Reticentes, tomamos um tuk-tuk rumo à periferia de Pnhom Pehn, capital do Camboja.  Choeung Ek é hoje um tranquilo jardim em cujo centro está uma estupa  – construção budista em forma de torre, usada aqui para guardar restos mortais, geralmente cremados. Nesta, 8 mil crânios repousam organizados lado a lado, categorizados pelo tipo de golpe sofrido. Testemunham silenciosos os horrores do genocídio que ceifou a vida de cerca de 2 milhões de cambojanos nos 3 anos, 8 meses e 21 dias em que o Khmer Rouge esteve no poder. Trata-se de um popularmente conhecido “campo da matança”.

Há diversas razões para estar reticente diante da possibilidade de visitar um lugar como Choeung Ek. Ir soa como uma curiosidade macabra. Por outro lado, é uma chance de se deparar com o passado, por mais terrível. Mas o que mais incomodava era imaginar a possibilidade de um campo de morte ter se tornado um parque de diversões. Ir seria tornar-se conivente com isso. Nossa decisão pessoal de não perder a chance, no entanto, foi moldada dos comentários que felizmente mostraram-se precisos: de que era um monumento absolutamente respeitoso e respeitado, e de que o áudio que todos recebem ao chegar (não é alugado, é compulsório, em um sinal de como os organizadores querem que você realmente conheça o que aconteceu) era extremamente informativo e interessante.  É claro que saí de lá com raiva e pena da Humanidade. E com uma enxaqueca infernal. Mas satisfeita por incentivar a manutenção da memória com a minha presença.

O lugar é silencioso desde a entrada. Pagamos o ingresso e conectamos os fones de ouvido. A voz masculina no áudio em inglês (há opções em vários idiomas, mas não em português) agradece a presença reconhecendo, como se soubesse dos nossos pensamentos, que não é fácil ser um visitante aqui. Passamos a “conversar” com o simpático locutor. Ele nos guia entre placas que referenciam os lugares onde antes havia construções, e explica que ao assumir o poder em 1975 o Khmer Rouge, formado por seguidores do Partido Comunista, tentou reestruturar totalmente aquela sociedade. Inventou o “ano zero”, quando todos os laços com a História seriam rompidos. Acreditava que a solução para as misérias do país estava no campesinato. Por isso, simplesmente acabou com as cidades: todos foram expulsos, famílias separadas em direção ao campo. Os cidadãos passaram a ser obrigados a trabalhar 12h a 15h por dia, alimentados com sopa de arroz e nada mais. Morreram também os campesinos (originais e trazidos da cidade) de desnutrição e doenças, além dos assassinatos em massa – intelectuais, monges, profissionais liberais e membros do próprio regime: qualquer um que pudesse ameaçar o plano, perdia a vida.  

Conforme caminhamos, chegamos ao fundo do terreno, espécie de corredor natural ao lado de um lago. O narrador sugere que ouçamos atentamente aos relatos em primeira pessoa de alguns dos sobreviventes daqueles anos. Falam das dores pessoais, da nação destroçada e da necessidade de achar caminhos para a memória e a reconciliação: entre eles, julgamentos. Por ali, mas do lado de fora da grade de arame, uma nova geração de cambojanos tenta também sobreviver: saídos de um casebre muito humilde, quatro meninos muito pequenos e magrinhos choram de mãos postas, pedindo esmolas àqueles que se ligam ao passado por um radinho.

O ponto em que os ossos brotam

Estima-se haver 3 mil campos como esse pelo país, mas o “Centro de Genocídio de Choeung Ek” (uma tradução do nome oficial) é onde está o maior memorial. Neste único local foram assassinados mais de 20 mil pessoas, às vezes a tiros, mas comumente a golpes, com a justificativa de economizar munição. Os corpos eram diretamente atirados nas valas coletivas de 5 metros de profundidade e, depois, cobertos por químicos, como DDT, para evitar o mal cheiro. Boa parte dos ossos foram removidos e tratados para fazer parte do memorial. Apesar disso, e do frequente cuidado com o sítio, é fácil ver ossos e dentes que, com o tempo e a chuva, seguem brotando do chão.

As vítimas eram trazidas em caminhões da prisão S-21, localizada na capital, um centro de tortura hoje transformada em museu sobre o genocídio (chama-se Tuol Sleng). A meticulosa contabilidade do regime garantia que ninguém escapasse, nem os bebês, cujas cabeças foram esmagadas em uma das árvores do que hoje é um jardim. Justificavam que nenhum bem havia em mantê-los vivos, por mais jovens. E que poderiam, mais tarde, resolver vingar seus parentes.

Os detalhes da brutalidade, aquela racionalidade irracional e incompreensível, seguem sendo explicados por mais de uma hora no áudio. Em certo ponto, diante de uma linda árvore, somos convidados a escutar uma música. Era a última ouvida pelos que pereceram diante do Khmer Rouge. Ela não deixa de ser uma punhalada sobre os ouvintes, obrigados a sair do transe cotidiano e ver a realidade – dos cambojanos e de tantos outros povos que sofreram, e como bem lembra nosso narrador, sofrem hoje, a dor do genocídio. Cita vários casos do passado recente conclamando a todos e todas para que estejam alertas e lutem contra tais barbaridades.  Fosse escrito hoje, o roteiro também mencionaria palestinos, sírios, nigerianos…  

 

 

  • Para saber mais acesse os dados do Centro de Documentação do Camboja: http://www.dccam.org/
  • Não se trata de obra prima, mas para saber mais sobre o regime vale assistir ao filme The Killing Fields (1984), história real do tradutor cambojano Dith Pran e do repórter do NYT Sydney Schanberg  diante da tirania de Pol Pot e do Khmer Rouge.

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