Na frenética Hanói, uma pequena mulher carrega dois cestos de frutas suspensos pelo ombro direito. É como se ela e seu chapéu cônico fossem o centro de uma balança. Seu equilíbrio garantirá a alimentação das suas crianças, que vivem longe e ela vê a cada mês. As ruas estão cheias. Contamos os carros nos dedos, mas as motos multiplicam-se. Serpenteiam em sua zoeira constante ou enchem as calçadas, roubando-as dos pedestres. Os turistas se amontoam nos hoteizinhos do bairro velho e vão pulando os banquinhos baixos que parecem brotar do chão. Sentam-se desajeitados por ali mesmo com os locais, e sorvem outra tigela de pho, a sopa à base de macarrão de arroz que move o Vietnã. É assim nesse instante.

Da capital à pacata ilha de An Bihn, no delta do rio Mekong, com direito a uma escapadela ainda mais acima, na estonteante baía de Halong, cruzamos o Vietnã de Norte a Sul. Foram um prazer e algumas dores para conhecer o país das mulheres de chapéu cônico, dos incontáveis campos de arroz alagado e da guerra em que a tenacidade derrotou o Golias. Para vencer estas centenas de quilômetros precisamos descobrir, todo dia, por que valeria à pena seguir. Como tudo no Vietnã, essa foi uma viagem que pareceu lenta até nas descobertas.

Golpes sobre golpes

Desembarcamos em Hanói sem uma ideia precisa da cidade e do país que iríamos encontrar. O primeiro choque foi a confusão de motocicletas. O segundo, a quantidade de turistas ocidentais no bairro antigo da capital. A razão mais provável pela qual o Vietnã ficou conhecido e popular no Ocidente são os horrores da guerra que eles venceram contra os americanos, em pleno contexto da Guerra Fria. Dali vieram tantos livros e filmes. Acredito que muitos vêm interessados em saber o que aconteceu depois, apesar de ter havido tanto antes: os vietnamitas estiveram em trincheiras por séculos, desde as querelas contra os chineses há mil anos, passados os entreveros com a França colonial a partir do século XIX, sem esquecer de mencionar a sangrenta invasão do Japão e tantas outras guerras com os vizinhos Camboja e Laos. Soma-se a isso o clima tropical, a variedade de cenários e o câmbio – e custos em geral – muito favoráveis. Talvez saia daí a receita para a multiplicação das agências de turismo e pequenos hotéis, fato que não se resume a Hanói. Diante disso, esperávamos uma boa recepção. Não é a regra.

Vendedora caminha lentamente com suas frutas

 

Depois de vários dias na capital, onde entre outras coisas visitamos museus, descobrimos sabores e aprendemos a atravessar a rua – com tanta moto e nenhum freio, o risco de morte parece constante –, resolvemos enfrentar a previsão do tempo, mais chuvoso a cada dia. Fomos ao extremo norte para conhecer a estonteante baia de Halong. Por ali, os barcos serpenteiam tranquilos no mar verde esmeralda, de onde emergiram em tempos imemoriais milhares de pequenas ilhas de calcário. Bela obra natural cuja leveza é arrebentada pelos golpes que os visitantes precisam esperar.

No início nós não sabíamos, mas o Vietnã é conhecido entre turistas independentes pelos golpistas e sobretaxas. Já haviam começado contra nós nas coisas corriqueiras, por exemplo, sermos cobrados três vezes mais do que dos locais por uma refeição ou um quilo de qualquer fruta (que muitas vezes nem compramos para não compactuar com a roubalheira). Para isso não havia negociação, e a verdade é que não fazem nenhuma questão de vender para estrangeiros, por mais que precisem. Mas em Halong chegamos avisados: podia ser bem pior.

Falamos de coisas como impedirem a entrada de estrangeiros em ônibus públicos que custariam U$ 0,50 – alegando estarem cheios, mesmo sem haver ninguém dentro – para obrigar o pagamento de dezenas de dólares a serem negociados por 40km de deslocamento com um motoqueiro qualquer. Ou forjarem o bilhete para entrada em algum lugar com valor aleatório (suspeito que foi o caso de uma vista de Halong a partir da ilha de Cat Ba que simplesmente abrimos mão de experimentar). Viver todos os dias cercados pela possibilidade de um novo golpe azedou nossa experiência. É bom deixar claro que não é especialidade de Halong, trata-se de um tema nacional. Nos bucólicos arredores de Ninh Bihn, outro exemplo: depois de cobrar 100% a mais pela passagem, o trocador tentou nos fazer descer 15km distantes do ponto final, entre o nada e o lugar nenhum, para deixar uma fortuna no bolso do taxista amigo que ele já havia chamado pelo telefone. Cheguei mesmo a querer pegar o primeiro voo para qualquer outro lugar, várias vezes. Mas a verdade é que, no momento certo, uma pequena gentileza (mesmo que com terceiras intenções econômicas) reanimava meu coração cansado. E, acima de tudo: eu sempre esperava uma comida mais gostosa na próxima refeição. Daí fomos seguindo.

