O dia em Namche é de aclimatação. O ar fica cada vez mais rarefeito à medida que se sobe e é preciso dar tempo ao corpo para adaptação: o ritmo da respiração se ajusta, assim como as células que carregam oxigênio no sangue. Para isso, ao invés de ficarmos parados, subimos até 3800m, a altura do vilarejo para onde vamos em seguida, e retornamos para dormir em 3400m. Enquanto calculamos cada passo, os sherpas passam voando. Dizem serem geneticamente adaptados à altitude. E com tanta vitalidade, quem somos nós para duvidar.

É no alto do morro que fica Syangboche. Uma antiga pista de aeroporto, a mais alta da região, e um museu com algumas fotos históricas das conquistas no Himalaia, além de outras com a flora e a fauna regionais. Subir lentamente garante melhor adaptação e por isso voar até aqui não é recomendado. Vemos passar helicópteros, mas eles são para quem pretende evitar o esforço da caminhada ou para resgates, o que queremos com toda força evitar.

Uma estátua de Tenzing Norgay, o primeiro sherpa a chegar ao topo do Everest, foi posicionada estrategicamente à frente das montanhas no fundo do vale. Ele é motivo de orgulho nacional. As fotos do maior pico do mundo estão por todas paredes do pequeno museu. Curiosamente, a altura do Everest informada lá não bate com o que havíamos lido. É 40m menor e a diferença depreendemos de outro quadro informativo: as placas tectônicas indiana e asiática continuam se sobrepondo e isso faz com que a cada ano o cume esteja 10cm mais alto. De certa forma, a cada nova subida com sucesso é possível considerar que um novo recorde foi batido. Prato cheio para propaganda das empresas que organizam subidas comerciais ao topo!

Tenzing Norgay chegou muito perto 2x e em 52 chegou ao topo

Nossos olhares desconfiados enxergam algumas pessoas subindo uma trilha íngreme na montanha à frente e nosso guia confirma que será ser nosso destino também. Seguimos adiante, sentindo a respiração acelerar e o coração forte com o menor dos passos. O sol começa a castigar e os casacos vão sendo pendurados na mochila, mas a gelada brisa nos recorda que não é lugar para dar chance ao azar e pegar um resfriado.

Operários e carregadores descem a toda velocidade levando material de construção. Desviamos e continuamos a marcha. À distância, vemos um hotel isolado no meio da neve, no topo do morro. Uma trilha improvável serpenteia pela encosta branca a partir de outro vilarejo, um caminho utilizado apenas pelos clientes mais ousados. Os hóspedes comuns vão mesmo é de helicóptero – se é que isso pode ser considerado “comum”…

Os trabalhadores em Syangboche e o hotel lá em cima, na direita

De um ponto de vista tiramos algumas fotos e damos meia-volta, baixando pelo mesmo caminho rumo ao conforto da “casa de chá”, nome dado aos hotéis-restaurantes da região. Sopa de alho e chá de gergelim com mel são a pedida para manter o corpo quente. O fim da tarde traz frio e neve. Esperávamos neve apenas próximo ao Base Camp, porém a que caía e a que já estava espalhada pelo chão diziam que a meteorologia não andava muito certeira.

Everest, finalmente!

Acordo, olho para fora e não sou capaz de ver a montanha que esteve a todo tempo na paisagem. A neve cai forte e o dono do lodge fecha as cortinas como quem quer prevenir desânimos. Nosso guia segue impassível. Preocupado, pergunto se nossos equipamentos são suficientes e o motivo de seu silêncio. A resposta, tranquila. Outro dia normal na montanha.

Nos dias de preparação em Kathmandu cada um havia comprado o que julgava essencial. A dois de nós faltavam calças impermeáveis e todos estavam com óculos para neve de qualidade duvidosa. Dois já haviam rachado e tiveram de ser consertados com cola. As lojas em Kathmandu vendem três tipos de produto: importado (quase sempre australiano), chinês e nepalês, nessa ordem de qualidade. A versão nepali das roupas vem em várias cores, tamanhos e modelos, mas sempre com o símbolo da North Face bordado e a etiqueta do tecido impermeabilizador Gore Tex. Em uma loja era possível visitar a “fábrica”: uma salinha de vidro com os costureiros em meio a montanhas de pano. Algumas das nossas roupas, claro, vieram de lá. Os óculos, ninguém sabe…

Dois pedaços de óculos, colados como se fossem um

Partimos morro acima e depois por um caminho plano por 1h até uma placa divisória das trilhas. Por um dos lados: Gokyo, uma passagem pelas montanhas que desemboca na parte final da trilha tradicional para o Base Camp. Outra seta aponta Khumjung, vilarejo acima de Namche e Syangboche que visitaremos no retorno. Por último, Tengboche, nosso destino. Aparentemente, é descendo.

