A noite cai e as cadeiras vão logo pousar ao redor do aquecedor. O cheiro do chá de gengibre preenche o ar enquanto as cartas de baralho são distribuídas sobre a mesa ao som de risadas e histórias de viagem. A empolgação é imensa, mas olhares discretos ao lado deixam escapar a preocupação sobre os parceiros. Prontos ou não, o Everest está logo ali, ao dobrar a esquina!

Rumo aos 5000m

O fraco isolamento dos quartos nos lodges ficou mais evidente do que nunca. Estalagmites ao longo das tábuas de madeira, barris de água congelada nos banheiros (usados para “dar descarga”) e as garrafas de água potável como pedras. A roupa do dia já amanheceu no corpo: tudo para diminuir a sensação de frio.

Café reforçado, hora da subida a Lobuche. Fomos cercados por gigantes de mais de 6 mil metros de altitude ao caminhar: Monte Lobuche, Cholatse, Pheriche, Arakam Tse, Island Peak, entre outros. O único caminho a seguir é mesmo o do vale. Andamos pela sombra, sobre gelo e neve, a uns 100m acima do leito do rio, onde avistamos o pequeno vilarejo de Pheriche. Nossa técnica não parece apurada, mas os pés aprenderam, através de tentativa e erro, os caminhos para se sustentar.

Longo caminho, abrindo espaço pela neve, até Lobuche

No vilarejo de Tukhla fazemos uma refeição leve logo antes de desafiar a encosta que leva a Lobuche. A subida é acentuada e tomamos quase 2h para vence-la contornando pedras e neve. No topo, de um lado temos visão incrível do vale que se estende por trás de nós, ornado pelas bandeirolas de oração. Do outro, lápides sem fim espalhadas pelas colinas brancas. Trata-se de um memorial para dezenas de montanhistas que pereceram no Himalaia. As placas anunciavam suas glórias e contavam onde foi a última expedição de búlgaros, russos, italianos, americanos, e claro, muitos nepaleses. Os sherpas são heróis que arriscam suas vidas para ajudar as expedições a chegarem aos picos ao mesmo tempo em que, com este trabalho, sustentam suas famílias com um pagamento superior ao magro salário médio nepalês. Para se ter uma ideia, enquanto em média um nepalês recebe 700 dólares por ano, um sherpa lider de expedição (portanto, a minoria deles) chega a ganhar 7 mil dólares em dois meses. Em uma das placas descobrimos a história do sherpa que havia subido 11 vezes o Everest, incluindo duas vezes na mesma semana. Dono da ascenção recorde até aquela data, fez em apenas 16h o que os montanhistas levam semanas para completar. Outro de seus feitos foi a permanência por 21h no topo do mundo sem oxigênio. Impensável para um reles mortal sem a poderosa herança genética do povo dali.

Bandeirolas emoldurando a paisagem

Após uma sequência infindável de escorregadios altos e baixos, Lobuche aparece a nossa frente. O jantar é cercado de preocupações e alertas. Quaisquer sintomas de dor de cabeça, falta de apetite, cansaço extremo ou afins deveriam ser comunicados imediatamente. Estávamos a 4900m de altitude e a primeira solução para problemas seria descer rapidamente. Os próximos dois dias seriam de esforço intenso, mais de 8h de caminhada, e precisávamos estar 100%.

As tendas amarelas

Apesar do frio intenso, me sentia perfeitamente em forma e despreocupado. O sono progrediu em cochiladas curtas. No meio da madrugada dei um rápido trote ao banheiro, para voltar logo ao calor do saco de dormir. Foi suficiente para coibir qualquer prepotência futura! Por um par de minutos o quarto parecia estar em pleno vácuo. O coração acelerado, o suor frio pedindo uma brisa que não existia, o pavor de sofrer sozinho e a dúvida sobre acordar alguém e gerar pânico… Sentado, puxando todo ar possível pela boca, casacos abertos, sentindo o gelo da noite e a pulsação forte contra o peito. Aos poucos o ar, apesar de pouco, começava a parecer suficiente. A aclimatação, por melhor que fosse, não permitiria nada muito atlético. Nada mesmo: o banheiro estava há dez metros! A paciência seria chave para o dia seguinte.

