação se comparavam ao Rio de Janeiro com greve de garis, em pleno carnaval. O lixo chegava a voar. Há quem diga que ali já não é mais Europa, mas África. E se entende o dito – carregado de preconceito, claro – pelo grande número de migrantes. Muitos vendiam mercadorias nas calçadas, tantos outros estavam sentados nas praças. A histórica riqueza de fato, ainda está localizada no norte da Itália.

Caminho para Castelo Sant´Elmo: mato mostra o estado das coisas

Caminhamos com as mochilas sob sol forte até a casa de uma amiga que nos receberia. Diferente do Brasil, na Europa é comum que as casas estejam identificadas pelos sobrenomes dos moradores, e não por números. Mas que nome deveríamos procurar? Na dúvida, chutamos – e erramos. Aí Napoli começou de verdade! Uma senhora, a típica matrona, apareceu no segundo andar e gritou, querendo saber quem entrava. Nós, que mal saímos das primeiras frases, na primeira lição de italiano, não entendíamos nada de seu napolitano cantado. Gritamos de volta, tentamos explicar. E ela não entendeu, claro. Era uma ruazinha estreita, para pedestres (e aquelas motocicletas típicas, vespas!) no alto de uma escada. Tudo se encheu de som. Resumindo: ela gritou o bairro inteiro até concluirmos que nossa amiga era sua vizinha de porta!

Foi assim, espontânea, sem querer parecer o que não é, que Napoli nos conquistou. Eis um dos nossos melhores argumentos. Nada de rua badalada no centro da nossa vida de viajantes, nada de McDonalds, Burger King, Zara, Gucci ou qualquer outra grife, tudo na mesma calçada.

Os humores não estão condicionados a agradar ninguém. Levamos bronca em ponto turístico – e ficamos irritados por nunca entender o porquê. Também comemos a melhor comida (e fomos calorosamente abraçados pela dona do restaurante).

As regras de trânsito só são compreensíveis entre napolitanos, por isso tememos a morte por atropelamento diariamente. Mas agora precisamos admitir que a condução alucinada é também eficiente. Em lugares como o Quartiere Spagnoli as Vespas seguem tão aceleradas que quase só vemos o barulho. No tradicional bairro, além das motos cruzando as ruas de pedestres, ouvimos o povo conversando cantado com os vizinhos pelas janelas, observamos os varais cheios de roupa ligando os prédios pelo alto. Estão em cada esquina os altarzinhos em homenagem a tantas santas virgens e aos familiares – e também ao Maradona, onipresente no coração dos torcedores do Napoli. Por ali se paga centavos num café temperado com simpatia, num bar quase centenário – e com a aparência que mostra seu tempo de vida e uso.

Em Nápoli, conversamos em italiano sem falar italiano. Mas entendemos que eles usam mesmo outra língua: nada de “Ciao ragazzi, come state?”. Em napolitano, diga cantando: “Ué uagliú, tutt´appost?” (E aí gente, tudo bem?). Aprendemos a responder: “Sempre!” – E pareceu um belo jeito de levar a vida.

Da Circunvesuviana ao mar

"Faixa de pedrestes" para evitar a sujeira das ruas daquele tempo

Os visitantes de Napoli muitas vezes estão interessados, na verdade, nas inúmeras atrações ao redor. É um ótimo ponto de partida para a Costa Amalfitana – cheia de povoados à beira-mar – e para as cidades ao redor do Vesúvio, onde estão os sítios arqueológicos de Herculano e Pompéia, acessíveis pela ferrovia que circunda o vulcão.

Em 79 d.C, aos invés de varrer as cidades do mapa, a série de grandes erupções do Vesúvio as conservou para sempre, congeladas no tempo. De certo modo, o mesmo pode ser dito sobre alguns de seus “habitantes”. Estão em Pompéia moldes de gesso realizados a partir de espaços antes ocupados pelos corpos que ficaram presos no material que o vulcão expeliu. Alguns exibem a face do desespero, representam claramente o momento em que morreram. É mórbido. Mas o sítio é muito mais que isso: as escavações em Pompéia revelam o planejamento das ruas de uma cidade romana, a estrutura das casas – das mais convencionais aos distintos palacetes da nobreza, passando por banhos e bordéis. É muito conservado, e neste sentido, mais interessante do que a maioria das ruínas, tão abundantes nos numerosos lugares conquistados pelos romanos.

