Todo dia a mesma coisa: calculadora em punho, bloquinho a postos: para o carro (branco!), tentamos fazer entender onde queremos chegar, negociamos o preço. Entramos. Cumprimentamos a todos. Respondemos às perguntas. Nos despedimos.

O transporte da Grande Teerã é feito de ônibus, metrô (com certas linhas que só existem nos mapas da estação) e táxis: os “de verdade” e os “informais”. São os últimos que fazem a vida rodar. Neles você pode, quem sabe, ouvir juntas as palavras “Lolita” e “Teerã”.

Alguns meses antes de deixar o Rio de Janeiro, fiz como costumava em fins de tarde enfadonhos, quando sabia que a estação de barcas exibiria filas intermináveis rumo a Niterói. Desci a escada e me meti no sebo Beringela, na avenida Rio Branco. Toca música que me agrada e eventualmente topava com algo que nunca pensei ler. Aí compro. Nesse dia comprei um livro pela capa. Ou melhor, pelo título: “Lendo Lolita em Teerã: memórias de uma resistência literária”.

A quarta capa informava que a autora Azar Nafisi – fotografada aqui sem o véu – escreve sobre a vida de oito mulheres – ela, inclusive – reunidas secretamente para explorar a literatura ocidental proibida posteriormente à Revolução Islâmica de 1979.  Aprendi no mesmo texto que Nafisi deixou o Irã em 1997 e que era professora na Universidade de Teerã quando o aiatolá Khomeini liderou os primeiros dias de revolução. Em seguida, comecei a ler sobre como ela convidou um grupo de alunas para frequentar semanalmente sua casa e entendi que os temas logo passaram a variar de Nabokov, Austen e Henry James para a repressão às unhas vermelhas mesmo sob luvas. Frequentemente fugiam das conversas sobre literatura para a obrigatoriedade dos véus – sem os quais cada aluna ganhava forma e se tornava “singular” – e teciam comentários sobre seus próprios dramas amorosos, comuns a qualquer cultura. Era frequente também um certo dilema que toma a vida de várias delas: ao mesmo tempo decididas a deixar o país por oportunidades e pesarosas em abandonar a pátria “aos outros”. E assim se fariam diálogos entre ficção e realidade, relatados, como nota a própria autora, nos limites da fidedignidade permitidos pela memória.

Nos últimos dias de 2015 estreou no Brasil Táxi Teerã, “falso documentário” de Jafar Panahi. Atrás do volante o aclamado cineasta iraniano vai apanhando passageiros ‘de mentira’ pelas ruas da capital. De cara, um deles questiona o status de realidade da peça. Entre conversas sobre política, religião, censura ou nada disso, vão caindo véus de certos preconceitos ocidentais sobre a sociedade iraniana. O principal, o de que uma única opinião circula. Vão sendo questionados os critérios legais que confrontam “filme exibível” e qualquer possibilidade de fazer bom cinema. Explicam que um filme exibível não pode ter fatos negativos e não deve batizar personagens principais com nomes não islâmicos. É vedado que os personagens principais vistam uma gravata, por exemplo.

Os vidros do carro de Panahi vão exibindo os grandes painéis pintados em homenagem aos heróis da guerra contra o Iraque, as bandeiras iranianas flamulantes sobre cada ponte. Por ele assistimos o desfile de mulheres com seus véus negros, com seus panos coloridos, com a boca pintada, com vestido de noiva. O conflito da riqueza e da miséria. Vemos umas casas bonitas, uma via que é puro tumulto, um acidente. Tudo são também nossas memórias dessa grande cidade. (Sobre nossa experiência, leia aqui)

E, pelo cinema, quem viajou, mais uma vez, viaja.

Panahi foi preso em 2010, acusado de estar preparando um filme contra o regime, na esteira da reeleição do ex-presidente Ahmadinejad, seguida por uma série de manifestações de rua. Fatos de 2009. Ele sempre negou a produção, mas foi proibido de filmar qualquer coisa depois de liberado sob fiança. Mesmo assim, de lá pra cá seguiu burlando normas, filmando criticamente e garantindo êxito internacional – realmente sempre me pergunto, sem respostas, como pode não ter voltado a ser preso. Mais que tudo, o novo filme me fez pensar sobre como é possível gostar tanto de um lugar com tais problemas. No entanto, o que importa aqui é um de nossos muitos Taxis em Teerã.

Primeiro entrou uma senhora que falava inglês impecável. Perguntou certas coisas corriqueiras – algumas daquelas perguntas que todos vão ouvir (não sabe quais? clique aqui). Tudo naquele tom constantemente simpático que os iranianos sabem fazer. A seguir entra mais uma senhora, amiga da primeira, que lhe explica quem são os estrangeiros: brasileiros, viajantes, vai saber o que disse… conversam em Farsi, mas apontam para nós. E seguem muito alegres ao meu lado. Aí ouvi as palavras “Lolita” e “Teerã”.

Durante todo o final daquele percurso, no cinema, e ainda hoje, gostaria de saber o porquê de eu não ter interpelado a simpática senhora. Qual seria o tema daquela conversa? Ouvi mesmo estas palavras? Elas referiam-se ao livro que descansava em alguma caixa no Brasil? Lições de viagem: perguntar, (quase) sempre.

Depois do falso documentário de Panahi, voltei à Lolita de Nafisi. Reli e segui até o fim, investigando a história a partir de um olhar particular: feminino, intelectualizado, secular e até estrangeiro pois Azar estudou na Inglaterra quando era menina. Por estas páginas  – e bebendo as referências de minhas próprias memórias – pude imaginar com detalhes os contornos do Alborz, a cadeia de montanhas ao Norte da cidade, que se refletia no espelho da casa da professora. Cada uma das alunas ganhou uma feição quase real, roubada das moças dos mercados, das praças, do Museu de Cinema e dos taxis. Quis saber se elas gostavam do suco de romãs tanto quanto nós. E me lembrei das senhoras e de Teerã a cada página. Continuarei curiosa por saber se elas leram Lolita nessa cidade onde tantos vivem vidas duplas. Teerã é onde o vendedor de filmes piratas não esquece de ter entregue o último lançamento de Woody Allen na casa de Panahi. E classifica seu trabalho como o de divulgador cultural. É um diálogo do filme. Sei que é falso e sei que é real. Teerã é onde Nafisi protestou contra a obrigatoriedade de usar o véu tanto quanto sua avó fizera anos antes, mas porque o Xá instituiu a norma inversa. Epicentro do presente e do passado recente daquela nação milenar, Teerã é onde cada taxi torna-se a chance de uma nova história.

 

REFERÊNCIAS:

*Taxi Teerã, Jafar Panahi, Irã, 2015

*Lendo Lolita em Teerã. Azar Nafisi. Rio de Janeiro, Edições BestBolso, 2009.  

*Quer chegar a Teerã? Pois veja aqui como carimbar seu passaporte: O visto do Irã     

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