Ao comentar que passamos pelo Irã ouvimos sempre alguma exclamação: “Nossa, o Irã!”; “Mas é perigoso!”; “Gostou?!”. Estas e tantas outras são justificadas: falta informação sobre como é a vida por lá, sobre como as pessoas se comportam com os estrangeiros, sobre quão repressivo é o Estado com relação aos turistas, sobre o que tem para ver, etc. Estivemos por um mês em território persa e visitamos, à exceção de Tabriz, apenas a região mais turística. Enquanto não voltamos para conhecer mais lugares – sim, queremos voltar! – resgatamos notas aleatórias que viraram esta lista de curiosidades e observações. Cinemas, carros brancos, internet, tapetes, luzes de neon. É uma miscelânea o que listamos a seguir:

ALCOOL – Nem uma gota é permitida no Irã. A descoberta da posse de bebida alcóolica dá cadeia. Mas os iranianos parecem sempre dar um jeitinho… muitos conseguem comprar ou fabricar alguma bebida artesanal para uns “bons drinques” com os amigos…

AR CONDICIONADO – Badgir é o nome de um “primo ancestral” do ar condicionado. São muito comuns em Yazd, mas existem em várias áreas do Irã, especialmente nas mais desérticas – e quentes! O sistema captura do ar mais frio do alto, por meio de torres, e faz com que circule pela casa. Em alguns casos o ar desce da torre e é soprado primeiro em uma piscina, para ficar ainda mais fresco. Somado ao perfeito isolamento térmico das construções, a diferença de temperatura é impressionante dentro e fora e faz questionar ainda mais os nossos prédios feitos de vidro, verdadeiras saunas!

Torres para um "ar condicionado natural"

BANCOS – Por causa das sanções econômicas impostas ao Irã – desde a Revolução de 1979 e aprofundadas para que desista de seu programa nuclear – o sistema bancário do país não está conectado com o resto do mundo. Mas não é porque o meu cartão Visa, Mastercard ou similar não funciona que os iranianos não teriam bancos. Pelo contrário, é um dos países com mais bancos que já vimos. São dezenas, quase todos estatais!

CANTORAS PROIBIDAS – Explicaram que a voz feminina não deveria ser ouvida em público segundo as leis pós-Revolução Islâmica. Por isso as cantoras foram banidas no Irã em 1979. Mas a internet age sobre este problema: elas estão em muitos Ipods no país. Nós jamais nos esqueceremos das dancinhas da Sepideh, espécie de Beyoncé iraniana (que não vive no Irã) e de quem nossas pequenas anfitriãs eram fãs! Elas viam os clipes (via uns DVDs que não sei exatamente de onde saiam) e conheciam todas as letras e coreografias!

CARROS BRANCOS – Segundo explicou um amigo em Teerã, no pós-revolução as cores dos carros eram uma imposição. E claro, faz calor, qualquer coisa que reflita o sol é bem-vinda… Mas hoje, acima de tudo, comprar um carro branco é garantir que há um público maior interessado em comprá-lo no futuro. “Comprar uma coisa já pensando no bom negócio ao vendê-la faz parte da mentalidade iraniana”, explicou.

CINEMAS – O Irã tem realizadores premiados no mundo todo. Mas, dentro do país, ir ao cinema pode não ser tão simples para todos. Especialmente fora da capital, mulheres são mal vistas nas salas escuras e a proibição social é suficiente para inibir sua presença. Mulheres mostrem os cabelos em público, regra que estende-se da foto no visto das estrangeiras à tela grande. Filmes de outros países são praticamente proibidos, portanto. Acreditávamos que no Museu de Cinema de Teerã havia sessões legendadas, mas descobrimos que não no momento da visita. Lamentamos diante da linda sala de projeção.

Museu do Cinema Iraniano em Teerã - tchauzinho dos realizadores

COMIDAS – A comida iraniana não entrou na lista das mais interessantes. Em geral era tudo gostoso, mas comendo bastante em restaurante diria que tudo se repete – a menos que você seja fã de provar coisas como miolos de ovelha… Todo dia é kebab – um tipo de churrasquinho de carne. Há diversos tipos de kebab, feitos de pedaços inteiros de carne de boi, de carne moída, de frango, mistos. Mas a verdade é que era sempre churrasquinho servido com pães planos (hummmm, os pães fresquinhos eram bons demais!), arroz (geralmente acompanhado de um potinho de manteiga para ser derretida), iogurte, cebola, tomate e ervas cruas.

Jantar - a foto não faz justiça ao sabor...

Algumas das nossas variações favoritas eram:

Khoresh: ervilha com carne e molho.

Gormezabdzi: feijão com verdura.

Bodenjum: berinjela super cozida, às vezes defumada.

Koofteh: uma especialidade de Tabriz, basicamente um “bolão” de carne coberto com cebolas caramelizadas.

