Em qualquer ponto de Isfahan é possível comprar guias de viagem e cartões postais totalmente inválidos. Vazios de presente. Comprovamos: não é por pouco que a cidade é conhecida como “a pérola” do Irã ou “metade do mundo” – um poeta francês no século XVI garantiu que viu a metade da beleza do planeta por lá. Trata-se, de fato, de uma joia arquitetônica feita de uma das praças mais lindas e vivas que já visitamos, ruas arborizadas, mesquitas esplendorosas, o bazar recheado de peças refinadas do largo repertório de artes desenvolvidas pelos persas – das pinturas aos tapetes. Mas o cotidiano por aqui evaporou: há anos, o Rio Zaindeh, que irrigava as pontes e a vida na cidade, motivo de algumas das mais bonitas fotos de cartões postais, fonte de orgulho para os cidadãos, morreu. O dia-a-dia ainda gira em suas margens, apesar dele não estar lá. Os pedalinhos em formato de cisne propiciam hoje apenas cenas insólitas. As pontes de arcos não tem mais razão de ser, todos passam a pés secos. Ver os antigos postais torna a imagem mais dolorosa: Isfahan testemunha, no presente, o futuro de um mundo que pouco se importa com questões ambientais.

Meninas correm no leito seco do rio

As dores do racionamento que assolam o Brasil são lugar comum em várias áreas do Irã. O Lago Urmia, próximo à fronteira com a Turquia, também secou por mau manejo. Era salino e por isso não tinha importante papel na agricultura e no abastecimento, como é o caso do Zaindeh na região de Isfahan. Passamos pelo lago no ônibus que pegamos para chegar a Tabriz. Vimos o enorme deserto de sal, ainda com alguns navios encalhados sem uma única gota de água em que pudessem navegar. Outro lago, este próximo da fronteira com o Afeganistão, já secou, recobrou algo em torno dos 10% da capacidade, mas teme-se que logo desaparecerá definitivamente. O rio Zaindeh, a vida que corria em Isfahan, sumiu há mais de dez anos. Ele eventualmente volta a correr por poucos dias, mas todos sabem que secará novamente. O Irã é um país árido, tornando a seca ainda mais em desastre – a água, por lá, já é considerada questão de segurança nacional. Diminuição da chuva, desperdício e mau planejamento são as causas do problema: a gradação entre estes três e a construção de canais de irrigação para outras áreas por interesses políticos concorrem para a explicação total do caso. Um amigo de Isfahan lamentou diante da lembrança do ponto de encontro, dos cafés lotados de amigos durante o entardecer junto à ponte, e dos pássaros que mudaram a rota de migração. Ele contou que alguns especialistas acreditam que a região não será habitável em 50 anos! Uma grande tragédia por falta d’água! Seria o lamento final diante da vida de um milhão de habitantes e dos tesouros que os iranianos guardam para a humanidade há séculos na região.

Teto da mesquita do Imã: no Irã, olhar pra cima é fundamental

Mas a “Pérola” da Pérsia tem também sua série de cartões postais ainda verdadeiros. As grandes obras da cidade são de autoria do Xá Abbas I, conhecido como Grande Abbas, membro da dinastia Safavid, uma das que mais maravilhas legou ao Irã. Assim como as pontes de arcos, ainda imponentes apesar da falta do rio, são famosos o palácio Ali Qapu e a mesquita Imã (antes da Revolução, mesquita do Xá), que concorre em beleza com a mesquita Sheikh Lotfollah, construída para uso privado da corte. A última, além da delicadeza dos entalhes, azulejos e mosaicos que cobrem do teto ao chão, é interessante por suas peculiaridades: não tem minaretes ou pátio, já que a finalidade era o uso privado. O bazar de Isfahan tem todo tipo de mercadoria à venda e atende às diversas necessidades dos cidadãos comuns como é praxe, mas lá as lojas parecem especiais no entorno da praça, exibindo em cada vitrine algumas das peças mais refinadas do largo repertório de artes desenvolvidas pelos persas. Miniaturas pintadas em osso, caixas de madeira, arte em prata, ouro, pinturas em diferentes tons de azul e uma infinidade de tapetes não terão dificuldade em capturar o olhar dos visitantes. Definitivamente, o bazar de Isfahan é capaz de gerar calafrios consumistas em qualquer um.

As carruagens aceleram na praça

A de se dizer, contudo, que foi a praça principal, localizada entre bazar, palácio e mesquitas, que arrebatou nosso coração. Naqsh-e Jahan é uma das maiores praças do mundo, com 89 mil m². E podemos dizer: está também entre as mais bonitas que já vimos, e entre as mais utilizadas pelos cidadãos. Os iranianos são profissionais quando o tema é piquenique e aqui não poderia ser diferente: famílias inteiras trazem potes e panelas para o gramado em torno dos chafarizes – ainda irrigados. As crianças brincam por ali e todos se divertem no fim da tarde, quando a temperatura fica mais amena. Carruagens circulam a área com turistas e locais. Sem o rio a correr, parece que hoje é a praça que garante a vida da cidade.

 

*Alguns dos artigos que li sobre a seca:

Drought Dries Up a City’s River, and Sears Its Soul (05/03/2001, acesso em 09/2014 – em inglês)

Drought, mismanagement and overuse leave Iran staring at a water crisis (12/05/2014, acesso em 09/2014 – em inglês)

No leste e no oeste, a espera pela água (acesso em 09/2014)


 

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