O motorista que deveria nos deixar em Ioannina, no norte da Grécia, esqueceu de parar. Sinalizamos e ele nos deixou descer próximo ao cruzamento entre uma entrada para a cidade, o lugar nenhum e uma pequena farmácia. O sol era de rachar. Lá fomos nós perguntar por transporte. A simpatia do farmacêutico foi tanta! Fez umas ligações e nos explicou que não tinha jeito. Derretemos por alguns minutos na beira da rodovia até parar um senhorzinho, carro velho, banco de trás lotado: reorganizou tudo por nós! O rapaz do hotel serviu bebidas feitas em casa, as moças do trem deram umas aulas de grego básico. Os garçons eram sorridentes, a senhora da bilheteria do cinema fez piadas e, na ilha, o monge abriu a porta fora da hora. Até no correio (o lugar mais difícil sempre) tivemos ajuda!

Nosso primeiro roteiro pelo país que inventou a democracia começava por subir ao Olimpo, o monte onde, diz a mitologia, moram os deuses. Como tudo na Grécia começa pela mitologia, parecia o correto a ser feito. No entanto, atrasados como sempre, chegamos no alto verão e isso não combina com visitas divinas que demandem tanto esforço físico. A temperatura, na realidade, influenciou muito da nossa experiência. Pensamos que a prática no verão brasileiro nos salvaria, mas a verdade é a que a aridez bateu em cheio nos nossos planos e a próxima visita será em outra estação.

“Geologicamente perfeito!”

Mosteiros se equilibram em Meteora

Foi com essa exclamação engraçada que um amigo reagiu a algumas fotos que fizemos em Meteora, o complexo de mosteiros da Igreja Ortodoxa de Kalambaka, no norte da Grécia. Rimos bastante da observação profissional do geólogo, mas garantimos que a síntese se aplica para além do aspecto natural. Não há informação segura sobre a origem dos templos, mas evidências apontam para ocupação das cavernas por monges já no século XI e acredita-se que pelo século XIV iniciaram a construção dos mosteiros. Eram 20, apenas seis sobreviveram. E não devia mesmo haver melhor lugar para a reclusão: até 1920 não havia escadas! Soa intrigante como conseguiram colocar os mosteiros em lugares tão altos e inacessíveis, e como puderam viver lá, “equilibrados” sobre pilares de pedra de 305 (a mais baixa) e 549 metros (a mais alta) de altura.

Se toda a paisagem de Meteora nos impressionou, nos emocionou entrar em uma igrejinha de Kalambaka, a da Dormição da Mãe de Deus: por fora ninguém diz, mas trata-se de uma construção ainda mais antiga, do século XI. A falta de conservação das pinturas que cobrem todas as paredes e a escuridão do templo aprofundaram a sensação de volta ao passado. Ao mesmo tempo, as evidências de uso presente de um lugar tão antigo ajudaram a nos situar sobre o país em que pisávamos.

Ao perdedor, o melhor endereço

Acrópole onipresente

Na versão mitológica para a criação de Atenas (aqui um rápido e roto resumo), disputando a opinião dos cidadãos sobre quem deveria ser seu patrono, os deuses fizeram oferendas. Poseidon presenteou os cidadãos com cavalos feitos de espuma do mar, indicando proteção em tempos de guerra. Atena lhes deu a oliveira, um símbolo para o conhecimento. E o nome da capital nos aponta a vencedora, honrada com templos na Acrópole, lugar de culto dos gregos antigos: ainda imponente, mesmo em ruínas há séculos, reina sobre a cidade, refletindo o sol ou flutuando na iluminação noturna.

Parece não haver um minuto de sossego para visitar a Acrópole. Provavelmente a maior das relíquias da arqueologia grega, certamente a mais conhecida, recebe milhares de turistas todos os dias. Vão subindo a colina, seguindo as placas e indicações dos guias que não param de apontar para as pedras e repetir diuturnamente detalhes e números difíceis de reter sobre a milenar história de cada um dos templos. Turistas independentes se mesclam na multidão em busca da sinalização do sítio, que ajuda a entender onde se está.

