Da garupa da moto vimos a luz do Camboja pela primeira vez. Vínhamos da fronteira com o Vietnã bem ao Sul e buscávamos o litoral. O sol quente ia atravessando aqueles campos planos e nos permitiam admirar paisagens distantes. Por perto, nos lagos, os búfalos refrescavam seus corpos de pedra, e a terra esperava mais água para o futuro arrozal, e tudo soava como se o tempo estivesse parado. As crianças brincavam à beira da estrada: saídas de casebres muito pobres, umas vezes apareciam meio sem roupa, outras, descabeladas em suas bicicletas a caminho da escola.  Sorriem, os cambojanos. E o ar é leve (apesar do peso da História).

Chegamos à Kep, nossa primeira parada no litoral, sem criar grandes expectativas. Ou melhor, sem muitos planos. Batemos à porta de uma casa de hóspedes que sabíamos ter quartos bons e baratos. A moça da portaria era tímida até nas expressões. Muito contida. Mas sorria. Resolvemos ficar. O grande centro do turismo no Camboja é o noroeste, onde estão as ruínas de Angkor Wat e o complexo de templos ao redor – conhecidos, sobretudo, pelas árvores que os envolvem. Mas nós estávamos no sul. E sem pressa. Quase criamos raízes por ali.

Por do sol em Kep
Por do sol em Kep

No Camboja olhamos a vida passar sem molduras, sem janelas. Em Kep, mais hotéis que uma cidade em si: caminhamos pela mata de uma reserva, pedalamos pelas estradas de terra, seguimos de moto até a vizinha Kampot, descobrindo uma bucólica avenida à beira rio. Olhávamos as casas. Muitas de madeira e construídas no alto, como sempre fizeram os cambojanos. Tantas outras afrancesadas, para lembrar o passado colonial. Olhávamos as plantações, o gado, as crianças indo e voltando da escola, acenando e sorrindo.  Só havia pressa para um banho de mar no fim da tarde. E era como o tempo parado. A pequena praia ficava dos turistas de segunda à sexta. Em fins de semana chegavam as vans com famílias inteiras se esbaldando na água, de jeans e tudo mais. Uma farra bonita de ver. Biquínis em geral são bem aceitos, mas quando a praia é dos locais, uma mulher com traje de banho vira (desagradável) atração – e o sol ficou para outro dia.

Na ilha de Koh Rong, nos decepcionamos com a alta temporada, esperávamos desembarcar no paraíso. Mas chegamos (primeiro) a Koh Tuich, a praia mais habitada da ilha. Muita exploração desordenada de turismo. E para a população local sobram os ratos (estes também tivemos), o esgoto, o lixo e a falta d’água, enquanto os bangalôs são multiplicados pela ganância cega. Seguindo pela trilha errada, nos deparamos com a mata derrubada em nome do “desenvolvimento” do lugar. O som das motosserras é insistente para quem quer ouvi-lo. Entristece ver a origem de mais bangalôs. E nem sabemos se o melhor é recomendar que todos corram para a ilha ou se o melhor é que ninguém se aproxime, na esperança de o lugar “durar mais”. Afinal, o paraíso também está lá: a primeira vista dele é Long Beach, praia linda apesar do lixo nacional e internacional.  Mas descobrimos que o lugar incrível de verdade é Lonely Beach, ao Norte. Acomodação para 30 pessoas e praticamente ninguém mais vem aqui. Energia solar para quase tudo, nada de água corrente, muitos lagartos comendo os numerosos insetos que rondam os bangalôs. Silêncio de gente.

Long Beach em Koh Rong
Long Beach em Koh Rong

Passado/ presente

De volta à selva de pedra e pó, desembarcamos em Pnhom Pehn, a capital. Olhar para uma cidade de verdade em um país com 80% de população rural, e especialmente para a cidade que mais conta a história recente, dá a sensação de aceleração e aquele frio na espinha: imagine que onde hoje vivem 2.2 milhões de habitantes, em 1975 moravam 2-3 milhões. Agora saiba que naquela época eles foram todos (!) expulsos para o campo! No contexto da Guerra Fria e da guerra do Vietnã – que também atingiu secretamente o Camboja, lembra de Apocalipse Now? –, com a velha Indochina conturbadíssima, assumiu o poder local um grupo de esquerda, o Khmer Rouge. Não desejavam “todo o poder ao povo”, mas todo o poder aos campesinos. E por mais absurdo que possa soar, justificavam que caso absolutamente todos fossem campesinos, finalmente seu país seria autossuficiente. Assassinaram mais de 2 milhões de compatriotas em campos de extermínio e, muitos mais, de fome e com as doenças que se alastraram na esteira da desnutrição e da insalubridade em um período de apenas 4 anos (1975-1979). Portanto, Pnhom Pehn é o exemplo da cidade que tenta se reerguer. E a prova do quanto isso é difícil.

