Entre poucas vogais e muitas consoantes mescladas em um idioma impossível, muita História e intermináveis banhos de água quente, acabamos por transformar Budapeste em nossa: de destino inexistente passou para a lista das “nossas” cidades preferidas na Europa. É um lugar que te oferece muito (ou nada) pra fazer. Em um verão de sol quente e algumas pancadas de chuva, nos distraímos entre os parques e museus, não cansamos da linda arquitetura e da luz no Rio Danúbio ao anoitecer, e, apesar dos esforços em aprender qualquer coisa, saímos concordando finalmente com José Costa, personagem do Chico Buarque (do livro que tem esta capital como título): o húngaro deve mesmo ser das poucas línguas que até o diabo respeita.

Conviver com o húngaro é confiar na intuição e nos desenhos: sabe-se que uma geleia é de morango porque ele está desenhado. Se não está é melhor comprar outra coisa. E se não for nem geleia? E sabe-se que um nome pode ser o da rua que você procura (com iluminação precária) porque as placas com localidades, quando existem, costumam estar grudadas próximas às esquinas. Mas no caso da Hungria, podem haver duas placas, com o nome dos tempos comunistas coberto numa tarja preta.

Caminhando no século XX

Os prédios: por fora, bela viola...

É fácil reviver o século XX em Budapeste, ao que pese a predominância de edifícios dos séculos XVIII e XIX na parte mais frequentada pelos turistas. Mesmo quando o assunto são estes prédios, a oportunidade de entrar em um deles mostra o que o último século fez: podem parecer preservados por fora, mas dentro caem aos pedaços, como o passado a gritar que depois dos governos ‘revolucionários’ que mantiveram o Comunismo na Hungria de 1949 até o fim da União Soviética em 1989, a economia nunca permitiu reformar (e respirar).

Para nós, filhos do outro lado do mundo e do fim do século, caminhar pela cidade em um ‘tour’ aos velhos/recentes tempos, a pé (e de graça), foi dos momentos mais interessantes da viagem. O roteiro termina em um dos tradicionais “bares-ruína” – um prédio deteriorado transformado em um bar dos bons – e passa por diversos pontos da cidade, em vários casos, nada turísticos: vimos marcas de bala remanescentes da revolta dos cidadãos de Budapeste contra repressão do sistema, (movimento esmagado pela União Soviética, mas que posteriormente garantiu um sistema um pouco menos restritivo às liberdades individuais dos húngaros); provocações políticas – como a única estrela da União Soviética ainda existente na cidade, bem na praça onde está a Embaixada Norte-Americana –; e prédios de estilo comunista, sempre grandes, cinzas, de aparência áspera, bem no meio de joias austro-húngaras.

O mapa mundi, na versão comunista

Os guias, com quarenta e poucos anos, lembraram com poucas saudades de quando comprar banana era um luxo e, viagens, especialmente com um passaporte que permitisse entrada ao lado não comunista do mundo, eram algo próximo do impossível. Ao mesmo tempo, lamentaram o rompimento de laços solidários com o fim daqueles tempos; que a televisão não tenha mais programas educativos – afinal, MTV eles sempre tiveram –; que ir ao teatro virou programa que apenas uns poucos podem pagar e que corrupção seja uma realidade em qualquer sistema.

Ao final nos deixam ver e manipular alguns objetos dos seus arquivos pessoais, como os mapas dos tempos da escola, os passaportes da família e os antigos lenços dos uniformes dos “pioneiros”, de tecido sintético, recobertos de botons, como todas as crianças organizados pelo partido comunista usavam. Os objetos ajudam a materializar o tempo e o regime que não vivemos, como num museu-móvel de miudezas. Para um museu estático e grandioso, a solução é tomar uma direção que não tomamos: um trem para fora da cidade leva ao Memento Park, onde estão guardadas as estátuas de quando ferro, força e propaganda eram a tônica da arte nas ruas da Hungria e de quase meio mundo.

Arranhando o século XXI

Protesto contra novo monumento na Praça da Liberdade

Se não faltam museus e galerias de arte para expressar alguma versão do passado, entender o presente e o futuro em Budapeste são missões bem mais difíceis. E o idioma é apenas uma das grandes barreiras. Como bem alertavam os guias da tal viagem ao passado comunista, a cidade é bonita de ver, ótima de aproveitar em tardes inteiras mergulhadas em piscinas termais que consomem bilhões e bilhões de litros desde a dominação dos Otomanos. Mas, como turista, não se vê mais que a superfície. Dois dados nos nossos oito dias entre Buda e Peste – sim, não é piada, o nome representa a união de duas cidades separadas pelo rio Danúbio – permitiram uma olhadela entre a fumaça do século XXI: protestos contra um monumento à memória da resistência contra o nazismo na “Praça da Liberdade” (Szabadság tér) e painéis pintados por artistas no (hoje) boêmio e turístico Bairro Judeu.