O longo caminho se iniciou com o trajeto entre Lobuche e Gorak Shep, o último vilarejo antes do acampamento. Por 3h subimos e descemos colinas brancas, aquecendo o corpo e aprendendo o melhor jeito de respirar e se movimentar. O equipamento parecia bem, apesar de alguns remendos aqui ou ali, especialmente na fraca armação dos óculos que quebraram várias vezes.

O vilarejo de Gorak Shep a 5100m de altitude

A 5100m acima do nível do mar nos sentamos para um último chá e comemos rápido, ansiosos. A chamada para partir soou como música para minha inquietude. Da porta presenciamos a chegada de um grupo por quem passamos muitas vezes no caminho. Entre seus integrantes, um rapaz malaio com uma perna amputada, que fez todo o caminho apoiado em muletas. Desnecessário dizer que a conquista deles nos encheu de energia também. Depois das fotos seguimos por alguns minutos e, pela primeira vez, avistamos nosso objetivo. Gorak Shep fica literalmente na esquina do Everest, onde o vale faz a curva, e permitia agora que caminhássemos em direção ao final. Nosso destino é uma “rua” sem saída, em que as últimas casas eram as tendas do acampamento base e o único modo de sair seria voltar, ou passar pelo alto das montanhas.

Uma trilha dita o rumo em novo sobe e desce até as tendas. À nossa direita, o trajeto que parecia plano agora se revelava do alto: inúmeras geleiras e crateras não seriam mesmo transponíveis. Paralelamente ao nosso caminho, ainda mais à direita, está a face oeste do Nuptse, um gigante que quase abraça o Everest e que estávamos contornando há dias para finalmente ter o prazer de chegar o mais perto possível da montanha mais alta do mundo.

O forte vento e os altos e baixos fizeram o pico do Everest esconder-se em alguns momentos e brilhar forte e claro com o sol do começo de tarde em outros. Parar para fotografias foi a desculpa perfeita para recuperar o fôlego de um caminho que não parecia complicado, mas que nos esgotava a cada passo mais atrevido graças à altitude.

Acompanhando os sherpas ao longo do caminho

A sequência de oito dias subindo constantemente, começou a mostrar seu preço. Paramos por alguns minutos e pensei que seríamos obrigados a retornar a Gorak Shep e tentar novamente no dia seguinte. Nosso guia era um só, não poderíamos nos dividir e não parecíamos todos em condições de continuar. Pensando como o cansaço iria apenas se acumular, empurramos as pernas e ganhamos o fôlego necessário ao começar a ver figuras longínquas das pessoas já no acampamento, ao lado das poucas tendas amarelas que pousavam por ali antes do começo oficial da temporada.

Por mais 2h seguimos e descemos por uma estreita trilha em meio às crateras para atingir o acampamento, 62 anos depois que um grupo de britânicos e nepaleses esteve ali desvendando uma rota até o pico. Alguns camaradas nos disseram que não havia nada lá além das barracas, pois ao pé das montanhas o pico do Everest não é mais visível. A mim, no entanto, pareceu um dos lugares mais incríveis em que já tinha pisado: as barracas ainda sem muita movimentação, é verdade, mas ao redor estávamos cercados de montanhas imensas, como o Pumori. Além disso, a geleira ao pé do Nuptse brilhava em azul e verde com o sol, se estendendo até a brecha com o Lho La. Os topos de montanhas pareciam afiados, até o ar era bonito. Por mais lindas que sejam as fotos, nenhuma satisfaz a visão do constraste real naquela paisagem quase lunar.

As crateras próximas ao acampamento base

Para nós o acampamento Base do Everest, um fundo de vale, também é o fim da linha. Adiante começava o Khumbu Icefall, uma sequência de blocos e fendas, alimentada pelo gelo e neve que caem do Everest e do Nuptse. Transpor esta barreira é o primeiro e formidável desafio das expedições que almejam o topo. Em 53, o neozelandês Edmund Hillary, que seria o primeiro a alcançar o cume, a 8848m de altura, foi um dos responsáveis da equipe de sua expedição por desbravar essa seção da montanha. No livro “High Adventures” ele a descreve como assustadoramente viva: durante o dia os blocos se moviam com a ação do calor e, de noite, novas montanhas de gelo despencavam, fazendo o esforço do dia anterior praticamente inútil. Hoje, alguns sherpas apelidados “Doutores do Gelo”, moram ali por quase dois meses. São encarregados de estabelecerem um caminho seguro e fixar escadas e cordas para a passagem das expedições. O começo das ascenções é em abril e os “doutores” ficam até o último montanhista, que sai normalmente alguns dias após a janela de ascenção ao cume, em algum dia de maio.

