Pela primeira vez me senti, em proporções iguais, feliz e estressada por embarcar na segunda classe de um trem. Não havia classe pior. Meus olhos festejavam a variedade de cores que a primeira classe nunca nos conferiria – não que eu seja experiente em primeiras classes, mas sei. Festejava as crianças, as bolsas excessivas, o barulho e até o suor que brotava naquele calor que esperava a chuva das monções. Ao mesmo tempo: que dor na bunda! ‘Céus! Como um trem que pula tanto não sai do trilho?!’, eis um pensamento dominante. Foi assim, com felicidade e sofrimento – e despertando a curiosidade geral – que desembarcamos em Kyaukme.

Entendam: ninguém não-burmês-ou-de-alguma-outra-etnia-de-Mianmar desembarca em Kyaukme! (Quase) ninguém conhece esse lugar (ainda). O roteiro do Lonely Planet indicava (agora Kyaukme está no guia na internet) que todos deveriam seguir no trem até Hsipaw. E nunca é demais dizer que a maioria dos turistas que passaram a explorar este país recentemente aberto aos visitantes segue à risca o que diz o guia. Hsipaw é descrita como o lugar onde seria possível contratar guias para diversas rotas de trekking entre as pequenas vilas do estado Shan, onde vivem uma das minorias étnicas do país. Daí a cara de espanto dos turistas – e locais – que nos olhavam descer de dentro da antiga composição que seguiria seu caminho, lentamente, sem dar permissão à entrada de um só sopro de vento aos passageiros exaustos. Paramos aqui graças às extensivas pesquisas somadas às recomendações efusivas do simpático dono da pousada Royal Flower, em Pyin Oo Lwin.

Ir a Kyaukme – independentemente do bilhete de trem que você escolher – vale à pena também pelo caminho. O ponto mais famoso da ferrovia que liga Mandalay a Lashio, construída pelos ingleses na época em que o Império dominava a região, é o viaduto Gokteik, considerado um triunfo da engenharia: quando foi construído não havia outro maior. Mas as vilas e pequenas estações, sempre com aquela cara de abandono tentando nos enganar enquanto fervilham em comércio, chamam tanta atenção quanto a ponte elevada. Além disso, nada pode ser mais refrescante em Mianmar que uma noite em Pyin Oo Lwin, a velha Maymyo, onde os ingleses no tempo do império – inclusive o escritor George Orwell, naquele tempo um jovem oficial – fugiam do calor. Os jardins da cidade ainda transportam o visitante à Europa. Por mais que se possa questionar como podem ser tão bem mantidos diante da pobreza e dos problemas estruturais em cada uma das outras esquinas que visitamos em Mianmar, sempre voltam à memória em seu irresistível colorido.

Nosso velho oeste (ou ‘velho nordeste’?)

Pensem em um filme de cowboy. Desembarcam os forasteiros na estação empoeirada, atravessam a plataforma, seguem pela rua. Ao dobrar a primeira esquina já estamos na avenida principal. Mais larga, mas ainda sem movimento. A poeira nos cerca. São mais ou menos 14h, não vemos sinal de um único restaurante aberto, à exceção de um grande ‘boteco’ à esquerda. Paredes verdes muito sujas, mas voltaremos porque, realmente, não há outro canto em que achar uma sopa Shan por aqui – deliciosa mistura de temperos misteriosos com molho de tomate, macarrão de arroz e cebolinha fresca.

Seguimos buscando um hotel. Há dois: um é mantido pelo governo. E por isso preferimos o outro: no caso do regime autoritário de Mianmar, estamos com os pequenos estabelecimentos privados o mais que pudermos. Uma senhora agradável e seu (muito) jovem ajudante nos atendem na Northern Rock. É sua própria casa, com quartos improvisados alugados por preço de banana (ou menos). O luxo é um ventilador para nos salvar da morte por derretimento. Não era exagero de Orwell quando escreve seus “Dias na Birmânia”: faz mesmo muito, muito calor antes da chegada das monções no fim de abril. O marido da senhora joga golfe: como sabemos? Treina tacadas todo o tempo. E nos surpreende ao contar que custa apenas $3 pra se divertir nos campos gramados por aqui.

Na varanda da sacada conhecemos Joy, nosso guia. Magrinho, vinte e poucos anos, professor de inglês, cheio de planos para o futuro. Ele é da minoria Shan. E, no caso, do povo que é maioria nesta região – não por acaso estamos no estado “Shan”. Ter um guia que fala a língua local, além de burmês e inglês, facilita muito o processo porque, nas aldeias, a maioria não compreende a língua oficial de Mianmar. Joy não precisa de muito para ganhar nossa simpatia e convencer-nos a ir de moto para as montanhas: como já anotamos neste blog, não somos bons pilotos para nada. Mas o calor intenso e a promessa de ir bem mais longe ganham na argumentação. Antes de nos despedirmos, respondemos a algumas perguntas dos tímidos alunos de inglês do Joy e recebemos algumas instruções para seguir por três dias de carona ou conduzindo uma ‘motinha’ semiautomática em estradas de terra.

Pedro Alvares Cabral feelings

Estamos em Mianmar durante o festival das águas, quando budistas de várias regiões do sudeste asiático comemoram seu novo ano. O nome do festival não engana sobre o mote da festa: são dias de ‘mangueiradas’, baldes e garrafas sendo esvaziadas na cabeça de quem passa na rua. Mas, para os agricultores da região, ainda não estava encerrada a festa. Faltava seguir em procissão em motos, caminhões e tratores rumo aos numerosos monastérios. Nesta época aproveitam para levar oferendas aos monges. Nossa primeira parada foi em uma destas festas locais. Por lá nos impressionamos com os chapéus cônicos das mulheres Shan, provamos uma iguaria local – salada de folhas de chá preto fermentadas e amendoim torrado – e entendemos o sentido de uma viagem por aqui, neste momento. Estávamos tão impressionados com as pessoas quanto elas conosco. Eu nunca tinha visto um Shan na vida. Eles, provavelmente, nunca tinham visto uma brasileira (ou até mesmo uma ocidental). Faz meses que circulamos pela Ásia, mas ainda nos impressiona sentir o tanto que somos diferentes – e iguais: quase disputávamos em curiosidade.

Foi assim em cada vila que passávamos. As casas sempre muito humildes, construções com as paredes feitas de bambu trançado e, de poucos anos para cá, telhados de palha substituídos por barulhentas telhas de Eternit. No cômodo central – costuma haver ao menos um quarto – há um metro quadrado no chão reservado para cozinhar com carvão. Sempre nos serviam comida farta e saborosa: noodles shan, salada de folhas de chá, legumes refogados. O banheiro é uma casinha improvisada com fossa a alguns metros de distância das casas e nenhuma iluminação. Chuveiro? Não vimos nenhum.

A paisagem é bonita, montanhas se sobrepõem até o horizonte. Contudo, para quem sai de outro país tropical não creio que chegue a impressionar pelo esplendor. Na realidade, é assim em todas as partes por onde passamos em Mianmar: percebemos que as florestas foram removidas faz muito tempo. Exploração de madeira, plantações de chá, as necessidades das próprias famílias em aquecer-se, cozinhar, construir. Tudo isso dilapidou o patrimônio natural. Ao olhar uma foto do Brasil que lhe demos de presente, um de nossos anfitriões se espantou com a vista da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro – e o espanto dele também é a medida do nosso. Se a paisagem dos Shan (e dos Palaung, outro grupo que habita a região) não é das mais verdes, a recepção fez valer cada buraco e todo o pó.

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