Mesma sorte falta a quem tiver curiosidade de ver a Ágora: no lugar onde Platão e seus discípulos teriam passado a vida argumentando, algumas árvores, algumas pedras, nem uma linha sobre o que elas significaram. Por ali, no chão, vimos o sinal “plataforma do orador” e supomos, decepcionados, que falavam a partir dali. Do ponto de vista da informação, bem mais interessante é uma visita ao moderno museu da Acrópole. Dizem que foi construído em resposta aos governos que se negam a devolver os tesouros do passado grego, com o recorrente argumento de que faltava estrutura adequada para mantê-los em segurança. Os itens que não foram saqueados foram comprados em negociações questionáveis, e os gregos requerem seu patrimônio, por genuíno orgulho e também porque quem expõe as peças arrecada alguns milhões em turismo. No moderno museu, placas que são um protesto indicam o lugar onde ficarão este ou aquele item quando (e se) repatriado.

O templo de Poseidon

Atenas, além de ser a capital, é a área mais povoada da Grécia. É dessas cidades que sufocam – não apenas pela temperatura já mencionada, mas porque os prédios brancos, milhares de quadradinhos, se apinham lado a lado até o perder da vista. Entre eles, e nas escavações do subsolo para a construção do metrô, o passado vai emergindo em ruínas, entre a velocidade do presente e os mistérios do futuro da Grécia. Passamos o tempo visitando um ou outro dos sítios arqueológicos e vivemos de ótima comida, de sorvete para aplacar o calor, e do prazer de estar por ali. Mas distante não estava mal. A verdade é que, para os padrões atuais, o deus perdedor do tal concurso para patrono de Atenas ficou com o melhor endereço: em Cabo Sunion, a 70km do centro da cidade, o templo de Poseidon se debruça sobre o mar e garante um por do sol avassalador.

Ilhas e decisões difíceis

Anafi por dentro do labirinto de casinhas brancas

Míkonos, Creta, Santorini. Algumas poucas ilhas gregas são tão famosas no Brasil que quase ofuscam um fato que pode ser atordoante: chegam a 6 mil se até as muito pequenas forem contabilizadas. Menos de 300 são habitadas e estão organizadas em grupos – Ciclades, Peloponeso… Podem estar a mais de 300km do porto de Piraeus, em Atenas, e são ligadas por um sistema de transporte até eficiente, mas muito caro. Para onde ir? Começamos a fazer essa pergunta meses antes de chegar e seguimos com ela a cada vez que encontrávamos um grego ou alguém que passou ou viveu por lá. A chocante verdade é que a cada vez que questionávamos surgia uma nova lista, com nomes que nunca ouvimos falar.

Decidimos evitar aquelas que são mais conhecidas, caras e cheias. Resolvemos que seria uma boa ideia ver ao menos duas – mas logo percebemos que mais que isso demandaria mais orçamento e tempo já que, para o que nos interessava, as barcas não são diárias. A bem conectada Naxos está no meio das Ciclades e é conhecida por ser mais fértil que as demais. Brindou nossa visita com muito vento contra a pedalada e fez valer o esforço com uma linda praia de mar turquesa. De lá seguimos para Anafi, por assim dizer, uma irmã pequena de Santorini. A chegada foi curiosa: centenas de passageiros desceram na irmã maior e os 20 que ficaram sorriram com a sensação de terem feito a escolha certa. E foi. A arquitetura é o clássico das casinhas brancas, a comida é fresca, as pessoas são sorridentes, o mar e o céu se confundem em azuis. Inesperada foi o único ônibus que circulava a ilha. O motorista, cantando, batucando e dirigindo, a essa altura já esperávamos mais um grego legal. Enfim, esperávamos tudo de bom da Grécia e, no final, o melhor foi aquilo sobre o que não pensamos: nos gregos.

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