Um menino cruzava a escadaria sorrindo. O pequeno Sherpa tinha uns 4 ou 5 anos, usava tantas camadas de roupa que o movimento das perninhas parecia comprometido. Na cabeça, a toca de lã colorida que todos usam, protegendo também os ouvidos do vento frio que corta mesmo ao sol do meio dia. Nas mãos, um brinquedinho interessante: uma moto de plástico. Pouco depois ultrapassaríamos os 4 mil metros de altitude e o brinquedinho era interessante porque há 5 dias subíamos e não víamos nenhum automóvel, nenhuma bicicleta. Era interessante porque aqui é onde uma moto não faz sentido! Nenhum símbolo da modernidade, nenhuma máquina, faz realmente sentido. O que importa são as pernas.

Quem almeja ver o pico mais alto do planeta e as dezenas de montanhas majestosas que o cercam no alto do Himalaia caminha cerca de 13 dias: oito até o acampamento base do Everest, incluídos dois dias utilizados para aclimatação à altitude, e outros cinco para retorno a Lukla, povoado na área de amortecimento do Parque Nacional Sagarmatha, de onde chegamos e saímos em um pequeno avião. O trajeto inclui dezenas de vilarejos ligados apenas por trilhas que sobem e descem as montanhas, cruzam vales e cortam rios em pontes suspensas. A aura de isolamento é muito real, tanto quanto as cores e o movimento proporcionado pela vida e o fluxo dos sherpas que habitam e transportam nas montanhas. Apesar do nome “sherpa” estar tão intimamente relacionado àqueles que carregam o peso das expedições no Himalaia, este é, na verdade, o nome de uma das etnias do Nepal. Trata-se de um grupo de mais de 150 mil: Sherpa é também o sobrenome que assinam e o Vale do Khumbu um de seus endereços mais comuns.

Peso, peso...

O Khumbu é formado por mais de uma dezena de vilas, boa parte delas têm no turismo sua principal fonte de renda. É o caso de Namche Bazaar, a maior: mais de mil habitantes e um mercado semanal que movimenta a economia de todos os outros povoados ao redor. Tudo no Himalaia são pernas. Na altitude de Namche, 3,4 mil metros, não há estradas que combinam com nosso conceito. Rebanhos de 20 ou 30 mulas ou vacas levam botijões de gás, galões de querosene, cestos de mercadorias morro acima e abaixo. Os animais vão enfeitados: equestres com bordados coloridos na testa, bovinos com “brincos” e outros acessórios de lã. Todos com sinos que ecoarão em um leve balançado na cabeça de qualquer um que passeie por aquelas trilhas ainda muitos dias depois de voltar à proximidade do nível do mar. A partir de Namche, com mais altura mudam os animais: agora os yaks, espécie de boi enorme e muito peludo, são prevalentes – mas em rebanhos menos numerosos. Lindos, enfeitam ainda mais a trilha com seu leve gingado e a delicadeza de uma tonelada sobre a neve.

Todos os rebanhos serão tocados por homens, mulheres e algumas crianças. Enquanto os bichos exibem seus enfeites, os sherpas vão mostrando nas roupas as marcas de uma região das mais empobrecidas do país. E outros, muito numerosos, mostram o empobrecimento – e seu modo de vida – na força. Mulheres, homens e meninos que parecem carregar mais peso que os animais. Os cestos vão superlotados. Os deles cobrem as costas e a mercadoria ultrapassa a altura do corpo. É a testa que suportará o peso do mundo, e uma corda ajuda a manobrar o tamanho da carga. Caminham arqueados à 90 graus, pingam de suor e param de tempo em tempo, apoiando tudo no mesmo toco de madeira que levam como bengala. Estão em cada esquina, têm as mais variadas idades. Os velhos parecem mais velhos que o tempo, o rosto muito queimado do sol. Os homens são capazes de equilibrar de tudo: feixes de toras de madeira, telhados de zinco, pilhas de colchões. Os jovens parecem jovens demais e modernos demais para uma vida que se repete pelos séculos: cabelos picados na forma mais moderna, mais ocidental, mais MTV. Celulares nas mãos e bolsos, música pop em alto volume alternando entre sucessos nacionais e os de Bollywood.

Enquanto isso, os cestos delas têm folhas e batatas. Ao redor das casas, começam os plantios. Por lá, tanto frio e tanta neve, pouco nasce além de batata. São numerosos os campos para o mesmo vegetal, mas ele não é suficiente para tantas bocas a comer. A falta de comida, como de praxe no mundo, está entre os principais motivos de êxodo rural, especialmente dos jovens. O trabalho árduo começa com o calor tímido do início da primavera: os campos nus ganham os primeiros cuidados. Elas se sentam na terra, cavam buracos, enterram batatas velhas e esperam que nasçam muitas novas nos meses que virão. São risonhas as sherpas. “Namastê”, “Namastê”, vão dizendo aos estrangeiros que fotografam seus campos ainda sem nada. Quando serve o chá a menina de rosto mais doce, olhinhos puxados, bochechas queimadas do sol, exibe a dureza da vida: mãos pesadas, calejadas do trabalho no calor do fogão e no frio da água que vem das geleiras. Ao redor, sempre, as crianças brincam. E como brincam os meninos e meninas sherpas! Sorriem safadas e espertas quando passamos, correm, se escondem, chutam bola, colorem a paisagem que ainda não é verde em um final do mês de março.

Entre as maravilhas de chegar ao Acampamento Base do Everest (ABE) está a sensação de ter percorrido todo – ou quase todo – o vale. E no caminho são tantas as casas, tantos os sofás forrados com tapetes importados do vizinho Tibet, tanto chá de gengibre, tanta sopa com alho para sobreviver melhor à altitude que nos rouba o ar. Muitos garantem que não há nada especial no ABE, a exceção de chegar. Não me pareceu. Depois das barracas amarelas vemos as grandes montanhas se fechando, impermeáveis com enormes geleiras. É o maior, o mais enorme “fim de linha” – ou, ao menos, fim das linhas possíveis para os reles mortais. De lá em diante, apenas montanhistas “de verdade”. E, sempre, os Sherpas e seus mundos nas costas.

6 thoughts on “No topo do mundo. E com o mundo nas costas

  1. Wow, cheguei aleatóriamente aqui e estou lendo e relendo post por post, muito bacana Lívia!
    Abraço

    1. Olá Peró! Muito obrigado por acompanhar!
      Temos vários textos a caminho mas que ainda não tivemos tempo de editar e botar no ar. Alguns sobre sudeste asiático e Índia devem aparecer em breve e os da África estou começando a montar.
      Grande abraço!

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