Presos pelo estômago

Havia dois motivos para seguir de ônibus até o centro do Vietnã: o primeiro, muitos diziam valer à pena parar em Hue. O segundo: ambicionava descobrir o que colocam na panela para fazer tudo gostoso e Hoi An é famosa pela comida e pelos cursos de culinária – além de todos garantirem ser ela também uma bela cidade. A jornada demanda paciência. Raramente o veículo ultrapassa os 40 km/h, a estrada é cheia de buracos e o design interno – espécie de leitos onde seus pés ficam guardados em uma caixa sob as costas do passageiro da frente – fazem do ônibus noturno o lugar dos pesadelos.

As lojas de lanternas de Hoi An

 

Aproveitamos Hue menos do que a cidade talvez merecesse por conta da chuva que nunca nos abandonava. Mas, de fato, foi interessante passar pela Cidade Proibida dos vietnamitas. Boa parte dela, na verdade, foi destruída por guerras e apesar dos esforços recentes para restauração dos edifícios que sobraram, apenas um estava como novo. Se essa característica pode desanimar a visita para alguns, no nossa opinião fez soar como um lugar que no presente é capaz de contar toda sua história, em todos os tempos, do esplendor às ruínas. Não deixa de ser uma parábola do Vietnã.

Hoi An é uma delícia, uma cidade a ser devorada! A parte antiga é hoje mais turística do que gostaríamos, mas linda com seus barquinhos, pontes, e o rio iluminado por velas flutuantes, acessas por bons desejos. São mais de 150 restaurantes que se intercalam com dezenas de costureiras e lojinhas de souvenirs. É como se a vida girasse em torno de comprar presentinhos, mandar fazer roupas e comer, e comer, e comer (e beber). Há também casas antigas, templos budistas e um ótimo mercado, talvez o mais agradável e variado que visitamos no país. Por falar em mercado, é lá que começam as aulas de culinária vietnamita, oferecidas por vários estabelecimentos.

Passar a véspera de Natal cozinhando é tradição em tantas famílias brasileiras, como na minha. Longe de casa, não imaginei que faria o mesmo, mas com outros sabores. Além do bife picante, servido enroladinho em folhas de mostarda fresca e molho de pimenta verde que eu fiz [:D], passei o dia em uma escola de culinária aprendendo a fazer (e comendo) outros 10 pratos! Agora me sinto apta a fazer rolinhos primavera frescos se não estiverem enrolados no restaurante e descobri que no fundo da panela de pho são colocados vários temperos cujos sabores são “equilibrados” na chama aberta do fogão, garantindo o sabor leve e misterioso para o meu paladar ocidental. Entendi que mamão verde cozido com porco é uma delícia. Assustei porque vai ser muito difícil seguir vivendo sem capim limão e óleo de peixe na cozinha, entre outras lições da simpática Van. Essa cozinheira de mão cheia me fez ter certeza de que o que me prendeu ao seu país foi o estômago mesmo…

Correndo rumo ao mar

Ainda em Hoi An, já estava conformada em ter apenas as vísceras plenamente satisfeitas em meu primeiro mês no sudeste asiático. Até que, finalmente, sr Lac salvou meu coração! Ele saiu de sua casa de dois andares, literalmente coberta de flores, para mostrar os quartos que aluga por dias ou temporadas. Agitado e sorridente, contou orgulhoso que era jardineiro, brincou com o cachorrinho. Por fim, estendemos nosso tempo na cidade apenas para nos hospedarmos lá, e sermos lembrados, sem nem querer, que no meio de tanto golpe e de tanta solidariedade interesseira, sempre vai ter gente boa para levar na memória – é que eventualmente é difícil achar.

O mausoléu do tio Ho

Como os países são feitos de fronteiras e os Estados de burocracia, era preciso começar a despedida: há quase um mês estampávamos nossos passaportes e o prazo para sair é de 30 dias. Depois de mais 24h de ônibus – apesar das paisagens, a vantagem da opção é mesmo a econômica – desembarcamos em Ho Chi Minh. A cidade leva o nome do líder comunista que reunificou o país depois da expulsão dos franceses e da guerra contra os norte-americanos e é cortada pelo rio Sai Gon, que a batizava antigamente. Tem quase 8 milhões de habitantes e parece ter 1 bilhão de motocicletas! O fluxo chega a ser atordoante. A cada minuto, na esquina que observamos, passam várias famílias inteiras – pai, mãe, duas ou três criancinhas -; 7 ou 8 caixas de mercadorias equilibradas ao redor de um motoqueiro; gente conduzindo ao telefone com capacetes à lá militares; mulheres com capas para tampar as minissaias. A vida flui por escassas cilindradas.

Apesar do alarde sobre sua modernidade, parece que faltava em HCMC personalidade, como vimos em Hanoi. Enlouquecidos pelo trânsito depois da tranquilidade da casa do sr. Lac, seguimos logo para a delta do rio Mekong, o rio “mãe” (segundo o significado do seu nome). Ele sai do Tibete para fertilizar o Sudeste Asiático e garantir no extremo sul do Vietnã o arroz que alimenta a nação – cada família consome, em média, 40kg por mês conforme contou a cozinheira de Hoi An. Pedalamos entre os quintais cheios de frutas de An Bihn e navegamos por um trecho do rio antes de enfrentar a última série de golpes e fugir rumo ao Camboja e ao mar.

Estar no Vietnã foi jogar com o tempo: devagar e rápido, como o trânsito que nunca pára, sempre constante em seus 30 km/h.

As mulheres conversam em meio ao zunido das motos

 

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *