Desembarcamos na antiga capital de Mianmar em uma noite quente. A velha Burma ainda não encerrou um longo ciclo de quase cinco décadas de ditadura e está entre os países mais pobres da Ásia, um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano do mundo. Pois demos de cara com um aeroporto limpo, moderno, luminoso. O atendimento rápido, simpático, sem complicação. As ruas, na verdade, são largas avenidas arborizadas. E faltam as motocicletas que são a cara de todos os países vizinhos. Afinal, onde foi que viemos parar?!

Yangon dá um nó na cabeça da gente! Mas minutos depois de chegar entendemos que a maquiagem era vagabunda: descemos foi em Mianmar mesmo. Yangon parece ter bolhas geográficas de riqueza e “desenvolvimento”, o aeroporto é parte do investimento do governo em busca de turistas, as motos foram proibidas (oi?!) na cidade para evitar tentativas de homicídio contra oficiais do governo (rs) e é aqui, sim, que queríamos chegar. Aliás, chegar a Mianmar por Yangon é típico por si – a abertura das fronteiras por terra é lenta.

Vendedora de ameixas com o rosto coberto por tanaka

Decadente e ainda original: eis a nossa verdade para Yangon (que alguns chamam Rangum). Trata-se da cidade economicamente mais importante do país, com 5 milhões de habitantes. Do aeroporto ao Centro vê-se um caminho que não mostra o que a cidade é por dentro. O caminho do taxi revelou a transformação: passamos por um grande hotel cinco estrelas em bairro chique, com “cafés” com decoração à europeia, até parar em Chinatown, região onde nos hospedamos.

Este bairro é quase completamente formado de prédios de cinco ou seis andares, alinhados lado a lado. Das varandas e janelas pendem cordas com grampos na ponta, por onde as correspondências e o que mais interessar pode ser içado com maior conveniência do que descer escadas. É só mais uma das peculiaridades de um país onde roupas e cosméticos tradicionais ainda são a regra, mesmo na capital, em detrimento do estilo ocidental de vestir.

Estamos próximos à região portuária. Os gigantescos prédios da época da Companhia das Índias, quando Burma era parte da Índia administrada pelo colonialismo inglês (1824-1948), sobrevivem em diferentes estágios de decomposição. Apesar do abandono, mantêm-se imponentes e elegantes. Andando por aqui parece mais o país que viemos visitar: riqueza e pobreza o compõe, mas a pobreza é predominante. E inda mais pelas periferias, assim como em todo o mundo.

Vendedora no trem circular

O jeito mais fácil de vê-las é num passeio pouco convencional. Com alguns poucos kyats – 1,50 real – compramos um bilhete para o trem que circunda a cidade. Da janela, naquele mesmo calor descrito por George Orwell, que viveu na Burma dominada pelos ingleses, vemos as pequenas vilas, cada vez mais rurais, e as hortas espalhando-se a perder de vista. Mergulhados no rio – indevidamente misturado com esgoto – homens tratam de colher um tipo de espinafre da água de caules fibrosos que está em todos os pratos, inclusive nos nossos. Entram e saem do trem passageiros de todas as idades: usam uniformes da escola, reamarram suas saias – os longys usados por ambos os sexos. Sorriem com dentes cor de sangue, pois mascam papelotes feitos de folhas e noz moscada. O betel é um vício nacional que tinge de vermelho todo ponto do chão em que possam cuspir. Enquanto uns mascam, outras vendem a comida que carregam em bacias sobre a cabeça. São quilos de noodles ou potes de manga verde e pimenta: fascinante que não caiam em um trem que pula tanto!

Descemos com mais um par de viajantes em um mercado local. Certamente é raro que estrangeiros circulem por aqui. Somos observados com sorrisos e curiosidade. Pedem fotos, nosso companheiro ganha um mamão enorme. Estamos onde pensamos que deveríamos estar.

Mais uma prova de que estamos mesmo em Mianmar: os monges parecem multiplicados em alguma fábrica – a mesma fábrica que serve a todo o sudeste asiático e, sabe-se, chama-se pobreza. De manhã são filas e mais filas na missão de esmolar. Esmolar como monge talvez seja preferível a passar fome em casa. Ser monge não precisa ser profissão, pode ser estado temporário libertador de terríveis karmas. E, com sorte, também de futuras encarnações. O exército em robes cor de açafrão aqui, no entanto, tem comportamento sui generis: celulares estão nas mãos de qualquer monge do mundo, mas dinheiro e cigarros, nunca tinha nos ocorrido observar. Outra característica destes discípulos do Buda são as tatuagens, na realidade, encontradas em boa parte da população. Se em certas partes o budismo daqui se mistura com religiões animistas, no geral inclui uma série de superstições. As tatuagens, por exemplo, alguns dizem proteger de espíritos. Outros, de mordidas de cobra ou ofensas à bala.