Seguimos montanha abaixo nos perguntando por que ainda não fizeram uma ponte por ali. É necessário alcançar o rio e subir pela encosta inteira da montanha seguinte. Logo vemos dois caminhos: por um, sobe uma fila interminável de yakes e o tocador nos indica com a cabeça para irmos pelo outro. Bhinsen, o guia, anuncia: o caminho livre é o novo, íngrime e pesado. Ótimo para a descida, muito veloz, mas para subir é má escolha. Entramos na fila depois dos animais e por mais 3h escalamos até Tengboche.

Neve, gelo, água, terra, lama...

O vilarejo aparece somente após o último degrau e sua disposição – num campo aberto e inclinado, com o vale à frente – é impressionante. Um monastério construído ali no início do séc. XX foi destruído por um terremoto e depois por um incêndio, mas apesar das catástrofes, foi reconstruído e o que reina no lugar é a paz. Compreensível que os monges achem ser um lugar adequado pra meditação. Mais à frente, uma padaria deserta termina com nossos sonhos de um café com bolo, mas na saída notamos uma estranha movimentação que apagaria qualquer decepção: Nuptse e Lhotse, os paredões a frente do Everest continuavam lá (claro!), mas o vento forte empurrava as altas nuvens, mostrando uma face negra que não havíamos visto antes entre os dois.

O Everest estava mesmo “ali”, enorme, acima de todos, e apesar de longe, pareceu tão próximo como se fosse possível subi-lo simplesmente seguindo em frente. As nuvens e a luz do sol deram lugar às estrelas e agora era possível ver nosso caminho pelo vale. Contornaríamos o Nuptse pelo oeste até alcançar a base por trás. A janela do quarto ficava virada para o lado perfeito. Apaguei as luzes, mas não foi possível dormir.

Finalmente o Everest!
Nuptse, Everest e Lhotse sob as estrelas

Na esquina dos glaciares

Os picos ao oeste começam a ser iluminados pelo sol. O plano era uma suave descida até o rio, a travessia para a margem oposta e a moderada ascensão até Dingboche, a 4400m de altura. A promessa do dia leve, emoldurado no lindo céu azul, foi derrubada em 10min. Literalmente.

A neve e o gelo no caminho arborizado do início eram uma armadilha da qual poucos escaparam ilesos. Os carregadores, sempre eles, passavam a toda velocidade. Nós, patinávamos, escorregamos, caímos, e nos amaldiçoamos por não ter um crampão de gelo, aquelas travas de alumínio que podem ser amarradas na bota para andar no gelo facilmente.

Fui uma das primeiras vítimas com uma, duas, três patinadas até pousar com as mãos no chão, câmera pendurada, ileso! Recuperado do susto, sair do lugar parecia impossível. Desliza, patina e enfim um pouco de neve fofa no canto da trilha para pousar os pés com confiança. O problema era molhar a calça e principalmente o único sapato. Congelamento de dedos não é fato tão incomum… Alguns minutos e várias patinadas depois era a vez da Lívia. Não houve deslize ou anúncio: queda veloz sentada no gelo. Segundos depois, mal recuperamos do susto, outro grito: era uma inglesa que nos acompanhando com seu guia tombou e dessa vez foi mais sério. Uma torção no braço, tipóia e um bastão de caminhada a menos para auxiliar.

