Andávamos por um parque em Tirana, capital da Albânia. Havia barraquinhas de comidas e jogos no anoitecer. Em uma, quem acertasse o alvo ganhava a prenda: um, dois, três atiradores. Ninguém errava. Improvável em outro lugar. Mas o que tentávamos entender aqui não era a boa mira. Como o barraqueiro teria lucro propondo este jogo em um país onde, até 20 anos atrás, o medo de uma suposta invasão contrarrevolucionária levava as crianças a serem treinadas compulsoriamente no tiro ao alvo!? Assim como no caso do conhecimento sobre tiro, muito da Albânia sobrevive ao velho enquanto suas portas são reabertas.

Infraestrutura de primeira, lindas igrejas, cidades medievais bem conservadas, restaurantes cinco estrelas Michelin, jardins idílicos, boulevares e mais boulevares para comprar de tudo, e do melhor. Na Albânia não encontramos nenhum desses argumentos costumeiros para nos convencer de que a Europa deve ser o destino das próximas férias. Por outro lado, dizem “corram” o famoso guia Lonely Planet (lista de 2011) e o jornal New York Times (2014, sobre o litoral: “É a Europa quando tinha frescor e era barata”), por exemplo. Brasileiros são incomuns aqui, mas muitos, muitos, têm corrido (o número quadruplicou em 10 anos, chegando a 2,9 milhões de estrangeiros em 2013). Mas ir, por quê? Bem-vindo ao último lugar na Europa que a indústria não abraçou totalmente, responderiam muitos. Mas nós diríamos que a mais pura curiosidade devia ser a palavra para começar.

Sköder: interior

É interessante chegar à Albânia. Uma linha no mapa muda tudo. Viemos por terra, atravessando a fronteira a partir de Montenegro. Ao chegar em Sköder, do lado albanês, o ônibus abre a porta em uma pracinha – como aquelas do interior do Brasil, mas com mesquita ao invés de igrejinha. Todos descem. Neste país não passamos, sequer, por uma rodoviária. Você diz a alguém para aonde quer ir, eles apontam onde, em algum momento, haverá transporte. E você vai. Ou, um motorista te vê e para o carro. Negocia-se um preço, e assim seguimos. Fronteiras fechadas e rígido controle interno por mais de 30 anos de ditadura ajudam a entender as condições que nos fazem sentir como se estivéssemos desembarcado em um mundo totalmente diferente do de poucas horas antes. Os índices econômicos – a Albânia está entre os países mais pobres da Europa – dão mais nomes para as cores que começamos a enxergar.

Estamos em um ambiente bastante montanhoso, como uma viagem de carro de Norte a Sul contará ao seu estômago. No Sul, a fronteira com a Grécia faz imaginar as qualidades do litoral. Mas começamos pelo Norte, próximo a divisa com o Kosovo, onde estão os Alpes Albaneses (ou Julianos). Oportunidade para uma travessia espetacular: 18km, morro acima e abaixo, entre os povoados de Valbona e Theth.

Valbona: rumo a Teth

Ali, as estações do ano se pronunciam em alta voz. Se no inverno os fundos de vale podem acumular dois metros de neve, no fim do verão, em agosto, os caminhos são feitos de sol e flores. Entre a relva, os moranguinhos selvagens que se adiantaram para o outono estão ao alcance da mão. O sabor é o de essência artificial, bala mole rosada, daquelas que encantam crianças e memórias dos adultos.

Para chegar lá, partimos de Sköder até um porto às margens do lago Koman formado para garantir o funcionamento de uma grande hidroelétrica. O processo para embarcar aqui soa como um esquema montado para que turistas não usem o transporte local (mais uma dessas pequenas máfias que tanto nos perturbam). Para piorar a situação, ou adicionar alguma graça, o dono da história é um tal “Mário Molla”: não parece vilão de história infantil? Ao final, nenhuma hipótese de que havia uma outra balsa funcionando no lago pode ser comprovada – ou rechaçada.

Navegamos impressionados com os verdes e os picos de cada esquina. Ouvimos que as montanhas ajudaram o país a se proteger de invasores de todas as épocas. Os agressores do passado – Bizantinos, Eslavos, Búlgaros, Otomanos… não faltaram invasores – somaram-se às neuroses da Guerra Fria para justificar a construção de cerca de 750 mil bunkers (para menos de 3 milhões de habitantes). As grandes cápsulas de betão foram enterradas. Estavam protegidas contra tiros e bombas e esperava-se que os cidadãos comuns se protegeriam e atacariam a partir dali (por isso foram treinados na escola, como mencionamos no início desta história). Ainda segundo os funcionários do Mário Molla, muitas casas foram inundadas com a construção da hidrelétrica e a população rural se viu perdida com o fim do comunismo. Depois de 40 anos plantando o que fosse planejado pelo governo, o que semear? Hoje, as migrações, especialmente sazonais, são o mais frequente na região: as comunidades plantam e vendem seus produtos na cidade, onde tentam achar qualquer trabalho no rigoroso inverno.