As crianças de Mianmar podem se candidatar ao cargo das mais comunicativas do mundo. Conforme sua sorte econômica estarão brincando com a cara completamente marcada de seiva de tanaka ou passarão seus dias remunerados com alguma miséria – algo em torno de US$30. Entre as ocupações mais visíveis para turistas está o serviço nas Casas de Chá, frequentadas por grupos de homens, algumas mulheres e até monges. São estabelecimentos onde passam horas conversando, fumando, mascando betel. O melhor delas é o movimento e o chá verde grátis e infindável nas onipresentes garrafas térmicas. O pior, as crianças trabalhando. E no meio disso tudo sempre há refeições, lanchinhos e chá à moda de Mianmar: com muito, muito leite condensado. A limpeza é questionável, mas nem o budismo é tão típico de Yangoon. E de Mianmar.

Aonde viemos parar?

Aung San Suu Kyi à venda

Talvez os ventos da política mudem antes dos prédios ingleses do Centro de Yangoon desabarem. Caminhando sem rumo, tivemos a impressão de ver em Yangon mais jornais do que no Rio de Janeiro. Uma pena não ser possível decifrá-los por nós mesmos. Segundo artigos na imprensa internacional eles se multiplicaram com o afrouxamento da censura depois da dissolução da Junta Militar a partir das eleições realizadas em 2010. Apesar do resultado ter sido amplamente questionado pela comunidade internacional e pelos partidos de oposição locais, a partir delas, ao menos, o panorama das esperanças no país começou a se modificar.

Nas livrarias e banquinhas da rua é possível comprar biografias da líder de oposição – que até pouco tempo ainda estava presa. Foram 15 anos de prisão domiciliar. Aang San Suu Kyi já tem, além de um Nobel da Paz e de uma cinebiografia dirigida pelo francês Luc Besson, camisetas com seu rosto vendidas no camelô. Sem dúvida foi alçada à categoria de heroína nacional, ao mesmo tempo em que a antiga e quase imutável Constituição não permite que ela, hoje senadora, concorra às eleições presidenciais prometidas para 2015. De todo modo, e tristemente, a recomendação é não falar de política por aqui: não falta preso político apesar das promessas de abertura e ninguém sabe o quanto ainda se investiga a vida de qualquer um no melhor estilo “1984”.

Yangon era e é o centro da vida política de Mianmar, apesar da capital ter sido transferida pra Naypyidaw em 2006. Foi em Yangon que mais de 3 mil civis, a maioria estudantes, foram massacrados em 1988 e milhares de outros nos anos seguintes, e onde, em 2007, centenas de monges foram reprimidos e presos nos protestos conhecidos como Revolução Safrão. Entre as tensões da iminência de novo pleito presidencial e a apatia de um povo cansado de perder para o governo, renovada onda de repressão desproporcional a protestos pacíficos foi registrada em 2015 contra estudantes que questionavam reformas no sistema de ensino. De acordo com a Anistia Internacional, ao menos 70 foram presos, apesar das promessas do governo de acabar com as prisões políticas em troca de apoio financeiro internacional.

Além da brutalidade policial e da perseguição aos protestos, a ressurgência (ou permanência) de sérios conflitos étnicos espalhados pelo país podem sinalizar os limites das reformas que deveriam estar sendo implementadas pelo governo local. Talvez os edifícios coloniais desabem devido à pressão do tempo antes que se resolva o imbróglio político que ainda é Mianmar.

 

4 thoughts on “Estamos em Yangon. E isso é tão típico!

  1. Apesar do pouco tempo que terei em Myanmar (4 noites e 3 dias inteiros), pretendo separar uma tarde para passear no circular train e conhecer alguns pontos fora do circuito turístico.
    Uma dúvida… Eu posso comprar o ticket em qualquer estação ou tenho que obrigatoriamente ir à estação central? Ah, valeu pela tabela de horários que colocou lá no mochileiros… valeu!!!

    1. Oi Flavio! Tudo certo? Certamente sua vida será mais fácil se você comprar o bilhete na estação central, porque o pessoal já está acostumado mas certamente você consegue embarcar em qualquer outra estação. O problema maior será identificar o trem corretamente, mas os burmeses são ultra solícitos e se der a hora e o trem não aparecer pode pedir ajuda que te dão uma mão!

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