Mianmar tornou-se em nossas memórias um lugar peculiar. Quando me perguntam do país no Sudeste Asiático a primeira imagem que me ocorre não é a dos incontáveis templos de Bagan; da opulência das toneladas de ouro da Shwedagon Pagoda, em Yangon; ou mesmo da paz e calma do lago Inle. Não há por ali uma paisagem tropical que tenha enchido meus olhos, nem um tempero especial que tenha agarrado meu estômago. Mianmar, pra nós, é gente. Gente que ficou tempo demais sob ditadura e passa agora por mudanças rápidas. Que encontra pela primeira vez com um turista, que quer saber do mundo lá fora, que deseja nos apresentar ao mundo deles. É por isso que Mianmar para nós é bem mais que Bagan, Inle, Yangon ou mesmo Mandalay.

Poderíamos enumerar estes como quatro destinos “obrigatórios”, se guiados por livros de viagem. Se quem nos lê já mochilou por aí, está careca de saber: por mais que haja uma quantidade razoável de arrogantes que juram viajar só pelo feeling, a maioria carrega sob o braço um guia Lonely Planet (ou Rough Guide, ou Routard, o que seja) e chega ávida por agarrar uma cópia ensebada disponível no hostel mais próximo. Nenhum pecado, exceto a arrogância, claro. Mas em Mianmar, onde turismo é coisa recente, gostamos muito foi do que achamos nos rodapés, nas letrinhas miúdas e sem destaques, ou nas coisinhas que lemos anotadas em quadros de avisos aqui e ali, ou espalhadas pela internet.

Assim chegamos, por exemplo, a Pyin Oo Lwin. Vínhamos de Mandalay, uma cidade feia, talvez presente nos guias menos pelo palácio real, pelo por do sol no morro que lhe batiza ou por qualquer das onipresentes pagodas. Trata-se de ótimo ponto de partida para viagens de um dia ou para seguir ao norte. Fazia um calor insuportável naquela época. E os burmeses esperavam as chuvas de monções para breve. Quanto a nós, restava dar incontáveis voltas de bicicleta pelas ruas largas, planejadas e pouco arborizadas, contando com mais um banho de mangueira a cada esquina como parte das comemorações do Ano Novo em seu grande Festival das Águas. Tudo parecia especialmente caótico com a juventude tomando as ruas em trajes punks – sim, punks! – e muito muito álcool, gerando uma certa insegurança no trânsito da cidade… Foi em direção a Pyin Oo Lwin nossa fuga deste estranho carnaval.

A cidade, antes também conhecida como Maymyo – tudo em Mianmar tem muitos nomes -, foi criada como posto militar e teve entre moradores famosos o jovem George Orwell, que mais tarde escreveria, entre outros, um romance inspirado nos dias em que Mianmar (antes Burma) fazia parte do Império Britânico: “Dias Burmeses”. Restam alguns prédios em moldes ingleses, a exemplo da antiga torre do relógio bem no centro da cidade e de um grande hospital, além do Palácio do verão do governador da Burma Britânica, que hoje abriga manequins (!) sombrios e pode ser alugado por algumas centenas de dólares. Se a grande atração é, sem dúvida, o Jardim Botânico Nacional Kandawgyi, ele seria bem menos interessante – por demasiado europeu – sem os onipresentes longuis – saias usadas por homens e mulheres – e os rostinhos protegidos e ornados por tanaka – uma seiva que elas e as crianças usam. Passamos por lá em dia feriado e o lago verde, super bem cuidado, combinava com os tons do gramado e contrastava com as gentes que se divertiam – e se cristalizaram em nossa memória.

Participamos da festa oferecendo as cabeças para mais algumas ‘garrafadas’ de água dos pequenos (o festival das águas parecia nunca acabar) e comendo uns bolinhos que iam sendo cozidos em fogueiras num canto do parque. Parece que oferecer comida no Festival das Águas dá boa sorte e recusar soava como uma ofensa bem grave. Bem, a verdade é que aceitar era gostoso e, depois de muito pedalar, a comida parecia mesmo coisa de boa sorte.

Também de notas acanhadas nos saiu a ideia de ir a Monywa. Definitivamente não é lugar para achar obras de arte. Mas dificilmente você verá tantos budas em um único dia de sua vida. A diversão começa com a descoberta do ponto de ônibus. É como chegamos a cidade, 130km distante de Mandalay. Na rodoviária meio decrépita, tome cuidado: se venderem todas as passagens vão mandar o motorista partir com ou sem você! (Obviamente partiu sem nós!) E nos restou ficar ali na poeira, conversando com quem esperava a próxima condução.

Para chegar do centro a Thanboddhay alugamos uma dessas motos automáticas chinesas que todo mundo em Mianmar pilota a uns 40km/h – custam cerca de U$ 400, segundo nos contaram, e pareceu bastante dinheiro considerando um salário mínimo de U$ 84 (Reuters). O templo é o mais famoso da cidade, com mais de 500 mil (!!!!!!!!) imagens do buda. E jamais desafiaríamos esta conta: são estatuazinhas de uns 15 cm recobrem cada cantinho, de cada parede. Como sempre, ainda mais em lugares assim fora da rota, tão interessante quanto ver a coleção de budinhas é passar o tempo tentando interagir com os outros visitantes, todos impressionados com a presença dos ilustres desconhecidos.  

Inversamente proporcional em termos de tamanho das estátuas, mas não em tamanho da fé, também por ali visitamos “Maha Bodhi Tahtaung Laykyun Setkya”, uma tal estátua do buda de pé: são 129m de altura, 31 andares e número significativo de degraus (já comentamos sobre o calor que fazia!?) a serem percorridos pelos peregrinos. Há muito a aprender com as pinturas em todo o interior do templo: definitivamente o inferno cristão parece bem tranquilo diante do que terão na próxima vida caso não se comportem bem nesta! Além de mais um buda de 95m, este reclinado, o lugar está repleto de mais estátuas (budas, claro) e de peregrinos curiosos com você.

Hoje nos deparamos com dezenas de fotos desses desconhecidos que fomos colecionando. Em boa parte delas aparecemos nós também, ao lado deles, sorridentes e em poses de “V” da vitória que jamais faríamos em outras condições. Mas se pareciam tão felizes em poder povoar nossa memória para sempre, ou fazer com que seus filhos povoassem, porque não fotografar?! Aí a grande graça de Mianmar: essa simpatia sem preço e sem guia.

2 thoughts on “A grande graça de Mianmar

    1. Obrigada, Fernanda 😀 Inspirador é ler reações como as suas (Ainda mais pra memórias que eu prezo tanto)! Continue seguindo que vamos continuar publicando pra distribuir dicas e pra matar saudades, Abs!

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