Procida: Marina Corricella

Além das atrações ao redor da Circunvesuviana, Napoli nos oferece o mar – e as ilhas de sua baía. As mais famosas, maiores, e mais turísticas são Capri e Ischia. Mas nós escolhemos visitar Procida: menor, mais vazia e – talvez por tudo isso – mais napolitana.

Procida é tão pequena que pode ser percorrida a pé, em um dia. As praias têm areia escura, como parece regra na região. Mas o mediterrâneo também é lindo e azul aqui. Nos mirantes você está quase sozinho para tirar uma foto. Nada do barulho das multidões. A arquitetura pitoresca, as casinhas coloridas subindo o morro, e aquele espaguete com mexilhão (a comida!!!), fazem qualquer um ter vontade de ficar. O restaurante e as ruas exibem fotos dos filmes para os quais Procida foi cenário, orgulho local. Entre os mais famosos, O talentoso Ripley e O carteiro e o poeta. E por falar neste: não, Neruda não morou em Procida, mas, por curto período, em Capri. (Será que o poeta chileno soube o que perdeu?)

Voltar por um camafeu

Napoli te oferece tudo que se pode ter em uma cidade italiana em termos de tradição. Muitas igrejas, galerias de arte, castelos, ruínas romanas. A comida vai ganhar um capítulo a seguir. Mas está claro que tradição não é só isso. Descobrimos uma pela simpatia de um de seus mantenedores, Sr. Filippo de Paola. Passávamos pela vitrine de sua loja quando meus olhos grudaram e o corpo parou. Ele sorriu para perguntar de onde éramos, nos esforçamos para empregar todas as palavras de italiano que conhecíamos, e logo estávamos descobrindo seu trabalho.

Sr. Fillippo exibe a matéria-prima

Ele aprendeu com o pai, que aprendeu com o avô, como transformar conchas em arte. O talento da família está pregado pelas paredes, representado em recortes de jornal: artigos mostram a oferta de peças ao Papa, assim como a fama da família chegando à Alemanha ou ao Japão. As conchas vêm de longe, da Austrália, de Zanzibar – na África. São cortadas em tamanhos diversos e esculpidas com delicadeza. Pode demorar um dia, ou muito mais. Trabalho meticuloso.

Os camafeus surgiram há mais de 2 mil anos e chegaram ali pelos romanos. Ainda não sei se encantava mais o trabalho delicado ou sua doçura em explicá-lo. A chance de achar gente assim dá mais vontade de viajar – e não deixa de ser um ponto para Nápoli, encontramos muitas pessoas desse tipo.
Voltando aos camafeus, minha memória faz deles algo velho, coisa do gosto das avós – ou tatataravós: lembro ver um com a cara da princesa Isabel no Museu Imperial de Petrópolis. Mas sr. Filippo fez questão de argumentar contra mim: saíram das gavetas modernos catálogos de moda, todos com suas peças em evidência – além das tradicionais conchas, há trabalhos com corais e ônix azul e branca.
Eu me encantei por um anjinho do Michelângelo em azul. Não comprei. Um dia volto para buscar.

Comer, comer, comer!

O capítulo gastronômico, no que diz respeito à capital da pizza, mereceria um livro inteiro. A pizza é a melhor: macia e com aquele molho especial. Os macarrões (a pasta!) eram todos perfeitos e quando chegavam com aquelas conchinhas, direto do mar… que delícia! Mas o melhor é resumir assim: nunca vou conseguir apagar da memória o sabor do ragu (molho de tomate e carne) que provamos em Napoli. A simplicidade é tudo. Na explicação da simpática garçonete: “aqui carne e o molho cozinham por 8 horas. E descansam depois. Com muito amor.”

 

2 thoughts on “Em defesa de Napoli

  1. Muito bom o texto, hein! Só faz ter mais vontade de viajar mundo afora! O Futebol, Uma Viagem deve sua origem ao Enrico! Valeu, Heinrich e Lívia! Bjos!

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