Dizi: carneiro e grão de bico são cozidos com alguns outros ingredientes – como batatas, cebolas, tomates e ervas – dentro de um potinho de barro. O caldo do cozimento é desejado em um pote para ser sorvido como sopa, os pedaços são amassados para comer com pão.

E, em Isfahan, o tradicional suco de cenoura com sorvete de açafrão!

"Comida a gente nunca esquece"

Doogh, uma bebida preparada com iogurt, está entre os acompanhamentos preferidos para refeições. Às vezes gostávamos, outras não. Talvez seja questão de hábito…

Entre as frutas, além das deliciosas tâmaras secas sempre nos espantávamos com as romãs: nunca vimos maiores, mais doces, mais brilhantes!

Romã: quem diria serem tão lindas no Irã?

Chá preto e biscoitinhos são fáceis de achar.

Ainda, sobre a mesa iraniana: o pessoal gosta mesmo é de servir-se e de comer no chão! Em casa é mais comum que este modo seja mantido, mas há também restaurantes com espaços forrados de tapetes para quem quiser se acomodar assim. E as ferramentas são importantes também: garfo e colher resolvem qualquer refeição.

COPYRIGHT – Há vários anos o Irã sofre com graves sanções do Ocidente por causa de seu programa nuclear. Essa deve ser a explicação para não darem a mínima importância para Copyright.

DATA – 2014 era o ano do nosso calendário. Para os iranianos, o ano era 1391 porque o dia em que Maomé peregrinou à Medina (e não o nascimento de profeta menos importante, Jesus) marcaria o ano zero.

DIREÇÃO DE MECA – Em vários restaurantes e hotéis havia setas no teto para melhor situar os fiéis sobre a direção de Meca. Prático já que os muçulmanos devem virar-se nas cinco orações que fazem diariamente e nem sempre tem sol ou bússola.

INTERNET – Uma grande quantidade de conteúdos da internet é proibida no Irã, seja por razões políticas ou morais. Estão incluídos jornais, redes sociais como o Facebook, tudo que fosse “.ORG” e blogs também não passavam pelos filtros do governo. Ao clicar em um desses endereços somos direcionados a uma página oficial – toda bonitinha com cachoeiras e borboletas – com menu em farsi que nos explica (segundo nos contava o Google Translate) as razões de não podermos acessar este ou aquele conteúdo. Mas ninguém liga muito para isso: todo mundo que acessa internet no Irã sabe como usar sistemas de VPN. Quando passamos por lá, o governo anunciou que em alguns dias bloquearia o dispositivo para envios de mensagens Whatsapp. No mesmo dia um amigo contava ter recebido por e-mail todas as instruções para suplantar mais esta proibição.

MESQUITAS – As regras para visitas às mesquitas variam entre países. No Marrocos a entrada era geralmente proibida, na Turquia não é possível entrar durante as cinco orações diárias. No caso do Irã é permitido a entrada de não-muçulmanos em todas as mesquitas e nos templos, respeitando-se durante as orações o lugar restrito a presença de homens e de mulheres. As mulheres têm que usar um véu longo, o chador, quando entram nas mesquitas. Sempre é possível pegar um emprestado.

Boa parte das mesquitas e templos do Irã são decoradas em azul por fora e com mosaicos de espelhos por dentro. É comum que as pessoas descansem dentro delas, atendam o celular, recarreguem baterias ao mesmo tempo em que outras fazem o esperado: ocupam-se de recitar o corão e fazer suas orações. Os muçulmanos devem rezar cinco vezes por dia. É ideal que se reúnam para isso, especialmente na mesquita e nos horários determinados para este fim – os minaretes informam o horário, que varia de acordo com o nascer e por do sol, com orações em árabe. Mas se não for possível atender ao chamado imediatamente, eles têm até o horário da próxima oração para colocar-se “em dia” com a obrigação.

NARGUILE – Em Teerã é comum ver grupos de amigos reunidos em casas de chá para fumar narguilé. Mas em muitas cidades – como é o caso de Isfahan – as mulheres não podem frequentar estes locais.

NEON – Os letreiros chegam a ser obsessivos, não importa o tamanho da cidade ou a hora da noite!

OURO – Os bazares sempre têm corredores e mais corredores de lojas de ouro, um presente para todas as horas. As mulheres ainda recebem dote em moedas de ouro, a quantidade é acertada entre as famílias. Ouvimos que em alguns casos são tantas quanto a idade da moça, ou o ano do seu nascimento – mostrando a possibilidade de variação de 20 a 1995, por exemplo…

 

Eu vejo ouro por TODOS os lados!

PIQUE-NIQUE – Nunca vimos gente mais profissional em pique-niques do que os iranianos. Eles levam muita, muita comida, às vezes até panelas vão parar nas praças. Nunca podem faltar as garrafas de chá e eles são tão bons nisso que até plásticos para improvisar uma barraca em caso de chuva não ficam de fora!

