Nossos olhares distantes ao decolarmos em Delhi revelavam certo alívio. Os trinta dias pela Índia foram muito interessantes, mas difíceis e cansativos. O voo para o Nepal era a resposta para a necessidade de um pouco de ar puro e silêncio. Não na forma da capital Catmandu, caótica e barulhenta, mas das montanhas. O intenso tráfego aéreo nos faria voar em círculos por 1h até a permissão para pouso, informou o piloto sem saber que para nós o contratempo vinha a calhar. O céu azul nos apresentava ao nosso destino de forma majestosa: bem-vindos ao Himalaia!


Uma breve história de montanhas

A curiosidade sobre o conjunto de montanhas que abriga oito picos acima de 8 mil metros é de longa data. No séc. XIX, o governo britânico na Índia colonial iniciou o Grande Levantamento Trigonométrico, que mapearia o território indiano e a cadeia do Himalaia. O projeto esteve ativo durante boa parte do século e os trabalhos nas montanhas nepalesas tiveram início sob o comando do coronel George Everest. O governo do Nepal temia uma invasão britânica e por isso as primeiras medições do “Teto do Mundo” foram feitas a mais de 150km de distância.

Até então, a maior montanha conhecida ficava na fronteira da Índia com o Nepal: era o Kanchenjunga, na faixa dos 8.5 mil metros de altura, e parecia impossível haver outra que a superasse. A observação era dificultada pelo clima, limpo suficiente apenas nos meses de outubro e novembro.

Durante as observações sob a coordenação de Andrew Waugh, sucessor de Everest, um pico em meio às nuvens, por trás dos gigantes Nuptse e Lhotse, chamou a atenção. As medições seguiram com dificuldade: era preciso desconsiderar efeitos da difração da luz (igual a quando você olha uma colher dentro de um copo d’água) e a curvatura da Terra. Mas em 1856 foi declarado mundialmente que o pico XV, como o chamavam, era o ponto mais alto do planeta com 29.002 pés (8840 metros). Sagarmatha para os nepaleses ou Chomolungma para os tibetanos (Sagrada mãe), o monte acabou como único no Himalaia com um nome ocidental: Everest (apesar do próprio coronel reprovar a iniciativa).

 

O Nuptse e o Lhotse estão sempre por lá. O Everest é a montanha tímida atrás da névoa.

 

Montanhistas começaram a estudar se era possível atingir o pico do Everest e montaram expedições pela face norte, no Tibet, em 1921 e 1922. Estudada a rota para o topo, em 1924, a expedição britânica com George Mallory e Andrew Irvine acabou se tornando uma das maiores lendas e mistérios das montanhas: ambos não retornaram e a dúvida sobre terem atingido o topo dura até hoje. O corpo de Mallory foi encontrado em 1999, perto do pico, mas o de Irvine permanece desaparecido.

George Mallory e Andrew Irvine nos preparativos para a subida

 

O fato é que o monte Everest foi devidamente conquistado apenas 29 anos depois, em 1953, pelo neozelandês Edmund Hillary e um sherpa nepalês quando o governo local autorizou expedições a partir de seu território. Tenzing Norgay havia chegado muito perto com uma expedição suíça no ano anterior e seu conhecimento da montanha auxiliou a dupla a subir e, principalmente, descer com sucesso.

Edmund Hillary e Tenzing Norgay no topo do Everest

 

Nosso roteiro

Nosso objetivo é refazer a primeira parte do trajeto das expedições de 1952 e 53, entrando pelo Parque Nacional Sagarmatha, e alcançar o acampamento usado como base para as expedições ao topo. Está a 5350m snm (sobre o nível do mar) e é o ponto de onde começam a escalada pelo glaciar. De lá em diante é necessária uma permissão especial do governo nepalês (que custa US$11 mil!) para quem pretende ir até o pico.

Um voo de Catmandu (1400m) a Lukla (2800m), considerado o aeroporto mais perigoso do mundo, inicia nossa expedição. Dali subiremos lentamente, fazendo paradas em vilarejos ao longo do caminho para descanso e aclimatação. O roteiro de 14 dias nos levará por trilhas que só podem ser precorridas à pé até o acampamento base e depois ao cume do Kala Pattar (5550m), de onde é possível ter uma excelente visão da face oeste do monte Everest. O retorno será feito por um caminho um pouco diferente, pelo outro lado do vale de Khumbu.