No primeiro evento, por mais de cinco meses, cidadãos reclamavam – com arte, música, debates diários e palavras de ordem – contra a construção de uma estátua em memória às vítimas judias do nazismo: 600 mil judeus húngaros morreram em campos de concentração. A questão não era o motivo da homenagem (nem a aparência de gosto duvidoso), mas o modo: uma águia, símbolo da Alemanha, atacava uma figura angelical – representando os húngaros. Os manifestantes lembravam que em larga medida, por ação e omissão, os próprios húngaros foram responsáveis pelo martírio de seus compatriotas judeus.

Às vésperas da inauguração do monumento, conversei com Fekete Zsuzsa, uma psicóloga que há meses se fazia presente na praça. Com mais de 60 anos e de família judia, tendo perdido parentes nos campos de concentração, ela chamava atenção para a falta de jovens na mobilização; enfatizava o crescimento do conservadorismo no parlamento, que agora permitia este tipo de obra; e questionava: “que tipo de futuro é possível se construímos assim as memórias?”.

Arte-protesto: uma cidade é muito mais que um quarteirão de bares

Em outra parte da cidade, naquela de onde os judeus foram arrancados para os campos de concentração, há hoje um sem número de bares e restaurantes cujos serviços, assim como os aluguéis, a maioria dos húngaros não pode pagar. A especulação é denunciada em grandes murais nas laterais de um prédio: Budapeste é bem mais que aquele pontinho onde os bares se amontoam. Artistas também desenham em muros contra os turistas que buscam apenas festas e álcool barato, deixando muito pouco em troca – e certamente, levando muito menos do que Budapeste merece.

5 thoughts on “O que Budapeste merece?

  1. Caríssimos, estou apaixonada pelo site! Muuuuuito obrigada por compartilharem tanta, tanta experiência! Estou indo para Budapeste em janeiro próximo, queria saber como contaram esse guia ou se simplesmente há vários e não é necessário eu me preocupar com isso previamente. Outra coisinha, vocês acham muito indispensável um guia (ou: sem se torna muito perigoso)?!

    Abraços, felicidades, fiquei com uma invejinha branca (não se preocupem, não fará mal)!

    1. Oi Jéssica! Muito obrigada pelo comentário, nos incentiva a escrever mais 😉 Nunca ouvi dizer de Budapeste ser uma cidade especialmente perigosa (e na verdade não nos pareceu que seja). Só optamos por fazer algumas visitas guiadas para ter mais informação e opinião sobre os lugares, é sempre bom conversar com os “locais”. Esta viagem tem orçamento curtinho, na verdade nossos guias, em geral, são de “Free Walking Tours”, ou seja, de grupos que apresentam certos roteiros à pé e de graça. Quase sempre é tudo em inglês. Gorgetas são pedidas ao final, você pode contribuir com quanto achar justo. O link para o contato com este grupo que mencionamos e muitas outras dicas acabam de ser publicadas! Veja lá: http://cafedosviajantes.com/2014/12/se-voce-for-a-budapeste/ , espero que seja útil (volte e conte como foi para irmos melhorando aqui também!). E boa viagem!

  2. Caríssimos, muito obrigada por compartilharem tantas informações! Será que poderiam me ajudar mais um pouquinho?! :) Vou a Budapeste em janeiro e gostaria de saber como contactaram esse guia, se foi caro, se há muitos e não preciso me preocupar previamente com isso. Obrigadinha!

  3. Olá, desculpe continuar perguntando, mas estou planejando minha viagem para todas essas cidades do Leste que tem colocado aqui. Vou sair de Dresden e ir para Praga, estou com um pouco de dificuldade em encontrar os transportes coletivos entre todas as cidades (tem o Rome2Rio, mas já me avisaram que alguns dos preços lá estão errados), qual foi o itinerário de vocês? Obrigada :)

    1. Oi Jessica, tranquilo! Apesar da vontade ter sido grande, não fomos à Praga, então não tenho muito como ajudar por lá (talvez alguém no Mochileiros.com ?). Procurar em blogs de outros viajantes e descobrir as páginas das empresas locais tem sido o jeito mais eficiente de descobrir preços. Para a República Checa deve funcionar, mas a realidade é que nos bálcãns muitas vezes foi difícil conseguir informação precisa com antecedência. Fomos à Eslovênia, Croácia, Sérvia e Hungria (como você já viu no blog) e seguimos para Montenegro, Bósnia, Albânia, Grécia e Turquia. Temos muita informação sobre esses lugares e vamos publicar nas próximas semanas, especialmente na seção “Se você for…” mas o ritmo ainda depende das pesquisas que seguimos fazendo e da nossa viagem… Já estamos na China! Espero que nosso ritmo lento ainda permita que você ache informação interessante aqui. Vai acompanhando! Abs!

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