Sujeira, congestionamentos, barulho que beira o insuportável. Características que se aplicam a megacidades do mundo inteiro. Com Teerã não é diferente. Então, o que há de especial na capital do Irã? Minha primeira hipótese diz respeito a nós mesmos e àqueles preconceitos e desinformações que persistem, por mais que a gente leia sobre certo lugar. No Irã as mulheres só usariam preto e não teriam sonhos e vida pública; o país seria perigoso (como se a guerra não tivesse acabado há décadas) e o trânsito vai te sufocar – inclusive porque aqui as partículas da poluição são realmente visíveis flutuando, bem diante do seu nariz. Enquanto era apenas imaginação, Teerã vinha a ser certa síntese caótica do Irã, uma soma dos problemas das megacidades com aqueles que supomos no país. Chegando lá, descobrimos que é uma cidade que não existe para nos provar do contrário. Está para nos mostrar que todas aquelas informações eram demasiado incompletas.

Imāmzādeh Sāleh, mesquita no Norte de Teerã

Chegamos a partir de Tabriz, no noroeste. Apesar de não ser pequena (1,8 milhões de habitantes na área metropolitana), Tabriz soa como cidadezinha do lado da gigante Teerã, com seus 15 milhões de moradores. É imediato o choque em termos de caos. Nossa ideia ao desembarcar era ver alguns pontos turísticos e, prioritariamente, usar a capital para resolver questões burocráticas antes de mergulharmos no nosso roteiro, rumando às cidades milenares ao centro do Irã – a capital ganhou importância apenas no século XVIII, ou seja, “ontem” se levarmos em conta a antiguidade e persistência do povo da região. No final, não vimos a torre Azadi, construída em comemoração aos 2,5 mil anos do império persa e símbolo da cidade; não escalamos (nem esquiamos, era outono) no Alborz, cadeia de montanhas que limita a capital ao norte; e tampouco entramos no Golestan, antigo palácio do Xá. Investimos o tempo para ir circulando como os teeranis de Norte a Sul da cidade, fomos conversando, tomando chá, nos perdendo no bazar ou comendo mais um kebab. Quando vimos, era forte também a vontade de ficar mais por ali.

Circular por Teerã

Das melhores e piores coisas da nossa passagem por Teerã está a necessidade de circular. Quando o assunto é trânsito, Teerã é o clássico das grandes cidades de países pobres. E a primeira singularidade descobrimos na primeira hora: “Ué, mas a estação que está no mapa… ela não existe?!”, apontávamos para a parede diante de um teerani boa alma que nos socorria no metrô: “Existe. No mapa”. Sim, ele queria dizer que o mapa é uma realidade diferente da realidade real e com essa louca filosofia de botequim (em um país onde álcool é expressa e totalmente proibido) descobrimos que tínhamos compromissos em áreas da cidade que não são servidas pelo metrô. Como sempre, saímos determinados a fugir dos taxis. Mas logo aprendemos que são eles, em formato coletivo, que salvam a cidade e o país diante das fragilidades do sistema de transporte público.

Na verdade, aqui, apesar de haver taxis oficiais, qualquer carro é um taxi potencial. Eles param na beira da calçada, quem vai naquela direção entra e segue viagem. A calculadora virou nossa melhor amiga, ainda mais depois de aprendermos que há um senso comum sobre o preço justo de um quilômetro percorrido. Era a ferramenta de comunicação para negociar tudo. No mais, nunca podiam faltar sorrisos e mímicas, afinal, a despeito das línguas diferentes, taxistas e passageiros geralmente puxavam papo – que podia se estender mais e mais, de acordo com o tamanho do congestionamento na arborizada rua Valiasr, famosa por ter 18km, dividindo a cidade em leste e oeste.

O Grande Bazar e a onipresença!

Nosso cotidiano virou uma enxurrada de carros brancos – a maioria da frota iraniana é branca – e logo não tínhamos medo de entrar em qualquer carro. Aliás, nos sentíamos bem seguros em Teerã e percebemos que talvez fôssemos os únicos que, por força do hábito vigilante, caminham olhando para trás. O que temíamos mais era ter de atravessar a rua: especialmente na área central é uma aventura cruzar entre tantas motos e carros. Parece que o trânsito brota do asfalto quente! Mas sabíamos não ser necessária tanta sorte para surgir alguém que nos ajudaria atravessar.

As teeranis

De tudo que mais gostava de ver na cidade, as mulheres estão pelo topo da lista. A grande cidade soava ao mesmo tempo uma síntese da vida no Irã e o lugar onde as coisas mudam primeiro. Olhar as mulheres na rua, a parte da população iraniana sobre quem carregamos mais estereótipos, é uma grande lição. Sim, elas estão em todos os lugares dirigindo o próprio carro, fumando, falando ao celular, trabalhando, fazendo o que a maioria de “nós” faz – no limite de uma série de restrições às mulheres, como cantar em público, para dar um exemplo apenas. Mas a diferença mais palpável, claro, são os cabelos tampados e as roupas longas, imposição estatal para todas, inclusive estrangeiras, sempre que em público.