Ir aos pequenos cinemas pensados para os expatriados que vivem na cidade virou um programa preferido. Há vários deles, centros culturais, festas, cafés para vários bolsos e gostos. A impressão era de estar em uma cidade que pulsa e onde há muito o que descobrir. Ao mesmo tempo, a capital do Camboja nos brindou com muitas cenas que são, na verdade, o Sudeste Asiático: a arquitetura francesa à beira do rio Mekong, muita comida sendo feita e ingerida na rua. Monges de todas as idades iluminando a rua com seus trajes alaranjados, assim como as mulheres em estampas variadas – e, frequentemente, de pijaminhas. As motos que se multiplicam, os motoristas de tuk-tuk perseguindo a clientela: tuk-tuk, pleeeeease? (tuk-tuk, por favoooor?), era ouvido o dia inteiro numa urbe sem (!) transporte público [situação que pode estar mudando de lá pra cá, com uma série de implicações, segundo este artigo aqui]. Não há uma esquina silenciosa. A poeira sobe do chão e infesta tudo. As cidades grandes são obviamente mais liberais do que o interior, os jovens demonstram alguma rebeldia nos cortes de cabelo assimétricos e nas pernas de fora. À noite, especialmente na região próxima à beira-rio, mais turística, os letreiros se iluminam. Pelo menos nas primeiras horas da noite, quando circulávamos, os bares pareciam mais cheios de garotas de programa do que de clientes.

Gostávamos de nos refugiar na varando do hotel, de onde víamos os rapazes do tuk-tuk o dia inteiro jogados no banco de trás, esperando algum cliente. O primeiro com quem conversamos, Sr. Pum, já acenava e gritava perguntando se precisávamos de seus serviços antes de sairmos à rua, para não dar chance à concorrência. Observávamos também as grávidas que entravam e saíam (às vezes saíam com o bebê nos braços, claro) da maternidade, em frente. Chama a atenção a quantidade de pequenas clínicas e farmácias espalhadas por toda a cidade, talvez reflexo da falta delas no resto do país. A dona da hospedagem – com o rosto arredondado e moreno, batom e seus belos sorrisos -, assim como seus filhos e sobrinhos, vivia por lá. Ficamos hospedamos em várias “casas de hóspede” e é comum que grandes famílias, acomodadas em quartos muito humildes, ou na sala mesmo, abram suas casas e vivam de receber os estrangeiros.

Um mercadão em Phnom Penh
Um mercadão em Phnom Penh

Acabamos a viagem no “reino das maravilhas”, slogan do país, onde a maioria começa: Siem Reap, o lugar para explorar os templos de Angkor. A cidade em si é bem feia, dessas que mostram que hordas de turistas não necessariamente fazem algum bem. Hoje, talvez, ela interessasse mais a Indiana Jones do que as ruínas em si, eis uma imagem para o que estamos falando. O melhor asfalto que encontramos por ali estava na avenida que liga o centro de Siem Reap aos impressionantes templos. Angkor é apenas um, o maior entre centenas de construções de pedra que começaram a ser erguidas no século IX, com relevos ornamentando as paredes desde então e as raízes de árvores que passam a ocupar o lugar com o abandono no passar dos séculos. Se Angkor, o templo mais famoso, soou para nós como apenas mais um, outros impressionaram demais: imagine-se entrando em estruturas que estão meio desmoronadas, como fizeram exploradores do passado, ou sentar-se em um telhado cheio de torres com dezenas de enormes rostos talhados em pedras, de tal forma que é para você impossível supor como foram imaginados, que sá como foram erguidos. De dentro deles sai o ruído dos morcegos e ao anoitecer, quando todos parecem ter ido embora, a paz retorna.

Pegamos então as bicicletas e saímos pedalando pelo Camboja pela última vez. Às vésperas de nos despedirmos, já não sabíamos se o tempo estava parado novamente. Ou se acelerava como os tuk-tuks vagando em busca de mais um turista. Ou de um futuro incerto que, torcemos, seja luminoso como os sorrisos cambojanos.

2 thoughts on “Sorriem, os cambojanos

  1. Muito lindo o texto e o novo visual do site. Parabéns! Vamos para o Camboja nas próximas semanas e queria dizer para vocês que tava sentindo falta de um texto por aqui. Rs. Vocês estão de volta no Brasil? Nós estamos viajando ainda, no Laos, e começamos nossa trip com um comentário a vocês sobre a imigração no Barajas. Depois curtimos muito os Bálcãs com boas dicas de vocês e passamos uma semana toda curtindo o hostel escola em Vuno na Albânia! Abraços

    1. Oi Rafael!! Que alegria! Ficamos super contentes com sua mensagem e estamos tentando dar uma agitada por aqui! Já já teremos mais novidades e textos. Voltamos ao Brasil, mas não sei quanto tempo isso vai durar, hahaha Ando pegando uma praiazinha no Rio, o que não está nada mal, mas aquela água linda e limpinha da Albânia dá saudades… Aproveitem muito aí o sudeste asiático e apesar de não ter as dicas ainda no site nós já fomos então qq coisa manda uma msg por aqui ou no Facebook que a gente troca uma ideia 😀 Grande abraço!!!

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