A organização das ruas de Siena, espécie de labirinto, e os dias da nossa visita – uma semana antes do Pálio, corrida de cavalos que mobiliza a cidade há séculos – transformaram a experiência numa verdadeira excursão à Idade Média. Lá, ainda dividem a cidade em “contratas”, ou equipes, e vestem roupas (mais que old fashion) para desfilar pela cidade numa batucada desafinada. E a rivalidade vai crescer até o grande dia.

Atrás da Piazza del Campo

Em Siena, todos os caminhos parecem levar à inclinada Piazza del Campo, lugar onde realizam o Palio. Tudo na corrida é muito rápido, digno de um filme de ação. Vai ver por isso filmaram uma sequência do 007 por lá: em menos de 2 minutos os dez cavalos das equipes sorteadas dão três voltas na praça. O vencedor é o primeiro cavalo a chegar, não interessa se com ou sem cavaleiro ainda montado.

Bandinha desafinada, mas antiga

Dias antes da corrida já é possível observar a detalhada preparação: os cidadãos decoram cada bairro com as cores de uma das 17 contratas usando lenços de seda e luminárias especiais. Também desfilam pela praça (com as tais roupas) e banda e bandeiras. As moças distribuem orações impressas aos santos de devoção de cada equipe. Interessados em participar nos jantares festivos anotam seus nomes nas listas afixadas nas portas dos restaurantes – cada região tem os restaurantes da respectiva contrata.

A Siena histórica é uma cidade cor de barro. Tem casas com portões enormes, ruas estreitas e está em um pequeno vale. É lindamente conservada. Está cercada pelas imagens da Toscana que infestam imaginários: os campos plantados de cor verde-amarelada e aquela luz tão bonita que sempre imaginei inventada nos filmes sobre a região. É um desses pedacinhos do mundo onde a vida parece existir apenas para os turistas, mas o Palio lembra que não é assim: os hotéis caríssimos estarão lotados, mas não resta dúvida de que trata-se de uma festividade extremamente local.

Arte sacra

Nossa memória de Siena sempre estará ligada também à arte sacra. A imponente catedral gótica (é listrada!) tem a fachada ricamente esculpida e já gera admiração do lado de fora. Mas o interior é único: difícil escolher entre olhar para o teto ou o chão. Visitar a igreja completa a tal ‘viagem no tempo’ proporcionada pela atmosfera da cidade.

As listras e o duomo da Catedral de Siena

Acima, as abóbadas azuis com estrelas douradas te ajudam a se perder em pensamentos. E quase 200 bustos fazem pensar na quantidade de Papas que a Igreja colecionou ao longo dos séculos. O chão com diversas cenas desenhadas em três cores de mármore, além dos incríveis mosaicos, impressionam pela beleza e pela conservação: usados há quase 800 anos, estão gastos, mas vivos.

Nos museus anexos à igreja, incluindo na cripta subterrânea, está uma interessante mostra de arte sacra. Ficamos especialmente impressionados com as bonitas variações sobre o tema da Virgem que amamenta o menino Jesus. Um gesto tão humano que sempre dessacraliza o Menino-Deus.

Por fim, uma escadaria estreita te faz emergir no Panorama del Facciatoni, um mirante que dá noção do labirinto cor-de-telha que é a cidade, com vista privilegiada até os campos. Podemos ver não apenas o duomo da catedral como a onipresente Piazza del Campo e sua Torre del Magia.

A torre guarda um relógio que segue pontual. Caso contrário, estaríamos certos de ter parado no tempo.

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