Pique-nique de iraniano e convidados em Shiraz

PREÇO – O preço de boa parte dos produtos – especialmente alimentícios, bebidas e remédios – são controlados pelo Estado e são estampados nas embalagens.

SERVIÇO MILITAR – É obrigatório para todos os homens e enquanto não o cumprem, não têm passaporte – então não podem sair do país. Carteira de motorista apenas depois do serviço militar também. Os parentes de militares que serviram na guerra Irã-Iraque têm diversas regalias.

SIESTA – Os iranianos curtem uma super-siesta, aquela dormidinha pós-almoço, especialmente nos lugares mais desérticos e cidades menores. Em Kashan, por exemplo, não existia a possibilidade de almoçar às 13h, absolutamente tudo fechado para um descanso merecido – o sol é mesmo massacrante.

Em Kashan, depois do almoço é dormir!

TAPETES – Os tapetes persas são os mais antigos encontrados no mundo e não tem fama mundial à toa. É tão difícil apontar um tapete feio quanto saber quanto cada um deveria custar e decidir qual levar para casa. Obviamente não aprendemos a arte de comprar tapetes em um mês (e nem chegamos a comprar um), mas comentamos o que aprendemos enquanto tomávamos chá com os vendedores.

Manipulando um tapete mágico - duas faces!

Há basicamente dois tipos: os urbanos e os das aldeias. Os primeiros são ricamente elaborados e desenhados antes da tecelagem, são mais geométricos e erros são inadmissíveis no mercado. Podem ser assinados por designers. Os tecelões são assalariados e todos estes fatores aumentam o preço dos tapetes. Há inúmeros modos de medir a qualidade de um tapete, tantos que um leigo fica perdido em dois minutos. As peças são consideradas investimento no Irã – como para nós seria comprar um apartamento. Para ter ideia da dificuldade de separar o joio do trigo, o material da base e dos nós é importante componente no preço: lãs de vários animais ou seda, que, claro, faz encarecer o tapete. A seda gera ilusões sobre a cor, que muda conforme a posição da peça. E até diferentes tipos de seda existem! Quem seríamos nós para distinguir um tapete de seda do mar Cáspio de outra que veio da China?! O tamanho é outro componente do preço, mas um tapete pequeno pode ser muito mais caro do que um grande. Uma das peças mais lindas que vimos era apelidada de “tapete do Aladin”. Foi tecida por duas pessoas em sincronia, o que permitia que tivesse “dupla face”. Cada centímetro quadrado foi preenchido com 1444 nós de seda. A paciência dos tecelões, na loja, custava algo em torno de 5 mil euros (cerca de 16,5mil reais)! “Em torno” porque a arte de comprar tapetes não é só a arte de conhecê-los bem, mas também a de saber negociar.

Já os tapetes das vilas têm suas origens, muitas vezes, desvendadas pelas cores, pois os corantes são todos naturais, produzidos com ingredientes da região. Os das áreas menos áridas trazem tons de verde, enquanto aqueles originados nos desertos costumam ser produzidos em vermelho, laranja, preto. Nestes tapetes há uma quantidade de desenhos que se repetem ancestralmente, geralmente contando histórias. O design sai da cabeça do tecelão no tempo livre, não sendo a tecelagem o trabalho principal dos artesãos. Tais tapetes costumam ser feitos para usar na própria casa, vendidos quando há necessidade. Curiosamente, os tapetes usados são mais valiosos – nos primeiros cinco ou 10 anos de uso, porque as cores se harmonizam e o material amacia. Muito depois, porque viram relíquias. No entanto, o melhor argumento para pagar mais por tapetes antigos, na minha opinião, é o que nos lembra que tapetes usados tem historia.

O que chamam tapete urbano... Design em seda!
Arte com as cores do deserto

VINHO – Bebidas alcóolicas são proibidas desde a Revolução de 1979. Quer dizer que desde aquela época os vinhos de uva Shiraz, nome da cidade iraniana de sua origem, saem apenas de vinhedos de outros países, como França, Austrália ou Argentina.

ZOROASTRISMO – O Irã é ligado fortemente a imagem de um país muçulmano. Mas a religião fundada na Pérsia é o zoroastrismo, que surgiu por volta do século VII a.C e foi a primeira religião monoteísta. Aliás, o nome da religião é o nome de seu fundador, Zoroastro, que conhecemos também como Zaratustra. Em Yazd é possível visitar duas Torres do Silêncio milenares, para onde eram levados os corpos para serem comidos pelos animais, um ritual considerados pelos zoroastristas como purificador. As torres estão desativadas há várias décadas e os zoroastristas adotam novas fórmulas para evitar que o solo seja contaminado pelos corpos, conforme sua crença – em outros locais, como na Índia, os corpos ainda são dispostos a céu aberto.

Uma das torres usadas em rituais funerários