 Valbona: encontros!   

Valbona é um povoado que não vimos. Saindo do lago é preciso atravessar mais alguns quilômetros em novo ônibus até a região onde estão os hotéis de Valbona, em geral empreendimentos ligados às famílias que sempre habitaram a região. Curioso: quase não vimos casas por lá. E nem uma vila nucleada, como esperávamos encontrar. Era possível passar dias por ali entre as diversas trilhas nas montanhas e os vales cortados por rios rápidos, gelados e azuis. A Kombi que deixa no início da trilha pra Theth usa um desses rios – seco nesta época do ano – como estrada. E a chegada ao povoado vizinho também se faz sobre pedras arredondadas, por onde muita água corre em outras épocas.

Já Theth tem tudo que se espera dessas vilas de interior. Casas modestas, quintais com frutas, pequenas plantações e animais. Uma igrejinha, um campo de futebol. O silêncio que nos acompanhou desde o outro vale, com o vento que faz a viagem ainda mais espetacular, estavam aqui também. As casas alugam quartos e vendem refeições. O jantar incluiu feijão vermelho, preparado para dar saudades, e o anfitrião não deixou de servir quantos copos de rakia (“pinga” de ameixas, feita em casa) pudéssemos beber.

Teth: chegadas

“Não há atrações de verdade em Tirana”, reclamam os turistas. A afirmação não é de todo falsa. Mas, para nós, andar e observar já serviu ao propósito da diversão e ajudou a compreender o país por onde circulávamos. A capital da Albânia não remete a nenhum conto de fadas, mas os prédios coloridos, numa tentativa extremada de apagar o cinza da ditadura que passou, bem que me lembraram um livro da infância (Era uma vez um Tirano, de Ana Maria Machado). Nele, crianças resolvem a tristeza da tirania com tinta. Mas não há cor que apague a cartografia da cidade, que expõe as marcas mais profundas do passado – como as que moram nas memórias do albaneses. São quarteirões de mansões, em uma região antes proibida à circulação de cidadãos comuns, se contrapondo às casas simples e aos prédios velhos do resto da cidade.
Tirana: em público

Do cinza da capital, seguimos ao Sul, desvendando as linhas de ônibus que praticamente não existem e parando em Vuno. Para chegar lá passamos por Vlora, e, para sair, acabamos perdendo um dia em Sarande. Ambas são paradas à beira mar bem mais famosas, mas nenhuma pareceu tão interessante e pitoresca. As cidades são desordenadas e a poluição chegou à praia antes de nós. Assim como outras vilas pelo caminho, Vuno seria melhor descrita como um pedaço do paraíso. É um pequeno povoado à beira da estrada, talvez uma centena de casas se organizem pelo penhasco abaixo. Uma escola abandonada é transformada em hostel improvisado no verão. O mar se vê de qualquer ponto, assim como Corfu, a maior ilha grega, que passou a morar no nosso horizonte. As oliveiras esverdeiam as encostas e garantem comida super simples e saborosa, para somar mais uma boa memória dos nossos dias pela Albânia.

Vuno: paradisíaco

Este não é um roteiro a ser feito por qualquer um, não faltam nesse pedaço da Europa as dificuldades que países pobres oferecem aos viajantes: infraestrutura ruim, poucos falam inglês (na verdade, muitos entendem italiano o que facilita para nós) e informação não é disponível em cada esquina. Mas o fantástico gosto das descobertas fez da Albânia um prato cheio. O lugar serve para exercitar o senso de aventura e desafiar nossa relação com o tempo: os deslocamentos demoram e os melhores lugares, na nossa opinião, são aqueles em que o tempo parece ter parado. Se é o que você procura, vá. É acertar na mosca.


4 thoughts on “Fomos à Albânia. Acertamos na mosca

  1. Olá, café dos viajantes! Viemos agradecer as dicas sobre a Albânia. Fizemos o tour em Tirana e ficamos no Shkolla hostel em Vuno e amamos! Obrigada! 😉

    1. Oi Vanessa!! Que bom saber que gostaram de lá e que as dicas foram úteis! Eu sei o tanto que a gente pesquisa as coisas pra viagem, lê em monte de cantos pela internet e acaba nunca dando um retorno, então é muito bom ouvir que adiantamos algo por aí 😀
      Fiquei devendo ir em vários lugares na Albânia, vou ter que voltar por lá qualquer hora dessas. Beijos!

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