A curta noite foi permeada com ansiedade. Equipamento checado e rechecado mil vezes, mochilas arrumadas, passaportes. Partimos às 5h para o caótico terminal aéreo doméstico de Kathmandu e nos posicionamos na fila do que parecia a entrada dos fundos – ou uma organização secreta de viajantes dispostos a embarcar no minúsculo avião que nos levaria à Lukla e caminhar por 14 dias sem parar! Talvez isso nos qualificasse como indivíduos perigosamente loucos… então a separação do saguão principal era sábia.

O voo – Pousando ao lado do abismo

Avistamos os primeiros bimotores decolando leves, pareciam de brinquedo, e nosso relaxamento por estarmos ali, com tudo certo, quase nos fez perder a vez sem perceber que a última chamada era nosso voo disfarçado com o nome de uma empresa aérea parceira – pois é, não voamos com a Yeti Airlines, mas com a Tara…

Cockpit sem cortina, piloto e copiloto “de papo” , aeromoça sentada no fundo, e sorridente. Indicações de que a turbulência era perfeitamente normal e melhor mesmo era prestar atenção às montanhas que apareciam, assustadoramente perto, especialmente nas janelas do lado esquerdo do avião. As estradas de terra lá embaixo logo desaparecem e apenas trilhas podem ser vistas entre os vilarejos dispersos. O mundo onde as distâncias são medidas em quilômetros ficou para trás. A partir daqui os dias de caminhada são a nova régua.

Em 30 minutos montanhas altas por todos os lados, o único caminho claro é aquele pelo que viemos, mas o avião aponta para a esquerda e anuncia o descenso, revelando a minúscula pista na encosta. O conceito de descida para pouso não se aplica totalmente: o avião praticamente segue reto e, de repente, está em solo, e vai reduzindo a velocidade rapidamente ao tocar a pista inclinada pra evitar o muro logo à frente. Os novos motores serão nossas pernas.

Dia I: Lukla a Phakding

Namastê!, nos saúda um adolescente risonho acompanhado de um senhor, e apontam para as mochilas. Serão “nossos sherpas”, companheiros de viagem e carregadores. Nossas mochilas com 10kg cada são amarradas em pares e apenas apoiadas nas costas já que o peso parece levantado mesmo é pela faixa de suporte que as amarram a testa dos carregadores. É tudo muito rápido e eles logo dobram a esquina. Com o corpo leve e a altitude ainda moderada de 2800m damos o primeiro passo dos 14 dias por vir.

Contatos sherpas

Na saída do vilarejo os documentos de permissão emitidos pelos governo para estarmos naquela região são verificados e a simpatia nepalesa se mostra no rostinho queimado de uma menina que vem se sentar do nosso lado. O primeiro dia é leve, com a descida até Phakding, a 2600m, por um vale arborizado. Os pequenos vilarejos ao longo do trajeto ainda oferecem todo tipo de comida e conforto. Os carregadores com cestas nas costas e as mulas trazendo botijões de querosene e madeira não nos deixam esquecer como isso tudo chega até lá.

Dando a vez pras mulinhas de carga

Cruzamos o rio algumas vezes, sempre pelas fabulosas pontes com cabos de aço, suspensas a grandes alturas. As coloridas bandeiras de oração agitadas com o vento ao longo de todo corrimão anunciam o balanço que sentimos ao chegar no meio. Paro, olho para os pés e tentando focar o rio ao fundo, lá embaixo, sou logo alertado de que é melhor evitar: vertigem certa! Volto os olhos pra cima e vejo Bhimsen e Lívia correndo: “vem vem vem!!!”, ela grita! A disputa pelo estreito espaço é acirrada, principalmente com os comboios de mulas e bois que não parecem dispostos a esperar. Escapamos todos de ter que retornar e aguardar! Dizem que, na alta temporada, pode ser necessário até 30 minutos de espera pelo rebanho de animais para poder atravessar pelas pontes.

Hoje à tarde a ponte engarrafou

Chegamos a Phakding em 2h 45min, menos tempo do que a média, e somos logo alertados: “Descendo não importa, mas na subida, é pra ir devagar, bem devagar”. Aprenderíamos logo que não precisava nem pedir, o corpo não permitiria correr…

No lodge, duas camas, travesseiros e uma janela emoldurando as montanhas ao redor. Os sacos de dormir são imprescindíveis. Os banhos quentes a partir de U$4 (R$12!) são substituídos economicamente pelos gelados e inglórios lencinhos umedecidos.

O restaurante reúne ao redor do aquecedor o pessoal animado com a subida e aqueles que estão já no último dia, retornando, ao redor do aquecedor . Os guias comendo em um cantinho, com as mãos, nos pratos (ou bandejas!) de arroz e lentilhas. Pedimos o mesmo e nos divertimos tarde afora dando voltas pelo povoado, assistindo as criancinhas jogarem bola, tocarem os rebanhos ou jogando cartas. E vamos para a cama cedo que os dias começam sempre com o sol.

Dal Baht e o aquecedor - nossos amigos inseparáveis

 

Dia II – Phakding a Namche Bazar

No mapa o trajeto à Namche não parecia longo, mas as altitudes escritas ao lado dos nomes dos vilarejos pelo caminho anunciavam o problema. Chegaríamos a 3400m, mas até Monjo, a entrada oficial ao Parque Nacional Sagarmatha e que parecia 80% do trajeto estaríamos ainda a 2800m. O lindo caminho até ali, praticamente plano e margeando o rio, foi suave e agradável. A brisa fresca soprava e andávamos com a promessa de avistar o Everest pela primeira vez ao fundo do vale. Seria nossa apresentação ao estado constante do gigante: escondido! O pico mais alto do mundo é a face da timidez. O Nuptse (7800m+) e o Lhotse (8500m+) seriam nossos maiores companheiros da jornada. Estrategicamente posicionados à frente do Everest, deveriam permitir uma breve esgueirada sobre seus ombros, mas as nuvens completavam o serviço.

Disfarçando o cansaço pra uma foto pelo vale

Pouco à frente, duas pontes cruzam o vale. A mais baixa, o caminho antigo, leva a uma subida dramaticamente íngreme pela outra margem. A segunda, muito acima, nos faz subir em zigzag por horas, usando estrategicamente as filas de bois como desculpa para encostar e tentar respirar. Foram 3h para subir os últimos 600m verticais e, finalmente, pisar no que é considerada a capital não-oficial da região de Khumbu: Namche Bazar. O vilarejo em formato côncavo, tomando boa parte da encosta da montanha. Casas com molduras coloridas, campinho de futebol, estacionamento de yaks – os bovinos mais adaptados à altitude, grandes e peludos – e muitas lojinhas de equipamentos para trekking. A última chance de comprar algo que tenha faltado é agora . A neve acumulada nas vielas anunciava que a partir dali o cenário mudaria consideravelmente.

Namche Bazar do alto
Vivos em Namche...ou quase!

 

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