Os acampamentos superiores não são visíveis do primeiro. Geralmente os montanhistas utilizam quatro além da base. O segundo é feito logo após o Kumbu Icefall. A ascenção segue por um campo de gelo e neve, onde cada raio refletido pelas montanhas parece ter seu foco nos montanhistas. As encostas geladas se transformam em um surreal caldeirão quente.Superados essa mistura de calor intenso e altitude avassaladora, os acampamentos seguintes são montados após seguidos esforços de escalada de trechos no Lhotse. O derradeiro acampamento ao Everest, já perto dos 8000m, na chamada “Zona da Morte”, é o ponto inicial no dia do ataque ao cume.

Everest? Sr. pega ali a primeira à direita e só subir!

O tempo passava rápido e o fim da tarde se anunciava. Iniciamos o retorno às 16h, a princípio em passos lentos, mas o desaparecimento do sol por trás das montanhas fez a temperatura despencar rapidamente e acelerou nossa caminhada. Os casacos pendurados voltaram ao corpo e a partir de certo ponto o anticlimax da conquista aliado ao frio e o cansaço se juntaram em um só golpe. Foi necessário arrastar-se a Gorak Shep.

A entrada no ambiente aquecido fez sorrisos dominarem o salão. Um chá com histórias, agora próprias do Himalaia, foram logo encerrados para dar lugar ao descanso. Se vencermos o cansaço, no dia seguinte veremos o sol nascer no Kala Pattar!

E a disposição pra abrir os casacos e fazer a foto?

O Kala Pattar

Apesar de inúmeras montanhas ao redor, o pico do Kala Pattar é o mais visitado pelas expedições ao campo base. O alojamento de Gorak Shep fica muito próximo de sua base e não são necessários equipamentos de escalada para a ascenção. Seus 5535m seriam desafio suficiente sem o frio castigante da noite. 4:30 da manhã levantamos, confirmarmos uns com os outros de que iremos e nos encontramos na porta de saída às 5h. O escuro é dissipado pelas lanternas e começamos a cortar a neve em direção ao começo da subida. Iniciamos por uma trilha que serpenteia a encosta e vai ficando mais íngrime a cada passo.

O vento gelado parecia contornar as frestas da roupa e imobilizar as pernas. Vestidos com absolutamente tudo que possuíamos, o frio parecia ainda insuportável. Ansiosos pelo calor do sol, insistimos por mais de 1h, até vermos a enorme face negra do Everest em contra luz e o lindo contorno avermelhado por trás das montanhas no começo do vale. Um momento de decisão havia chegado: a temperatura, ao redor de -20º já deixava dedos das mãos e dos pés dolorosamente gelados e insensíveis ao toque, e o rosto, abalado pelo vento, começava a dar sinais de congelamento nos lábios e încomodo nos olhos. O pico ainda estava a mais de 100m verticais, porém a investida seria pela conquista, e não pela visão diferenciada do vale. Aceitando minha ingenuidade com a seleção ao horário da investida – não era mesmo necessário ir tão cedo quanto nos foi sugerido, agora entendemos -, resolvemos nos dividir. Iniciei o retorno com a Lívia, enquanto nossos amigos persistiram.

A cordilheira às 6h da manhã: mãos congeladas pra fazer a foto

Corremos de volta ao refeitório, agora gelado, para um chá e mergulhamos com toda a roupa no saco de dormir. Pouco a pouco, víamos as pessoas retornando, sofrendo para aquecer as mãos e pés. Um par de horas depois nos reencontramos todos, felizes com as fotos incríveis. Eles, com um olhar meio assustado lembrando do que tinham enfrentado e as mãos congeladas dos selfies nas alturas! Outras expedições, mais atentas ao clima, saíam só agora.

O paredão do Everest sendo iluminado por trás pelo sol

De volta ao lar

A subida havia chegado ao fim. Para continuar a ascenção nos faltavam preparação física, mas principalmente psicológica, e uns bons $50.000 para arcar com os custos da aventura. Havíamos elaborado um roteiro para a descida diferente do da subida e seguimos diretamente a Pheriche, a aproximadamente 4400m, para uma boa noite de sono. Descer era tarefa fácil. A diminuição da altitude nos dava forças e o cenário não desapontava.

