Não havia lugares vagos no trem semanal que sai de Ankara, da Turquia, para Tabriz, no Irã. Portanto, quando chegamos à fronteira a viagem fácil já tinha se transformado em mais de 12h em um ônibus, uma madrugada no chão da rodoviária, uma incursão no mundo dos pastores de ovelhas, outro ônibus, um carro superlotado e uma pequena caminhada entre o outdoor do Ataturk (herói nacional turco) e a enorme foto dos aiatolás Khomeini e Khamenei, as caras onipresentes do anterior e atual líderes supremos do Irã que, claro, nos vigiaram também nesta empoeirada fronteira.

Chegamos antes dos iranianos. Rapidamente, Enrico teve o visto carimbado e passou para a sala seguinte. Eu encostei no balcão e entreguei os documentos, sentindo-me um tanto idiota por estar tão preocupada em não mostrar o cabelo enquanto as iranianas que iam fazendo engordar a fila deixavam 30% da cabeça nua. O policial não parava de falar em farsi com outros agentes e anotava coisas sobre os meus documentos na margem de um jornal velho. Enrico gesticulava de dentro do país, mas no limbo da fronteira eu não entendia nada – nem os números, escritos também com caracteres árabes aqui.

O Bazar de Tabriz: dizem ser o maior coberto do mundo!

Por fim, um policial que falava inglês mandou entrar. Nunca foram rudes ou exatamente antipáticos. Mas eu, que tenho medo de fronteiras e de bicho papão, fiquei muito tensa por uns 30 minutos, sentada no sofá velho, criticando para mim mesma os cartazes feiosos que eu não entendia. Estava claro que a paciência dos agentes chegava a um único fio depois de inserir repetidas vezes no computador aqueles dados que não funcionavam. Eu achava (e acho) que o problema foi como transcreveram meu nome – eles não escrevem vogais, mas meu nome não poderia ser entendido pelo contexto! Nunca saberei… A primeira e única pergunta veio depois do passaporte carimbado. Afinal, para onde eu iria?

Enquanto isso, na sala ao lado, Enrico pacientemente enumerava jogadores de futebol enquanto tentava se esquivar de cinco ou seis homens com pilhas de notas de rial, tantas que mal cabiam nas mãos. O simpático controlador da porta de saída já tinha cochichado para não acreditarmos neles, nem segui-los, nem trocar dinheiro com eles. Aceitamos o conselho, claro, e seguimos para um prédio público alguns metros adiante. Pensamos ser um banco, mas na verdade não sabemos qual o propósito da repartição. A esta altura já eram uns 20 cercando o Enrico e o Walter, um holandês com quem viajávamos desde Ankara. Ali percebi pela primeira vez como é ser uma mulher (invisível) no Irã: passei por trás de todos eles, não me perceberam. Entrei em uma sala, perguntei o valor do cambio. O funcionário questionou para onde íamos, disse quanto era o mínimo suficiente para chegar, e recomendou não trocar mais do que aquele valor. Só então entendi que ele não faria o cambio para mim. Ao saber que eu era brasileira ele perguntou se eu sambava, com um sorrisinho de canto de boca. Eu certamente fechei a cara mecanicamente diante do estereótipo que acompanha as brasileiras a todos os cantos do mundo – tão irritante quanto todos os estereótipos que acompanham as iranianas, e as muçulmanas, e todas. Menti. “Não”. E pronto. Ele chamou um dos homens, troquei o dinheiro na frente dele, que conferiu nota por nota cuidadosamente antes de desejar boa viagem.

Cai a noite emTabriz

Mais um transporte: um taxi nos levou até a rodoviária mais próxima, enquanto nos sentíamos em um road movie iraniano, cruzando aquelas montanhas áridas. Ao chegar, fomos cobrados 10 vezes mais do que o valor absurdamente pequeno previamente combinado e anotado no bloquinho pelo taxista. Os iranianos usam o rial, mas corriqueiramente chamam a moeda de toman. Um toman sao 10 rials. No passado isso devia facilitar as contas. Mas a esta altura da inflação, quando as notas estampam tantos zeros que a vista embaralha para contá-los, só fazia mais confusão! Deviam ter um terceiro nome para cortar logo três zeros das contas! De todo modo, o preço novo, dez vezes maior, fazia mais sentido do que o primeiro. Pagamos e seguimos para o último transporte.

Finalmente sentamos no ônibus que nos levaria a Tabriz. Tinha adesivos do Bob Esponja no meu banco, criancinhas jogando Angry Birds com o smartphone da mãe e alguns se refrescavam com uma Coca Cola, como em absolutamente qualquer dos lugares que visitamos antes. No entanto, precisamos mudar de lugar. Caso não sejam casados, mulheres e homens não devem sentar-se lado a lado. Para todos os efeitos, eu era casada. Mas o correto é que fizesse companhia a uma mulher desacompanhada de um homem. Elas podem estudar e ter um trabalho, saem sozinhas de dia e à noite. Mas são obrigadas a obedecer a várias convenções desse tipo. Enquanto Enrico se engajou em uma conversa com Alireza, eu gostei de viajar com a Leilah, uma linda mulher de 32 anos, sobrancelhas largas e expressivas, que seguia com duas irmãs, a filha, Vida, e uma sobrinha, estas duas ainda adolescentes. As meninas também quiseram sentar-se comigo e o fim da viagem virou uma grande dança das cadeiras.

Era pouco o inglês que falavam, mas estavam curiosas para ver fotos do Brasil, saber com qual dos dois estrangeiros do ônibus eu era casada e há quanto tempo, e ainda mais uma outra série de perguntas que se repetiriam por um mês. Estavam também ansiosas para me mostrar suas fotos sem véu publicadas no Facebook – usar a rede social é mais uma das coisas populares no Irã, apesar de proibidas pelo governo. Elas ficaram pasmas – e decepcionadas – porque eu não tinha Instagram e não era fã da Kate Perry e do Justin Bieber! E eu fiquei boquiaberta – e entusiasmada – com a quantidade de coisas que podem acontecer em uma hora no Irã – ou com a quantidade de coisas que eu não desconfiava e já tinha visto.

 

*Exceto as ovelhas turcas e o taxi, as fotos a seguir (e no post) são de Tabriz, nossa primeira parada em terras persas!

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