A trilha sobre o gelo, o rio e o alívio da terra na outra margem

A visão da ponte que se aproximava foi um alívio. A água cristalina e as bandeirolas de oração ficaram pra trás e a subida até Sohmare foi tranquila, em terra batida. O vilarejo onde paramos para o almoço tinha muitas crianças brincando com cachorrinhos e um ambiente agradável, apesar do vento cortante! Estávamos passando da marca dos 4000m. O restante do caminho era razoavelmente plano e o Ama Dablam, uma estreita montanha que víamos desde Tengboche, começou a parecer cada vez mais alta e larga. Marcava a bifurcação do vale. À direita, glaciares e o pequeno vilarejo de Dingboche, nosso pernoite, a 4400m de altura. À esquerda, o caminho que tomaremos após um dia de aclimatação, contornando o Nuptse para Lobuche e o Base Camp.

Observando atentamente, vemos na encosta oposta dois carregadores, caminhando lentamente. Como formigas, com sacos enormes nas costas, cortavam a íngreme encosta de neve seguindo algumas pegadas. Nossa única tranquilidade era a de não haver marcas de alguma queda prévia, pois parecia um equilíbrio impossível ao redor das pedras e com tanto peso apoiado na testa. O acampamento base do Ama Dablam era naquele caminho e supomos que estavam levando suprimentos e preparando as barracas para alguma expedição. O mês de abril é muito utilizado pelas montanhas do Himalaia como o início das ascensões, sendo os melhores dias para atingir o cume, geralmente, em maio.

Os sherpas caminham ao Ama Dablam

Atingimos Dingboche, um simpático vilarejo em dia de primavera, mas já notávamos a total falta de vegetação. A altitude e o frio permitiam apenas a plantação de batatas e todo o restante precisava subir nas costas dos yakes ou dos carregadores. Tomamos um chá e resolvemos endereçar necessidades acumuladas nos dias anteriores. A mais importante, o desejo de um banho quente. Faltava muito pouco e até o momento apenas leves dores de cabeça, nos pés, e cansaço natural de muita caminhada. O dia seguinte é de aclimatação novamente.

O último dia de aclimatação

Lição aprendida: a roupa de vestir na manhã do dia seguinte ou já está no corpo enquanto dormimos, ou no mínimo dentro do saco de dormir. Caso contrário é quase como trajar um bloco de gelo. Levanto da cama e dou uma topada em algo no chão. Um pequeno bloco congelado, talvez proveniente de uma goteira do telhado. A vedação do quarto nunca pareceu muito boa, mas não imaginávamos o quão ruim. A descarga no banheiro, em forma de balde com água, era impossível. Gelo.

Sendo assim, saímos do quarto com tudo. Segunda pele, camisa dry fit, fleece, casaco de pena de ganso, gorros, calça térmica, meias duplas. O restaurante ainda estava aquecido pela queima de esterco de yake da noite anterior, resolvemos sair um pouco mais tarde para que as condições ficassem melhores com o sol.

 

O longo caminho por onde viemos

A aclimatação era uma subida íngreme pela encosta norte do vilarejo, até onde aguentássemos. Lobuche, para onde iríamos no dia seguinte, fica a 4900m, portanto o máximo que nos aproximássemos disso, melhor. Subida sofrida, suada. Falta de ar, diminuímos a velocidade e continuamos. O altímetro indicava 4600m na parada, mas visualmente parecia impossível: “4800m no mínimo” – disse Bhinsen. Quem sou eu para duvidar dos olhos de alguém que vai lá há 20 anos? Era um conforto psicológico para tirarmos umas fotos e resolvermos descer sem peso na consciência.

Na volta ao vilarejo, um pequeno passeio para vermos a vida por ali. Quase toda casa é uma guesthouse. Algumas lojinhas vendendo biscoitos, água engarrafada. Placas pequenas à frente indicando o que são e um grande letreiro escrito no telhado. Adaptado realmente a um mundo em que todos veem as coisas do alto. Ao fim uma casa em construção. As pedras vinham carregadas, é claro, nas costas das pessoas. A roda não parece ter sido inventada ainda, uma imersão ao passado antagonizada pela oferta de Wi-Fi logo a frente. Em segundos os pais e amigos de todos estão do nosso lado, enquanto avisamos em poucas mensagens que estamos todos vivos e bem, uma simplificação honesta de todo trajeto até ali e uma “ligeira” subtração da tensão sobre o que viria nos dias seguintes.

Aclimatação pesada e neve se aproximando

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