Chega a dar tristeza a visão do Museu de História da Bósnia e Herzegovina a partir da movimentada avenida Zmaja od Bosne. O acabamento em cimento e mármore, fortemente danificado por tiros e explosões dos anos 90, somado às marcas do tempo, deixa em dúvida os transeuntes: estaria este museu, afinal, aberto ao público? Está. Ao menos por enquanto, a casa resiste quando outras instituições, como o vizinho Museu Nacional, é mantido fechado há anos. Na entrada, o vidro que cerca o hall e garante boa iluminação natural também mostra o jardim sem cuidar e peças abandonadas. Apesar de tudo isso, o lugar é uma visita imperdível. Eis um grande museu feito com quase nada.

A fachada nada convidativa do museu

No primeiro andar, além de algumas peças de arte local – que soam um tanto aleatórias – está em exposição o trabalho do escocês Jim Marshall, fotógrafo que trabalhou na cidade durante o mais longo cerco da história.  Depois de 15 anos, ele voltou aos locais das fotos feitas em 1996, para registrar o retorno à vida normal. A impressão das imagens não é das melhores, mas a disposição delas, lado a lado, mostra que edifícios destruídos e janelas estouradas voltaram à serem úteis e as cicatrizes no cimento são, afinal, problema menor. Diferente do que tantos dizem, – afirma o fotógrafo, falando também de si próprio – muita coisa mudou. As imagens ganham ainda mais sentido dentro daquele prédio que resiste como sempre resistiu, apesar das marcas do passado e das goteiras do presente. É o aperitivo ao que está por vir.

Subindo as escadas é possível ver, do lado de fora, uma estátua de uns 2m de altura do general Tito. Ele ainda parece admirado pelos Bósnios e é nome de uma avenida central para a vida na cidade. Mas não deixa de chamar atenção o fato de termos visto uma igualzinha na Sérvia, mas aquela, ao contrário desta, com localização e conservação privilegiadas.

O segundo andar estava dividido em duas partes. Na primeira havia uma exposição (aparentemente temporária) comemorativa dos 100 anos (em 2014) do Assassinato de Sarajevo. O tiro que abriu o século XX, atingiu em cheio o arquiduque Franz Ferdinand. A morte do herdeiro do trono Austro-Húngaro serviu de estopim para a I Guerra Mundial. Simples e muito interessante, com a dose certa de informação para aguçar a curiosidade e iluminar o que se sabe dos fatos, mas sem ser enfadonha, a exposição mesclava recortes de jornal, fotos e documentos de época. Entre os itens mais interessantes, a divulgação pelos jornais de todo o trajeto que seria feito pelo arquiduque em carro aberto, em plena crise do império: realmente, o dia foi um prato cheio para os assassinos!

Ao lado, e ocupando a maior parte do museu, a sua joia: uma grande exposição sobre o cerco de Sarajevo com documentos e objetos, muitos doados pelos moradores, narrando a tragédia e a resistência da cidade. Tudo é perfeitamente organizado. Não há recursos multimídia, vidro especial, alarmes, projeções inusitadas, sonoplastia. Nenhum desses aparatos caros que querem virar regra de bom museu. No entanto, cruzando o grande salão parece ser possível ter a noção mais exata possível do horror vivido pelos civis nos 1425 dias em que estiveram cercados, sob bombardeio e na mira constante de atiradores. A exposição também ajuda a compreender como foi possível sobreviver tão longamente naquelas terríveis condições.

Há ainda um painel explicativo do julgamento dos crimes de guerra pelo Tribunal Criminal Internacional para a antiga Iugoslávia (ICTY, na sigla em inglês), criado pelas Nações Unidas ainda com a guerra em curso e que continua em funcionamento. Nesta seção, destacam alguns depoimentos de vítimas no tribunal. Chamou atenção a existência, também, do depoimento de uma vítima de origem sérvia, terrivelmente torturada por um oficial bósnio. Depois de tudo que se vê no museu, assim como nos discursos que se ouve na cidade, suspira a necessidade de convivência e a lembrança de que, ao final, para todos, mesmo que em níveis desiguais, a guerra é o que é: e não há adjetivos que a descrevam melhor do que esta exposição.

A galeria de fotos a seguir pode dar uma noção mais clara do tipo de objetos a serem vistos no museu. Mas a verdade é que toda a sua estrutura – e até a falta dela – assim como o tal cuidado com uma coleção tão inteligentemente organizada, é o que faz valer a visita: do riso às lágrimas.

E uma observação é importante: enaltecemos o Museu de História da Bósnia e Herzegovina pelo que consegue fazer com poucos recursos. Mas é bom deixar claro que não desejamos que seja sempre assim. Pelo contrário, a visita, e uma breve conversa com o único funcionário que falava inglês por lá, assim como a realidade de outros museus e o que pudemos compreender de uma campanha anunciada com faixas em bósnio do lado de fora -, deixou claro que o estado de penúria econômica da instituição ameaça sua sobrevivência. Seria uma grande perda para aquele país – e não só para ele – que mais um bem cultural dos bósnios acabasse de portas fechadas.

Saiba mais sobre o museu, incluindo horários de visitas, no site oficial.

 

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