Em Sarajevo conhecemos Neno, um guia turístico nascido e criado na cidade. Em seu site ele avisa que tem 28 anos, portanto, somos mais ou menos da mesma idade. Há, certamente, muitas diferenças entre nós. Mas uma é especialmente marcante: eu brincava tranquilamente nas ruas de Petrópolis, no Brasil, enquanto ele vivia em um porão, abrigado de bombardeios, na Bósnia. Sarajevo é linda, e seu charme nem sabemos exatamente o que é. Estando lá é difícil pensar em sair.

Vendedora na esquina das culturas

Em média, 300 bombas eram jogadas diariamente entre edifícios, casas, mercados, enfim, qualquer lugar, a partir das montanhas ao redor. Depoimentos dos responsáveis por aqueles crimes de guerra dos 1990 estão disponíveis às fartas na internet e são atordoantes: a ordem era atirar nos civis até que “enlouquecessem”. Não havia segurança durante as 44 semanas de cerco e a única ligação com o exterior era um túnel construído sob o aeroporto, que não era bombardeado pois servia de base para as controversas operações da missão de paz das Nações Unidas a partir de 1992. Por ali era possível transportar – em segredo (?) – pessoas e suprimentos, sempre insuficientes para os 400 mil habitantes. Todo espaço disponível foi cultivado na cidade, houve quem chegasse ao canibalismo, desnutrição era condição geral. Tudo que podia ser queimado virou combustível para sobreviver à falta de eletricidade e gás, especialmente nos invernos com temperaturas negativas.

A Bósnia e Herzegovina buscava sua independência em meio às guerras do fim da Iugoslávia. “O espírito da cidade não podia ser abalado”, Neno explica. Então a vida tentava seguir: o teatro funcionava, foi criado o festival de cinema, os professores davam aulas nos túneis subterrâneos, a comida doada como ajuda humanitária – ele a descreve como algo que mal poderia atender pelo nome “comida” -, era vendida nos mercados. Sim, vendida: “Toda guerra é um mercado negro”. E a lata de carne que sobrou, um símbolo daqueles temos, “nem o cachorro comeu quando minha mãe abriu depois do conflito”, contou Neno. Aparentemente, as histórias de guerra vão permear qualquer visita à Bósnia e Herzegovina, mesmo se seu interesse exclusivo for cultura ou arquitetura. As marcas estão em qualquer lugar e são, na realidade, o que é mais explorado pelas agências turísticas.

Além de excelente guia, Neno parece ser, ele mesmo, uma síntese da paisagem de Sarajevo: origem multiétnica, esforço para colocar mais camadas na história do que os anos 90. O horizonte ajuda a descrever aquilo que torna a cidade inesquecível: as montanhas verdes nos aprisionam no vale do rio Miljacka, minaretes de mesquitas, crucifixos da igreja de Roma, torre de catedral Ortodoxa e a antiga sinagoga nos indicam os encontros e misturas culturais. Dominada pelos Otomanos por 400 anos, ainda é possível sentir os sabores da comida arabizada, especialmente na Baščaršija, o bairro mais muçulmano e turístico. Depois, com o controle dos Austro-húngaros, chegaram os prédios que espelham sua face “mais europeia” (além do bonde e da eletricidade). Neste tempo, a cidade ganhou centralidade para a História do mundo quando “abriu o século XX”: foi palco para o assassinato de Franz Ferdinand, o herdeiro ao trono, em carro aberto em 1914. O tiro é considerado estopim para a I Guerra Mundial. Encerrado o conflito e estabelecida a Iugoslávia, Sarajevo ganhou sua porção de edifícios no melhor estilo comunista: quadrados, cinzentos, grandes. Duas décadas depois do fim da república que reuniu os “Eslavos do Sul”, ainda estão em todos estes prédios, indistintivamente, as marcas de balas e bombas, a lembrar os fatos que ninguém haverá de esquecer.

“Estagnados” entre memórias, burek e café

Um dos numerosos cemitérios

As soluções para os conflitos dos anos 1990 trouxeram à realidade política da Bósnia e Herzegovina uma situação complicada de entender. O território é extraoficialmente fatiado entre etnias e as instâncias de governo são todas tripartites. Com interesses distintos, todos os temas – até futebol – podem virar uma espécie estranha de cabo de força: apesar de três pontas, muitas decisões são impossíveis. Junto com a decadência econômica, os arranjos políticos são motivos que levam à ideia de “estagnação” no pós-guerra. Essa foi a palavra usada por uma jornalista que viajava conosco quando questionada sobre o país 20 anos depois da independência. A sensação, segundo ela, é de estar em um país que não sabe para que lado quer ir, diferente, conta de há uma ou três décadas.

Pelas ruas da cidade, o que mais se vê são os cafés onde velhos e, especialmente, jovens, matam o tempo sem pressa. O “café bósnio” é parecido com o da Turquia, mas aqui se toma muito mais café do que em Istambul. A principal diferença – para aqueles que, como nós, não precisam provar suas marcas de nacionalidade – é a forma como a bebida é servida. Ao invés de já trazer o líquido nas xícaras, os bósnios te entregam pequenos recipientes de cobre, cheios de café. Parte do pó ainda estará flutuando e deve ser afastado com a colher para que as porçõezinhas sejam acomodadas em copos pequenos. Cada um cuida do seu. Assim como dos seus cubinhos de açúcar. O processo, em si, indica que “cafezinho rápido” quase não existe por aqui. “Cafezinho no balcão”, como no Brasil, não tem não. Mas companhia é sempre bem vinda.

Antes ou muito depois do café, qualquer visitante ou local há de passar por uma espécie de padaria cheia de ‘bureks’ na vitrine. Massa folhada macia e assada, que forma “túneis” recheados com batata, queijo ou carne, é difícil comer e não pedir mais um (ou vários) pedaços da iguaria. O burek é o ícone de uma culinária rica. E ganha, não necessariamente com justiça, o topo do ranking de delícias nos guias de turismo em uma competição estabelecida com legumes recheados ou os cevapcici, sanduíches de bolinhos de carne grelhados (em forma de dedo) e creme de leite.

É hora do café bósnio!

Tantos sabores. As badaladas de sinos e as convocações em árabe ecoando dos minaretes para as cinco orações diárias. A luz entre morros e vales ao entardecer. Os cemitérios de lápides brancas são pacíficos, enormes e intermináveis e a aura da guerra ainda povoa cada rua, mas mescla-se ao permanente discurso de convivência. A simpatia discreta; a arquitetura variada; as múltiplas formas de lidar com a memória. Cada minuto de um dia em Sarajevo é cheio desses elementos que vão delineando seu tal charme intangível. Parece não ser permitido explicar exatamente o que é. Mas algo nessa cidade faz sentir vontade de simplesmente ficar.

2 thoughts on “Em Sarajevo, presos pelo ar

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