Em Pheriche, na parte baixa do vale, descobrimos novas histórias do Everest e acordamos com uma visão inacreditavelmente linda do Ama Dablam – que daquele ponto se vê da base ao topo. Nas conversas ao redor do aquecedor, alguns poloneses se gabavam que subir as montanhas do Himalaia era fácil (hein?) mas que a ascenção no inverno sim, era um desafio. E que sim, os poloneses foram os primeiros a pisar no ponto mais alto do mundo no meio de dezembro.

Montanhas e carregadores por todos os lados

Em Khumjung conhecemos o amor dos sherpas por Hillary – e dele pela comunidade sherpa. O conquistador máximo do Himalaia deixou um legado de bravura no montanhismo, mas principalmente de escolas e hospitais através de sua organização, o Himalayan Fund. Sua foto, aparece ao lado das de família em muitas casas em que estivemos, principalmente quando o morador teve o prazer de conhece-lo.

Khumjung: a vila onde supostamente guardam a cabeça do abominável homem das neves

Em Samde almoçamos na casa de uma família, um casal e três filhas, em que o pai havia subido o Everest duas vezes nos anos 90. A conquista por meio de fotos e certificados povoava o salão. Enquanto isso, o homem passava de um lado para o outro com tábuas de madeira, fazendo alguns consertos na casa. Uma vida, digamos, normal.

Em Thame visitamos o grande monastério e vimos a hidrelétrica da região, suficiente para abastecer alguns poucos povoados. Foi aqui que nasceu Apa Sherpa, o recordista de ascenções ao Everest com 21 expedições bem sucedidas no currículo. A trajetória começou em 1990 com um grupo que incluía o filho de Edmund Hillary, Peter, que subia pela primeira vez – os Hillary foram os primeiros pai e filho a conquistarem a montanha.

O monastério de Thame

Continuamos a longa descida através de Namche, Phakding e finalmente Lukla para o voo de volta a Kathmandu. Encontramos camaradas brasileiros sendo guiados pelo incrível Manoel Morgado, um dos poucos brasileiros a ter feito a conquista dos 7 picos, o mais alto de cada continente. Vimos a mudança das estações, com as flores mais evidentes na parte baixa. Desviamos de muitos sherpas carregando comida, madeira, mochilas. Depois destes 14 dias em que estivemos isolados nas montanhas a temporada realmente começou.

Comemoramos na última noite com toda a equipe em um jantar regado ao mais típico arroz com lentilhas e nos alegramos com o genuíno sorriso dos sherpas diante dos nossos “presentes”: simples coisas que não usaríamos mais como tênis, garrafas, calças e óculos, tão úteis para eles em seu infinito vai-e-vem pelas montanhas. Às 10h da manhã, o pequeno bimotor mergulhou conosco pela inclinada pista do aeroporto Tenzing-Hillary em direção ao abismo e subiu lentamente, como se fosse necessária uma última exibição do cenário, em câmera lenta, para garantir nosso retorno.

14 dias, 128km de caminhada e muitos quilos de arroz e lentilha

Agradecimentos: 

Pablo e Karina do 500 Dias pelo Mundo – pelo incentivo para encararmos a expedição

Diuvãnio e Yan do Vagadores – a companhia e as risadas ao longo do caminho deram a maior força

Kumar, Bhimsen e parceiros da Asahi Treks – pelo apoio e planejamento para fazermos tudo com segurança

Apa Sherpa Foundation – pelos abrigos sendo disponibilizados aos moradores de Thame, doações no site!

 

 

 

2 thoughts on “Everest – Final – Pegadas sherpas

  1. Ola, bom dia!

    Nem sei como cheguei até voces mas estou ADORANNNNDOOOO todos os post que li ! Quero receber newsletter e também gostaria de saber se podem responder as 1000 preguntas que tenho ? kkk

    Grata

    Maria Salete

    1. Oi Maria Salete!! Que bom que está gostando! Não conseguimos dar conta de botar o blog nem a página do Facebook em dia, mas quando fazemos é com algo que foi pesquisado, escrito e revisado direitinho antes de publicar 😀 Newsletter não estamos mandando mas pelo FB ou se tiver conta no WordPress ele te avisa sempre que pintar algo novo! Quanto às perguntas estamos aí pra ajudar no que precisar. Pode mandar por comentário aqui, por email, no messenger do facebook, tanto faz. Um beijo e obrigado por nos prestigiar visitando aqui nosso espaço!

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