O mapa e a vida real podem ser muito diferentes. Nós medimos com a régua: 393 km. E presumimos que era bem fácil sair de Zagreb, capital da Croácia, e chegar a Belgrado, capital da vizinha Sérvia. Mas engana-se (como nós) quem acredita que fronteiras são tão simples quanto linhas desenhadas em um mapa. Resultado: aprendemos muito sobre viagens (e resultados da História) enquanto gastamos muito mais tempo que o previsto entre estas duas cidades.

Nos prédios públicos e privados de Zagreb, tanto amarelo

O Centro histórico de Zagreb, onde estão os hotéis, é um lugar agradável, com praças bem cuidadas e prédios amarelos, acabamentos em gesso, a cara da arquitetura art-nouveau dos austro-húngaros que ocuparam a região no fim do século XIX. Afastando-se um pouco, caminhando por trás da velha estação de trem e adiante, a história mais recente vem à tona: aparecem os edifícios cinzentos, herança da ditadura comunista do (por eles amado) Josef Bröz Tito. Lembrança viva, em uso diário, dos tempos em que Zagreb era parte da Iugoslávia, sendo Belgrado o centro do poder na região.

Quem chega à capital da Sérvia de trem, sai pela porta principal da estação e sobe a avenida em busca de um hotel. Alguns metros adiante, carregando malas e preocupado com o dia cinzento e as placas em alfabeto cirílico, o cidadão levanta os olhos e não acredita no que vê: dois edifícios massivos, duas quadras inteiras de construção lado à lado, que seriam apenas prédios feios e imponentes, não fossem os buracos enormes, por onde um carro passaria facilmente caso pudesse voar ao sétimo andar. O ferro retorcido deste antigo quartel general, assim como a radiação que não é vista, mas ainda pode ser medida onde antes funcionava o Ministério da Defesa, rememoram os dias de bombardeio da OTAN sobre a cidade. Foi em 1999, numa represália contra o massacre de Belgrado ao Kosovo, uma região que até hoje clama pela independência ainda não reconhecida pela Sérvia. O argumento fundamental é que a origem da população naquele território não é sérvia, mas albanesa. Passados os tais destroços, apesar de haver outros  por lá,  encontramos uma cidade tranquila, mais praças bem cuidadas e um grande parque junto ao castelo que dá nome à Belgrado. De lá vemos o encontro dos rios Sava e Danúbio e alguns barcos onde acontece a vida noturna que é, na realidade, o atrativo para a maior parte dos visitantes.

O "Victor", homenagem aos soldados e símbolo de Belgrado

Nossos planos em Zagreb eram rumar ao famoso litoral croata, sonhando com o mar estalando no azul do verão. Descobrimos que acontecia em Split, cidade litorânea, naquela semana, um grande festival de música: confusão, cidade lotada, preços na estratosfera. Olhamos o mapa e planejamos rumar para o lado oposto, interessados que estávamos em entender as imagens de guerra que vimos na TV nos anos 90 – mas que, tão crianças e do outro lado do Atlântico, não entendemos muito bem. Descobrimos que há efeitos bastante permanentes daquelas imagens, entre eles os que mais nos afetavam como turistas, linhas de trem desativadas e altos preços para a viagem em comparação com distâncias semelhantes na região. Por fim, entre as capitais vizinhas, incluímos uma semana em Budapeste, simplesmente porque desviar mais de 300 km custava o mesmo: quase como uma promoção “pague 2, leve 3” em matéria de cidades visitadas.

Belgrado: aqui jaz Tito, o ditador idolatrado

Zagreb e Belgrado têm muito e nada em comum. E essa pode ter sido a melhor parte de ter passado pelas duas cidades ligadas pelo tempo e mal conectadas na geografia. Todos fumam muito (MUITO), mas este é na verdade um patrimônio mais balcânico do que municipal. Tito ainda é “rei”: Belgrado abriga seu mausoléu em um belo jardim, mas a idolatria ao antigo presidente é geral. Pode ser que a economia depressiva depois dos anos 1980 seja a chave para compreender este fenômeno, assim como os efeitos das guerras começadas com o desmantelamento da Iugoslávia e outros fatos que levam a uma espécie de memória coletiva que aponta no passado, e nos 27 anos de Tito presidente, um tempo melhor.

Aliás, modelar nações independentes passa também  por construir heróis nacionais. Afinal, de onde veio o elegante e poderoso Tito? A Sérvia vai sugerir que nasceu ali, a Croácia desmentirá lembrando que viu à luz em seu território (e a Eslovênia poderá lembrar que sua mãe nasceu mais ao Norte). Mas  a verdade é que ele nasceu no Império Austro-Húngaro e talvez tudo isso seja outra história! E o mesmo serve para o quase-ganhador do prêmio nobel, Nikola Tesla: no museu que leva seu nome em Belgrado, aliás, o único que os locais realmente recomendam visitar, se aprende sobre várias invenções interessantes no campo do eletromagnetismo. Mas está pouco clara a informação sobre seu nascimento. Na verdade, ele veio ao mundo nas terras hoje em território croata, onde também encontramos homenagens em forma de placas e estátuas. E haveriam outros exemplos semelhantes na literatura e onde mais…

Homenagens ao Tesla (em Zagreb), gênio-inventor

Sobre museus, as cidades coincidem: como Belgrado, Zagreb também podia estar melhor servida! O mais recomendado pelos locais tem design moderno e concepção original: no Broken Relationships Museum (Museu das Relações Partidas) pessoas como eu e você deixam lembranças de uma vida e contam suas histórias de amor que acabaram. Aqui não falamos apenas da mulher que resolveu picar todos os móveis do ex-namorado com o machado (em exposição) para aplacar a dor da traição. Há também pais e filhos separados, entre outros parentes do que foi uma família. Mas este museu, como era de se esperar, nada conta sobre as relações partidas entre países. Talvez porque seja ainda cedo demais para discuti-las em público.

O Sérvio, ainda ensinado com alfabeto cirílico na escola (o latino é aprendido bem adiante, no Ensino Médio), e o Croata, (ensinado apenas com alfabeto latino há algumas gerações) são as línguas nacionais. Línguas são definitivamente expressões de nacionalidade. Jovens entre os 20 e 30 anos dos dois lados da fronteira com quem conversamos, que lembram das dores da guerra com memórias suas e de família, comentaram que um carro sérvio no litoral croata ainda pode amanhecer com vidros quebrados. Mas explicaram que apesar de tudo isso, sempre viveram e deverão seguir vivendo juntos. Comentavam que várias grandes amizades não se importam com a falta de ligações por linhas férreas. Sem grandes nacionalismos, conhecemos dos dois lados  muita gente que garante falar, simplesmente, “a mesma língua”.

2 thoughts on “Da Croácia à Sérvia, uma escala e uma língua

  1. Amigo, estou interessada nesse trajeto, Zagreb – Belgrado, como foi na prática que fizeste?? Obrigada

    1. Oi Júlia!

      Fizemos Zagreb-Budapeste e depois fizemos Budapeste-Belgrado ! Os trens não são muito bons naquela região, mas no fim das contas pegamos entre Budapeste e Belgrado, mas entre Zagreb e Buda foi de onibus! Não tem muitos horários mas dá pra se organizar.

      :)

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