Dia 1 – Catmandu (1400m) > Lukla (2800m) e trekking até Phakding (2600m)
Dia 2 – Phakding (2600m) a Namche Bazaar (3440m)
Dia 3 – Aclimatação – Namche (3440m) > Syangboche (3760m) > Namche (3440m)
Dia 4 – Namche (3440m) a Tengboche (3867m)
Dia 5 – Tengboche (3867m) a Dingboche (4350m)
Dia 6 – Aclimatação em Dingboche (subida a 4900 e retorno)
Dia 7 – Dingboche (4350m) a Lobuche (4930m)
Dia 8 – Lobuche (4930m) > Gorak Shep (5160m) > Everest Base Camp (5350m) > Gorak Shep (5160m)
Dia 9 – Gorak Shep (5160m) > Kala Pattar (5550m) > Gorak Shep (5160m) > Pheriche (4240m)
Dia 10 – Pheriche (4240m) a Khumjung (3800m)
Dia 11 – Khumjung (3800m) a Thame (3480m)
Dia 12 – Thame (3480m) a Phakding (2600m)
Dia 13 – Phakding (2600m) a Lukla (2800m)
Dia 14 – Lukla (2800m) > Catmandu (1400m)

Os vilarejos, suas altitudes e os caminhos do parque nacional Sagarmatha

 

O caminho de Lukla ao Everest

 

Diário de Bordo – Os preparativos

Dois dias antes da nossa chegada um voo da Turkish Airlines, proveniente de Istambul, havia descido de forma abrupta em meio à névoa, o que destruiu seu trem de pouso frontal. Não haviam conseguido retirá-lo completamente da pista até então, dificultando todas operações do aeroporto de Catmandu. Já havia ouvido dizer que voar no Nepal não era das tarefas mais fáceis, principalmente no trajeto entre Catmandu e Lukla, onde iniciaríamos nossa jornada ao acampamento base do Everest. Este último aparece em inúmeras listas como o aeroporto mais perigoso do mundo, por sua pista muito curta e inclinada, apontando diretamente a um precipício.

As bagagens do nosso voo ficaram “desaparecidas” por 2h e, depois da negociação de taxi em “fluente” nepali, cruzamos a cidade – às escuras, como de praxe na capital sem abastecimento de energia – até Thamel, o famoso bairro backpacker, onde ficam a maioria dos hostels, restaurantes e lojas de equipamento de trekking/escalada. Precisávamos ainda encontrar dois amigos, a dupla Yan e Diuvânio do blog Vagadores, que provavelmente se uniriam a nós no trekking, e fechar os detalhes na agência que nos ajudaria a chegar até lá com segurança – uma recomendação de mais amigos, Pablo e Karina do blog 500 dias pelo mundo.

Diuvânio e Yan, apareceram em nosso vagão de trem quando estávamos cruzando a Rússia pela ferrovia transmongoliana. Viajamos juntos pela Mongólia e mantivemos contato desde então, quase cruzando caminhos até que a ideia do Nepal e do trekking nos uniram novamente. O próximo dia passou rápido: colocamos as histórias de viagem em dia sobre bandejas do típico Dal Baht nepalês (arroz, lentilha, salada, carne…poderia muito bem ser comida brasileira!) e discutimos o que precisaríamos acertar para que a expedição ao Himalaia tomasse forma.

A manhã seguinte foi dedicada à conversar com Kumar, da agência Asahi, com quem havia trocado emails por um mês, e fechar os últimos detalhes. Seríamos quatro propensos montanhistas, um guia e dois carregadores, os chamados porters, que fazem o transporte de carga pesada montanha acima. Nesse caso, duas mochilas cargueiras cada, pesando no máximo 20kg no total. Tiramos dúvidas sobre o clima, equipamento, formato da caminhada e, principalmente, sobre o plano de fuga. O trajeto nos levaria pelos vilarejos do vale Khumbu por 14 dias sem acesso rodoviário e chegaríamos até a faixa denominada de extrema altitude, acima de 5500m, que demanda grande atenção a sinais do chamado mal da altitude, onde a falta de oxigenação apropriada pode causar diversos danos ao corpo. Caso alguém não suportasse por estafa, poderia permanecer em um dos lodges do caminho, aguardando pelos outros, ou em casos extremos seria necessário um resgate com helicóptero.

Confiantes de que eram riscos minimizados, gastamos dois dias nos preparando mentalmente e comprando equipamento adequado. Casacos impermeáveis, bastões de caminhada, óculos para neve… Em Catmandu é possível achar três tipos de produtos: o bom e caro, geralmente importado da Austrália; o de qualidade média e mais barato, proveniente da China; e a versão low cost, produzida no próprio Nepal, ou mais precisamente, no fundo das lojinhas. Hábeis costureiros inserem bordados e estampas da famosa marca North Face em todos os itens e qualquer produto tem a etiqueta da camada Gore Tex que serve para impermeabilização.

O dia seguinte começa às 5h com o transporte ao aeroporto e a noite é dedicada a decidir o que levar, arrumar as mochilas e comunicar amigos e parentes sobre a jornada. Entre animação e preocupação, nos desejaram sorte. E nós mal dormimos, ansiosos pelo início da expedição.

O Dornier 228 se prepara para o trajeto Lukla Kathmandu