Reunimos histórias de um casal, apesar de esta ter mais a ver comigo, mulher. Passaportes que mais abrem do que fecham as fronteiras. Heteros, brancos, classe média. Marcas que, assim como gênero, moldam o olhar e o processo individual de viajar. Em um ano, cada pulmão arfou por diferentes sentimentos. Triste constatar que os femininos arfavam de medo com maior frequência.

Em nosso primeiro mês na estrada passamos dez dias de calor e descobertas no Marrocos. Como antes, pelos parques da Espanha, ou depois, em qualquer lugar por onde passamos, era pouco frequente nos separarmos. Com raras exceções, o andar junto tinha pouco a ver com medo, e muito com a vontade de trocar experiências e visões. No entanto, em uma dessas tardes de sol, saí só em Marraquexe para tentar tomar um banho num hammam. Nesse dia pelas ruas da medina entendi claramente a diferença entre viajar só e acompanhada. Os olhares não eram a curiosidade pela cara estrangeira que sempre me acompanhavam. Apesar de tantas diferenças culturais, era como aqui, pelas esquinas do Brasil. Pouco importa quanta roupa (esses lugares-comum que são besteiras amplas): o objetivo era perscrutar a carne, apesar do pano.

As redes sociais foram invadidas nos últimos dias pela carta aberta “Ontem me mataram”, escrita pela paraguaia Guadalupe Acosta em memória – e protesto – pelo assassinato e pela reação ao assassinato de Marina Menegazzo e María José Coni, duas turistas argentinas que viajavam juntas no Equador. Conforme notou Guadalupe, ao invés de questionar o assassinato e o assassino, muitos queriam saber o porquê delas viajarem sozinhas (leia-se, sem a “proteção” masculina), que roupas usavam, se estavam drogadas. Basta perguntar: fossem dois rapazes, alguém se preocuparia em saber se vestiam shorts ou calças? Se eram largos ou apertados? Se usavam a rua durante o dia ou a noite? A verdade é que ser mulher na estrada parece mais simples se acompanhada. Eis o mundo: está desenhado para respeitar alguma “autoridade” masculina. Mas não é na estrada, apenas. É na rua nossa (?!) de cada dia. E o respeito, vale lembrar, inclusive para contrapor-se a mais um lugar comum, não tem nada de absoluto: ou alguém se esqueceu, para ficar em um único exemplo, do casal de estrangeiros assaltados em uma van em Copacabana, Rio de Janeiro, em 2013? A norteamericana foi estuprada por um grupo e o namorado algemado e agredido com barra de ferro. O caso gerou grande repercussão e revolta não apenas pela agressão ao casal e mais especificamente à moça. Muitas lembraram que muitíssimas outras mulheres, especialmente em regiões periféricas da cidade, são agredidas e estupradas diariamente sem a mesma atenção da mídia. Também não faltaram questionamentos a atitude das autoridades, que ao invés de melhorar o sistema de transporte público e torná-lo mais seguro para as mulheres, baniu o transporte por vans na Zona Sul da cidade, medida que afetou a vida de cerca de 100 mil pessoas.

No Irã dos lenços obrigatórios, dos culotes cobertos e das mulheres que desafiam a autoridade com batom e mechas de cabelo, a cada esquina nos perguntavam se éramos casados. Sim, respondíamos, mesmo não sendo. Não era a única pergunta, claro. E nem a única que queria entender o lugar da andarilha no mundo: pois não tem filhos? Se estão juntos há dez anos?! Por que não?! Não, não são questões iranianas. São perguntas universais, mesmo quando não enunciadas.

Ainda no Irã, lembro bem de nossa amiga Sarita, uma mochileira brasileira em viagem solo, sendo aconselhada por outra amiga, essa iraniana, a evitar fazer couchsurfing por ali com homens. Numa cultura tão fechada, argumentou, sabe-se lá o que entendem ser os limites de uma mulher. E não é igual por aqui, neste país “liberal”? Outra mochileira, italiana, comentava sobre convites diretos ao sexo, apesar de seu pedido ter sido, apenas, por um sofá. Vai merecer um post futuro a triste percepção – por melhor que seja a possibilidade de arranjar companhia para qualquer coisa – de que não faltam cidades ( na Itália, por exemplo, soava como uma constante) onde as únicas pessoas disponíveis para oferecer um lugar para pernoitar sejam aquelas que estão disponíveis apenas para mulheres sozinhas e que subscrevam ao que se designou, em algum momento da história, como padrão de beleza.

