A maior cidade turca, Istambul, está geograficamente dividida: Ocidente e Oriente, Leste e Oeste, Europa e Ásia. É como se o Estreito de Bósforo anunciasse uma diferença que não se pode ver. Como se as pontes indicassem o caminho para o outro lado do mundo, aquele que não é o nosso. Tivemos uma estadia marcada por essa divisão que, estranhamente, é tanto imaginária quanto concreta. Tratava-se de uma dupla ansiedade: voar (de balão) e cruzar logo a linha do que nos é comum, rumo ao Oriente Médio.

Mesquita Azul, um símbolo

É impressionante a beleza do “Chifre Dourado”, como chamam a região das maiores atrações turísticas de Istambul, localizada no lado ocidental. A linha do horizonte aqui é desenhada de enormes cúpulas e minaretes das mesquitas, prédios de várias épocas e a outra margem do canal. Se preferimos Süleymaniye à mesquita mais famosa, conhecida como Mesquita Azul, e se nos decepcionamos com o deteriorado e superlotado interior da Agia Sofia (que já foi igreja e mesquita, hoje é museu), aproveitamos as ruas do jeito mais corriqueiro: olhamos. Na única cidade que divide hemisférios, experimentamos por mais de hora a sensação de ver o mundo todo de uma vez.

O coração turístico da antiga Constantinopla pulsa com centenas de pessoas de variadas origens cruzando a praça a todo minuto. Tanta gente diferente que nos gerou certa hipnose. E naqueles minutos não fomos os únicos a registrar os passantes: um silencioso fotógrafo sentou-se bem ao nosso lado e nos acompanhou na aventura de ver. Estava curiosa para saber quem era ele, imaginei sua biografia completa e tentei adivinhar se fotografava os estranhos há tempos. Mas algo freou qualquer pergunta. Ficamos assim, olhando os outros e um ao outro, sem nada dizer. Assim quietos, absorvemos a sensação do ambiente multicultural, pelas câmeras e em nós mesmos. Sensação maravilhosa de só olhar, mesmo se não for capaz de entender, que se repetirá nos meses que virão quando estivermos, finalmente, no oriente.

O companheiro fotógrafo anônimo

Do outro lado

Istambul nos pareceu ainda mais interessante quando nos movimentamos por ela. A primeira mudança foi deste centro turístico para a casa de um camarada curdo em Ortaköy. Apesar do mercadinho turístico cercando a linda mesquita à beira do Bósforo, naquele bairro nos sentimos mais próximos da cidade “comum” e podíamos andar como turcos e tentar comprar como turcos – a língua será sempre uma barreira maior que a aparência. Ao chegar não sabíamos, nem mesmo, que “i” sem pingo, na Turquia, não é falta de compreensão. É outra letra (!), que nos serviu para alguma confusão. Mas às vezes eram necessários apenas alguns sorrisos e mímicas para garantir conexão – como no dia em que ficamos trancados fora da casa. Tentamos usar o telefone das vizinhas, que não entendiam bem o recado. Mas dois minutos foram bastante para fazer amizade com os adolescentes que passavam as tardes conversando na escada da nossa pequena rua, numa noite em que acabamos com a senha da internet do vizinho e muitos selfies instantaneamente publicados no Facebook deles.

Outro novo amigo nos encontrou em Üsküdar, um dos distritos do lado asiático. Depois de atravessar em uma das balsas que regularmente cortam o Bósforo, passamos por Kuzguncuk, Beylerbeyi, Çengelköy e Kanlıca. Caminhamos por diversas ruas arborizadas, colecionamos imagens de antigas casas de madeira. Muitos pescavam na tarde de domingo e era difícil achar uma cadeira nos diversos cafés ao longo do canal. Uma pequena multidão se reunia diante do copinho de chá preto, um equivalente as nossas cervejinhas. Sem dúvida, por aqui o chá é o melhor amigo dos locais. E achar novos amigos para nos acompanhar em mais um copo, felizmente, não foi muito difícil – nem em Istambul, nem na capital Ankara, onde também fomos amistosamente recebidos enquanto contávamos os dias para o trem que nos levaria ao Irã.

Com Oguzram, em mais uma parada para o chá preto

Acima, no meio do caminho

A Capadócia é uma região tão árida quanto curiosa. E erosão deu às montanhas formatos únicos, que lembram suspiros (sim, o doce), e podem ser admiradas em caminhadas pelos vales. Há 2 mil anos, São Paulo documentou por ali diversas viagens de evangelização, os primeiros cristãos construíram seus templos – cheios de imagens do São Jorge -, e se esconderam de perseguições em enormes cidades subterrâneas, às vezes com oito andares de profundidade. Milênios antes as cavernas já eram ocupadas por diversas civilizações. E em pleno século XXI, hóspedes viram homens e mulheres “das cavernas”, sempre com direito a uma antena de TV via satélite no topo delas. Tudo isso ganha nova dimensão se visto do alto, com o sol nascendo entre uma centena de balões.

Quantos balões? Mais de 80?!

Quando descemos do balão na Capadócia, estávamos leves. Era como se nossos corações fossem agora a câmara de ar quente: que maravilha se ver flutuando sem motor, o silêncio lá em cima, o sol iluminando o caminho que vamos seguir no futuro tão próximo, tantos olhos alegres e sorrisos intermináveis. Com o fim da madrugada, a luz fez brilhar uma ampla palheta de cores. Os labirintos de vales, cavernas e montanhas áridas são uma visão estonteante. Mas talvez não se comparem em beleza à sensação de tranquilidade que invade o cesto do balão. Francamente, devia ser garantido pelo menos um voo na vida a todos que assim desejassem. Tipo direito constitucional.

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