As teeranis são um índice das diferenças culturais – e até é possível dizer de aderência à religião – em cada parte da megacidade. O Norte é uma área conhecida como mais aberta, para onde tradicionalmente vão intelectuais e estrangeiros. Aqui, a maioria delas exibia lenços que podiam tampar apenas 40% do cabelo e chegavam a ser extravagantes em tanta cor, usavam muitas camadas de maquiagem, saltos altos e grandes óculos de sol – sem falar nos cabelos, que apesar de não estarem totalmente à mostra, costumam ser organizados com enchimentos sob o véu para parecerem tão grandes e volumosos quanto possível. Minha preocupação em tampar a cabeça meticulosamente era risível diante delas, que questionadas pela “patrulha conservadora” podem sugerir em farsi que o questionador/a cuide de sua vida. E isso não é pouca rebeldia. Por lá, várias vitrines exibiam minissaias, e passei algum tempo imaginando a vida dupla de quem as compra e usa. Em todo o país, mas especialmente no Norte da capital, as cirurgias plásticas de nariz aparecem em número espantoso, curativos estão em todas as esquinas. E por que elas querem parecer tão europeias com narizes pontudos? Talvez por motivos semelhantes aos que levam tantas brasileiras à cirurgia plástica, apenas as partes do corpo em evidência são diversas. Há muitas pressões no mundo. E modificar-se é também uma forma de expressão, tanto quanto rebelar-se via figurino.

Brasileiras e teeranis só no chá :)

O Centro, onde está o Grande Bazar, é bem mais tradicional e religioso, conforme podemos observar. Mas não apareça aqui buscando burcas, aquelas roupas conhecidas por deixar apenas os olhos de fora. Estas são comuns entre os árabes, enquanto as persas adotam o chador – um lenço que cobre da cabeça aos pés. Nesta região, as adeptas do chador são provavelmente maioria. É interessante reparar que, apesar do chador mais comum ser o preto, nem isso é tão estrito. Nas mesquitas e templos que visitei, locais em que todas devem usar chador, nunca me foi oferecido um chador preto. Eram sempre de florezinhas mimosas. Há muitas lojas que vendem apenas tecido para fazer chador. De longe é tudo igual, mas até os negros têm certas marcas d’água com diferentes tipos de desenhos em preto, e as mulheres são vaidosas nessa escolha – achava curioso vê-las comprando vários tipos: de longe, todos apenas pretos. De perto, a variedade. As sutis diferenças nos tecidos eram para mim marcas de identidade. E do quão difícil é para nós entender o que de longe parece igual. Ou simples.

200 "tons" de preto à venda no bazar

Conhecemos e convivemos com várias mulheres no Irã. A maioria destas não era religiosa e, logo que entravam em casa, retiravam o véu imediatamente. O lar, no Irã, é um lugar onde todas as restrições parecem poder ser quebradas – a menos que um vizinho denuncie uma mulher solteira na casa de um homem, ou uma garrafa de álcool, ou mesmo visitantes estrangeiros. Mas também conhecemos mulheres que respeitavam mais estritamente o uso do véu, e passavam o dia com a cabeça tampada até em casa, já que estavam na presença de homens que não são da família.

Meses depois da nossa saída do Irã uma das teeranis que conhecemos, possivelmente membro do grupo mais liberal entre elas, compartilhava o vídeo Power of a cliche (O poder de um clichê (2006), infelizmente a narração está em inglês) no Facebook (sim, Facebook também é proibido). A autora do vídeo, Haleh Anvari, não propõe queimar véus (como eu adoraria depois de um mês usando um!), mas nos dá uma boa lição sobre um símbolo com diferentes significados no Ocidente e no Oriente. Recentemente, a jornalista iraniana Masih Alinejad ganhou o Geneva Summit for Human Rights and Democracy, um prêmio de direitos humanos, por ter criado uma página no Facebook – My Stealthy Freedom (Minha liberdade escondida, em tradução livre) – em que convida iranianas a postarem fotos sem o véu. Mais de 700 mil pessoas curtiram a página em um ano. Ao jornal inglês The Guardian a jornalista (que sofre uma campanha difamatória em seu país e vive no exílio) afirmou que não se opõe ao hijab – a mãe dela usa, por exemplo. Sua intenção é garantir às mulheres sua liberdade de escolha. O que para nós soa apenas como opressão é, além disso, também tradição, fé, identidade e grande sorte de sentidos e memórias.

A próxima visita

Vazio e solidão, a individualidade do nosso tempo que se exacerba diante das multidões. Estas são características imateriais das grandes cidades e possivelmente também se aplicam a Teerã. Mas não nos atingiu e, assim, colocou a cidade em vantagem diante de tantas. Se éramos menos parados na rua para perguntas aleatórias se comparado a Tabriz, a solidariedade era genuína. Houve quem nos pegasse pelo braço para atravessar a rua, houve quem nos acompanhasse a um hotel sem que pedíssemos. Houve belas recepções, música, chás, kebabs. Os iranianos não deixam ninguém ir embora sem sentir saudades do país deles e Teerã é essa capital-síntese. Vinte dias depois da partida voltamos a Teerã para pegar o voo de saída. Então, entre as nossas novas famílias e amigos iranianos, os de Teerã são aqueles para quem já voltamos. Já fazia frio, o taxista criou caso com o preço combinado, o trânsito parecia impossível em pleno domingo. Mas os problemas ficam pequenos nesta grande cidade. Entendemos. Voltamos lá para sentir-nos como quem chega na própria casa.

* A seguir uma seleção de fotos dos nossos dias de Teerã e registros do nosso fim de semana em Masouleh, uma cidadezinha no Norte do país.

 

 

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