Segurança é questão, sim, no universo das mochileiras. Parece-me que tomam mais cuidados. Mas não é questão só delas. Andar pra frente olhando pra trás é um hábito que faz parte da vida de parte significativa das mulheres, especialmente daquelas que vivem abaixo da Linha do Equador. Não faltam estatísticas a atestar os riscos que correm. E as sensações caminham junto. E dentro. É questão de gênero. Nos hostels não faltavam quartos a serem compartilhados apenas por mulheres. Apenas por homens? Não vi. Vontade de alguma privacidade é apenas parte da explicação. Ou eram mulheres sozinhas ou eram quartos mistos. Por que será? Pessoalmente minha cama preferida nos hostels ou nos trens – pouco importa se na Rússia, na China ou na Índia – eram sempre as de cima. Não, eu não as prefiro em geral. Na verdade, tenho sempre medo daquelas escadinhas. Mas, mais medo do meu sono pesado. Pensava: melhor assim. Teriam os rapazes as mesmas preocupações? As mesmas motivações?

Fazia calor e eu estava de calça. Até hoje me pergunto o que eu fazia de biquíni num domingo de praia no Camboja, um dia, vejam, cheio de cambojanos. As câmeras brotaram para fotografar o corpo desse bicho estranho e rebelde que, claro, desistiu de tomar sol em 10 minutos. Era melhor me vestir. Uma parte de mim garante que não há porquê afrontar a cultura local. Essa cultura que a gente tenta arranhar com as unhas e poucas vezes é capaz de entender enquanto viaja. No entanto, minha outra parte está sempre alerta: seria melhor me esconder?! Pois nada disso se restringe a viagem: as passarelas subterrâneas de Brasília me assustam tanto quanto certas quebradas de Delhi. Com ou sem companhia masculina. Não é justo que um coração acelere mais por medo que pelo esforço de pedalar morro acima. Por aqui, não falta o misto de medo e raiva se o vendedor de pipoca diz que estou “gostosinha” enquanto pedalo para o trabalho. A diferença, muitas vezes, é entender cada palavra escrota que nos dizem.

Vivemos num país listado entre os cinco mais perigosos para uma mulher viajar. Antes de sair da América do Sul, na verdade, era impossível para mim entender porque as europeias que fui conhecendo sempre se referiam ao meu continente como um lugar tão perigoso. Pois quando a insegurança nos acompanha desde sempre, vira uma sombra que conscientemente não percebemos estar lá. Até que numa cidadezinha da Alemanha se é a única a caminhar olhando sempre pra trás. E me perguntam, inocentes: por que você faz isso? Katarina, amiga sérvia que ficou seis meses em Belo Horizonte depois de uma rápida passagem por nossa casa contou, com olhos de medo, sobre a insegurança de ser estrangeira por aqui. Pois todos os dias te gritam coisas que você não entende. Mas geram pavor. E fazem trocar a rota, ela mencionava diante de seu café, já de volta na Sérvia. Ser mulher no Brasil é como ser mulher na maior parte do mundo. É entender cada letra da violência e decidir os caminhos. E nada disso me dá qualquer vontade de parar. Não acho que deva ser o caso para qualquer outra, apesar dos fatos.

Quantas vezes perguntaram-me o quanto era perigoso aqui ou acolá? Sem conta. E eu fico a pensar: pois não é perigoso todo dia, em qualquer lugar? Desigualdade é perigo. Machismo é perigo. Muito. Mas se em todo o mundo as feministas marcham, viajemos. Juntas e acompanhadas. Até que todas sejam livres.

2 thoughts on “Um olhar pra trás, dois passos a frente

  1. Ótima reflexão… Sempre viajei sozinha, não tive o mesmo privilégio que você de viajar acompanhada, ainda mais com marido.. Realmente o medo é um parceiro não muito bem quisto, mas ele insiste em estar ao nosso lado. Trágico ser mulher nesta sociedade machista.

    1. Ei Mary! E nem acho que é um privilégio viajar com um homem – seja irmão, namorado, pai, marido. Devia ser só circunstância. Mas infelizmente em vários momentos, em ambientes machistas, vira uma falsa segurança. Ou um facilitador. É pena. Mas seguimos caminhando contra tudo isso! Um abraço e obrigada por comentar 😀

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